O último suspiro

Envelhecer é um processo doloroso, como podem atestar minhas juntas e minha gengiva. Porém o pior de se durar tanto é tornar-se expectador desprivilegiado da História. Incapazes de alterar o curso da maioria das coisas, vivemos o suficiente para ver o resultado negativo da maioria de nossas decisões, e das decisões que tomaram por nós.

Existi o bastante para acreditar que a afirmação das minorias iniciada nos anos 90 e em franca ascensão até os anos 10 lograria êxito. Confesso que, após a legalização da união civil entre pessoas de mesmo sexo em 2015, cheguei a achar que viveríamos enfim uma era em que as pessoas deixassem de ser avaliadas por questões tão escrotas como cor de pele, opção sexual ou beleza estética, um mundo onde a coletividade fosse maior e mais importante que a soma de suas partes. Mas eu era um tolo, e agora sou um tolo velho, a sentir pingar o sangue do braço enquanto cambaleio pela Av. Rio Branco.

O buraco de onde eu tirara o chip agora coçava terrivelmente. Encostei-me nas grades de onde havia sido o Teatro Municipal, agora tombado e intangível. Eu estava sozinho, e a única certeza era a de que tinha que chegar a Angola o mais rápido que pudesse, ou não veria o dia amanhecer novamente. Tateei o bolso direito da calça para conferir se meu contrato com o canhoto ainda estava lá.

Se eu ainda pudesse pegar um táxi… Mas automóveis e ônibus foram banidos da cidade após Grande Engarrafamento de 2036. Após 9 horas em que nenhum carro podia se mover em um raio de 50 quilômetros, em lugares tão distantes de si como Queimados, São Gonçalo, Itambi e Valença, os motoristas abandonaram seus veículos, e o governo federal precisou intervir e interditar as vias. Foram precisos três anos para que todos os veículos fossem retirados, muitos já carbonizados, saqueados, esquecidos. Desde então, havia cancelas na entrada de todos os municípios, barrando automóveis estrangeiros. Fronteiras foram definidas, e todo o transporte intermunicipal era feito por trens (que herdara de seus primos arcaicos apenas o fato de andarem em trilhos definidos) e via aérea, pelos privilegiados que podiam custear. No centro da cidade, apenas veículos da onipresente e potente polícia governamental.

Eles me espotaram ainda no Cais. No momento em que saí do hall onde ficavam os armários da estação, percebi pelo canto do olho a movimentação do segurança. Em poucos minutos, um carro de polícia parava na saída, e olhares espelhados catamilhavam entre os passageiros das balsas. No banheiro, tirei o chip de identificação subcutâneo obrigatório, rasgando a pele com os dentes. Só havia um lugar onde eu estaria seguro, e não podia correr o risco de ser localizado.

Tudo começara com a eleição do Pastor Marcos para presidente em 2018. Isso abriu caminho para uma série de retrocessos e caretices nunca antes vistas. Logo de cara, foi cancelado o plebiscito em que a população decidiria quem matava menos, as drogas ou a polícia. A mesma polícia que começara, ainda em 2017, a ganhar ares de onipotência e infalibilidade, adquirindo o poder de julgar e executar, de acordo com as leis estabelecidas pelo Estado de Exceção instaurado após a “Guerra Civil da Maré”, como a mídia chamara. Um extermínio generalizado que durou quatro dias, quando as forças do Estado — polícias, forças armadas e bombeiros — realizaram um cerco ao Complexo da Maré e foram deixando corpos e precedentes éticos no chão. Luzes foram apagadas, sinais de telefone abafados e, após um acordo conivente que baniu a imprensa, o cerco ia se fechando e deixando cadáveres pra trás. A sociedade sabia o que acontecia, mas dava as costas e aplaudia secretamente o expurgo que era realizado ali. Os grandes veículos de comunicação — com o auxílio de seus escritores comprados — pintavam uma batalha épica, onde os bravos heróis defenderam a sociedade contra saraivada de balas criminosas. Mentira, o que se via nas imagens clandestinas, passadas de um celular para o outro, eram corpos e mais corpos de gente de todas as idades e cores, cujo único crime havia sido ser pobre, fardado ou não.

Daí para a eleição de um presidente fundamentalista foi um pulo. O pastor Marcos acabou cristalizando as ambições de quem se arrogava detentor do bom gosto e da moral, e tirando do armário um amplo espectro de reacionários. Homofóbicos, racistas, machistas e todos os outros animais intolerantes elegeram o pastor sob a coação hipócrita de “moralizar o Brasil”. Nós, os outros, assistíamos a tudo estarrecidos, achando que o ridículo teria fim em algum momento, mas não. Amizades de décadas foram desfeitas em violentas argumentações, famílias divididas… Eu mesmo não imaginava que pessoas tão próximas aderissem com tanta facilidade a essa parvoíce. Mas o pior ainda estaria por vir.

