Juliana se jogou

“Você morreria por mim?”, a gente tinha acabado de ver o filme The Doors, e Juliana estava deitada na cama usando a minha camisa de pano do Flamengo, que em seu corpo franzino parecia uma tenda. Deitada, dava pra ver toda a extensão de sua coxa e um pedaço da bunda, enquanto eu fumava um cigarro na sacada, nu. “O quê?”, perguntei, já sabendo ao que ela se referia, “Igual ao filme, cara, quando Jim se pendura no parapeito da janela e pergunta para a Pam se ela morreria por ele.”, “Sei”. “E aí?”, “E aí o quê, menina?”, “Você morreria por mim?”, “Ah, claro”. Ela então sentou-se em apoios de cotovelos e abriu as pernas, forçando a camisa a subir um pouco e revelar sua nudez. “Então pula”, “O quê?”, “Pula agora daí”, “Você é louca”, apaguei o cigarro no mármore e atravessei o quarto para pegar mais uma cerveja. “Sou louca por você, vem cá”, e a cerveja ficou esperando com o déficit de apenas um gole enquanto ela tirava a minha camisa.

“Você é todo fresquinho, cheio de cavalheirices, mas trepa igual a um estivador”, “Você já trepou com um estivador?”, “Não, nunca, mas me dá tesão essa brabeza toda, um dia que eu encontrar um estivador bonito eu dou pra ele. Você já vai fumar de novo?”, acendi o cigarro ainda sentado na cama. “Ah, fica aqui comigo um pouquinho”, “Deixa eu fumar na sacada senão o quarto vai ficar todo fedendo a cigarro”, “Fuma aqui mesmo ué, você fuma e não gosta de cheiro de fumaça”, a verdade é que eu gostava de fumar sozinho, suspirando e me projetando na fumaça que eu jogava para fora do quarto, mas era o tipo de coisa que você não falava pra mulher nenhuma. “Então, você morreria por mim?”, “Voltou você com esse papo…”, “Achei bonito o Jim se colocar em risco pela Pam”, “Jim Morrison era um nutjob foda, pessoas normais não agem assim.” Emburrou. Fez bico e se levantou para ir ao banheiro contíguo, e gritou lá de dentro, a voz misturada ao barulho da urina na água do sanitário: “EU MORRERIA!”, nem perguntei o quê porque sabia que ela me contaria quando voltasse e não gosto de ficar gritando. Ela voltou e ficou catando a calcinha no chão. Quando achou, colocou dando aquele meneio de cintura que as mulheres sempre dão pra calcinha passar pela bunda, não importa o tamanho — da calcinha ou da bunda. Eu achava aquilo quase mágico, impressão digital. “Eu morreria por você, me dá um cigarro aí”, “A han”, “Você duvida?”, “Duvido de nada, você é maluca”, “E o que tem depois daqui?”, fez um gesto como se mostrasse uma fazenda de gado para um comprador uruguaio, “Daqui desse quarto?”, eu ri porque já sabia que não era isso, “Não, daqui, daqui dessa vida. Você é espírita, não é?”, “Sou mais ou menos… Gosto da doutrina, o que não gosto é de ser doutrinado”, “Eu não acredito em nada, estou pouco me fudendo para essas ideias de eternidade, expiação e culpinha cristã”, “Você é linda”, “Ah, nem vem, eu falando coisa séria e você me distraindo”. Eu gostava daquele sorriso, dessa coisa de ver o mundo à bangu, de tudo ao mesmo tempo agora e agora já passou. “Quer ver como eu morreria por você?”, “Não precisa”, mas ela já estava indo abrir a janela do quarto do hotel, “Dessa altura você vai conseguir é ficar aleijada, isso aqui não é o Edifício Joelma”, o prédio era antigo, pé direito alto e janelas que pareciam portas. Ela escancarou as duas abas e a luz das lâmpadas da rua se projetaram alaranjadas na mancha de infiltração do teto, “para com essa palhaçada, se você se jogar daí eu vou acabar sendo preso”, “Caguei, eu vou estar morta mesmo”, “Então você vai morrer por mim e eu ainda vou me fuder por isso? Passo”. Ela riu e se apoiou com as duas mãos, braços abertos, as