Quando chego à Cinelândia, lembro-me da profusão de pombos que havia aqui, e do quanto eu gostava de correr para espantá-los. Mas os pombos se foram há muito tempo, juntamente com os mendigos, vitimados por um fungo que eliminou todas as formas de vida expostas à porquidão e ao destino. Os que não morreram com o fungo sucumbiram com a higienização progressiva adotada pela prefeitura, que lavava as ruas, calçadas e fachadas com um composto químico de cheiro tão insuportável que fazia as narinas sangrarem, com ou sem unhas. Dizia-se — a bocas miúdas — que o produto era fabricado pelo mesmo laboratório israelense que apresentara a “solução final” para a antiga guerra da Palestina. Crê-se que pacotes turísticos para a região voltarão a ser vendidos ainda no final de 2076.

O Presidente Marcos pautara seu primeiro mandato na Bíblia, governando e empurrando goela abaixo do congresso projetos de cunho religioso. A intensa e violenta repressão de uma polícia totalitária dava resultados aos olhos da sociedade — ao custo de banhos de sangue que fariam corar a máfia siciliana. Gigantescos eventos — uma mistura de culto e comício elevada a proporções salomônicas — garantiam sua popularidade, e a diminuição dos índices criminais levou-o à reeleição, e a uma funesta composição da Câmara dos Deputados e do Senado, onde os retrógrados e fundamentalistas ocupavam oitenta por cento das casas anteriormente ditas do povo. Foi quando começou a verdadeira guerra santa.

O amplo poder dado ao combate das drogas, e a licença para matar dada à polícia acabou com o tráfico. Leis e decretos foram instituídos com a desculpa de “proteger a família”, e em pouco tempo o Sistema de Saúde começou a castração química compulsória de homossexuais, criminalizando e banindo para presídios na Região Norte aqueles que se recusavam a participar da famigerada “cura gay”. O presidente, navegando nas graças da opinião pública, elege seu sucessor, consolidando o poder religioso. Houve uma tentativa de se proibir as bebidas alcóolicas — frustrada, mas que deixou sequelas tributárias tão restritivas quanto — e, finalmente, os olhos do Legislativo se voltaram contra o cigarro, vítima fácil e combalida. O cigarro entrava agora na categoria de drogas ilícitas, e comercializar, portar ou usar a substância era crime. Outras leis pétreas se seguiram, e eu duvido que alguém pensaria que em um espaço tão curto quanto o de 50 anos viveríamos em um país onde era crime fumar, beber fora de sua casa, ou amar fora dos limites impostos por um código de moral escrito há mais de dois mil anos.

Chego ao Aterro. As luzes do Pão de Açúcar pareciam brilhar mais e concorrer com os veículos aéreos, já que o racionamento compulsório transformava os postes em grandes árvores petrificadas, sem função. Eu conseguia ver as sombras se moverem do outro lado, se aproximarem da grade enquanto buscava um buraco por onde pudesse entrar. O antigo Monumento aos Pracinhas agora era um monstro arquitetônico, com a incorporação do Memorial aos Soldados Caídos na Guerra da Água de 52, e ainda abrigava centenas de seus refugiados. Após a guerra e o fatiamento territorial das Áfricas entre os grandes conglomerados financeiros, a população africana foi dividida entre os países mais ricos, e o Brasil ainda não conseguira incorporar completamente a cota que lhe coube. Em cada estado, havia esses híbridos de senzala e campo de concentração — este do Rio era chamado de “Angola” — terras sem lei onde a única regra era não atravessar os muros e grades. A grande mídia alardeava imagens de africanos bem sucedidos após a integração, mas só aqueles que ainda ousavam vir a lugares assim sabiam o grau de sofrimento dessas pessoas. Sofrimento e liberdade. Lá dentro eu estaria a salvo, mas ouvi os latidos e as botas batendo no cimento antes que eu achasse uma brecha.

Não ia dar tempo, eu morreria ali mesmo. Puxei então do bolso o último maço de cigarros, talvez o último em um raio de 1000 quilômetros. Eu o guardara no armário do Cais quando parti para minha primeira maratona, decidido a parar de fumar de vez mais uma vez, e o esquecera lá.

Acendi um cigarro com os dedos trêmulos e ainda borrados de sangue seco, traguei fundo, e esperei. Quando o primeiro facho de lanterna atingiu meu rosto, eu sorri, e mostrei o dedo do meio. “Fodam-se, fiquem vocês com esse seu mundo de merda”, pensei, soltando a fumaça pelo nariz, antes de receber o impacto da primeira bala.


Conto publicado no livro “Rio 2065”, cuja proposta era retratar o Rio de Janeiro daqui a 50 anos. Óbvio que optei pela distopia — a distopia nos une. Paz.