coxas espremidas na pequena grade enferrujada da sacada, “Você não sabe o que é amor, a gente se encontra aqui de vez em quando, trepa e vai embora, e eu passo cada minuto de sua ausência à espera de um telefonema seu, enquanto você segue com sua vidinha burguesa voando pra lá e pra cá pra vender essas merdas que você vende”, “Ideias, eu vendo ideias”, “Porra nenhuma, você vende aplicativos pra celular, esse monte de reunião, network, e a groselha de ´ah, não tenho tempo pra relacionamento´, mas não percebe que o que a gente tem é um relacionamento, minha mãe falava que se você trepa com alguém mais de três vezes é um relacionamento sim”, “Quantas vezes a gente já trepou?”, “Desde que fizemos o check in no hotel ontem?”, eu sorri da piada, ela se virou de costas pra mim, se empinando debruçada para além da grade. “Para com essa porra”, “Eu morreria por você, deixa eu te mostrar”, passou uma de suas pernas longilíneas por sobre a grade, depois a outra. Agora ela estava virada de frente pra mim, nada que detivesse seu corpo até o baque no asfalto. Levantei. Ela deu uma risada. “Ficou com medinho, foi?”, “Sai daí, Ju. Na boa, não precisamos disso”, “Ah, você está com medinho! Olha, com um pé só!”, ela se apoiou com as mãos sobre o balaústre e levantou um dos pés para trás, como uma bailarina — “Eu morreria por você agora”, “Para com isso, cara. O que eu preciso dizer para acabar com essa palhaçada?”, “Diz que me ama”, “Mas…”, “Eu sa-bi-a! Você não vai dizer, não quer ser escravizado pelo seu sentimento, nem pelas palavras, mas quer saber? Eu te amo, eu TE AMO, e morreria por você”, Juliana então pisou novamente com os dois pés no parapeito, e flexionou os joelhos como se fosse pular de costas para a rua. Eu me lancei no espaço que nos separava como um goleiro em um escanteio, e agarrei com tanta força o seu pulso que tive certeza de que quanto tirasse minha mão a marca esbranquiçada dos dedos estaria envolvida pelo vermelho claro do sangue sob a pele branca. Ela deu uma gargalhada. “Eu estava brincando”, “Brincadeira do caralho, essa”, “Ah, cara… Você acha mesmo que eu ia me matar por sua causa? Você não é isso tudo não… Agora larga meu braço”, “Só quando você passar para o lado de cá da grade”, “Larga meu braço, tá machucando”, e puxou, soltando o braço do meu. O movimento quase fez com que ela perdesse o equilíbrio. Ela apenas sorriu. “Tá, acabou, agora sai da frente pra eu pular. Vou fumar um cigarro, colocar a roupa e ir embora”, “Você não precisa ir embora agora”, “Não, deixa. Esse papo me deixou chateada”, “Mas era brincadeira, sacanagem agora você ficar puta comigo por causa de uma brincadeira”, “Não estou puta não, deixa pra lá”, me afastei e ela levantou a perna direita para passar por cima da balaustrada que separava a varanda do apartamento do resto do vazio entre os prédios. “Eu não estou puta, mas também não sou a sua puta”, “Eu nunca disse isso, Juliana”, “É, mas é assim que eu” — a perna que estava ainda no piso vacilou, escorregou e ela caiu. A perna direita ficou enganchada na grade por um tempo ínfimo e eterno, como uma boneca de pano com pernas de plástico, mas por fim cedeu ao peso e seu corpo foi lançado no espaço, desengonçado. Sem um grito, sem uma lágrima. A expressão deve ter sido de espanto, a boca em círculo, mas eu não vi, apenas ela estava ali na minha frente em um momento e no outro não, até o baque no chão como madeira molhada batendo em cimento.

“Você morreria por mim?”
“Jim Morrison era um nutjob foda…”
“Eu morreria por você.”
“Duvido de nada, você é maluca.”
“O que tem depois disso aqui?”
“Eu te amo”.

Acendi um cigarro e esperei as sirenes.