Poucas coisas me deixam tão feliz quanto carne frita

O gume da faca dançava suave, abrindo caminho entre as fibras da peça de alcatra. Gosto de faca afiada, desliza e dá a impressão de onipotência — não, não riam, só quem já limpou uma peça de lagarto plano com uma faca cega sabe do que estou falando. A lâmina deslizava e cortava pedaços quase simétricos, suculentos — eventualmente um ia pra boca, e os outros para a bacia a esperar tempero.

- Você estava certo. — disse ela, ao entrar subitamente na cozinha, com uma mochila nas costas, uma bolsa de viagem nas mãos e o cabelo desgrenhado como se houvesse dormido na relva. — O mundo lá fora é grande demais, e não consigo navegar sozinha. Eu nunca deveria ter deixado você, mas você sabe o quanto eu sou inquieta e insegura. O táxi que me trouxe da rodoviária tocou Lionel Ritchie, e eu chorei lembrando da sua implicância com clip de “Hello”, você falando daquele cabelo Soul Glo e do suéter listrado sob o blazer de ombreiras. Não era Hello, e o taxista ofereceu uma caixa de lenços de papel pra mim. Trinta e seis horas de ônibus do Rio pra cá, e consigo chorar apenas no táxi que me leva de volta pra minha casa.

No rádio da cozinha a pendrive iniciava o álbum do Jeff Buckley. Cara, ainda me impressiono com a praticidade da tecnologia, antes de começar a cozinhar, vou no computador e escolho quem fará a trilha sonora, jogo na pendrive e pronto, sem ficar refém dessas rádios imundas de nosso dial. E esse disco é demais, triste como um garoto tão genial vai embora e deixa apenas uma obra. Abre com “Mojo Pin”, onírica e crescente, já criando expectativas para as músicas seguintes. Sorrio.

- Esses dois meses foram difíceis, sabe? Mas eu tinha que tentar, eu tinha que sair daqui e arriscar uma outra vida. Passei uma semana em um hotel até decente, com gente educada e café da manhã que me alimentava sem eu ter que almoçar. De noite, comia um biscoito, alguma coisa. Depois de uma semana o dinheiro acabou, e eu acabei indo morar numa pensão. Sempre achei que havia uma outra vida melhor do que essa daqui, desse marasmo que a gente vive, que no Rio as coisas seriam mais fáceis, e você me dizendo que era bobagem, que tudo o que a gente precisava estava aqui, nessa casa. Mas você me conhece, eu não queria passar a vida achando que poderia ter sido de uma maneira melhor, achava que você era um acomodado de ter largado tudo por um empreguinho burocrático de merda, que dava para pagar as contas e comer na churrascaria uma vez por semana, você é uma explosão confinada, devia estar destruindo o status quo, não esquecido aqui nessa cidade fedorenta. E eu fui, catei minhas bolsas e fui pro Rio, correr atrás de algo mais, e lembro de você me dizer aqui nessa mesma cozinha, com essa mesma long neck na mão: “Clara, sucesso é ser feliz”. Eu sei que disse que ser feliz é o caralho, ser feliz é estar com a cara na mídia e poder dar visibilidade a seu trabalho, eu sei, eu falo muita bobagem, você me perdoa? — e largou a bolsa no chão.

Adoro cozinhar bebendo. A garrafa de cerveja sempre na pia, lubrificando os movimentos artísticos da culinária, a faca (afiada) que desce entre as camadas da cebola, a mecânica bela que é o balé da preparação. Uma lager ordinária dessas de mercadinho mesmo serve, estando gelada e suando o copo ao lado da tábua de cortar já cumpre seu papel.

- Agora eu percebo que meu lugar é aqui, do seu lado. — Clara sentou-se na cadeira, ainda com a mochila. — Agora não, eu percebi depois daquela primeira semana no Rio, quando fui parar naquele quarto sujo com banheiro compartilhado no final do corredor. Não me peça pra contar as coisas por que passei nesses dois meses, não quero o seu perdão para nada que eu fiz, já que eu mesma não posso me perdoar. Só quero que você me aceite de volta. Quero deitar naquela cama lá em cima e poder dormir sabendo que você vai estar do meu lado, me explicando como o mundo é simples quando a gente não fode com tudo.

Jogo o azeite na panela, e me delicio com o aroma que sobe em nuvem. Amo azeite, como azeite no pão puro. A chave de qualquer prato é a qualidade de seus ingredientes mais simples, e não admito usar um azeite com mais de 0,7% de acidez, nem pra fritar. Um prato de arroz fresco vira uma iguaria quando presenteado por aquele fio dourado de azeite entre seus grãos, o cheiro do azeite… Ah, o cheiro do azeite. Amasso dois dentes de alho com a folha da faca, pressionando-os contra a tábua de carnes com cuidado para não encostar no gume.

Deito pimenta calabresa para incrementar a alquimia, dar um cheiro doce à alvorada enquanto suas pequenas lâminas rubras se encolhem no azeite. A pimenta calabresa fica mais eficaz quando esquentada, imersa nesse azeite fervente vai contaminar de alegria tudo que ali for banhado — inclusive meu sorriso.

- Eu não tinha mais a quem recorrer, sabe? Pode até me tocar daqui pra fora amanhã, mas deixa eu dormir aqui essa noite. Eu não tenho mais para onde ir, e você é a única coisa sã que me resta. Trate-me como um cão qualquer, uma escrivaninha que você não usa, estou disposta a tudo para não perder você… Eu sou mesmo uma filha da puta, eu tinha tudo aqui e achei que não era suficiente, mas ficar mendigando atenção no Rio me fez perceber que eu tinha dado as costas para o único paraíso possível para pessoas como eu. Eu sei que disse pra você uma vez que pagar contas era um ideal medíocre, mas ter que me vender por sorrisos e falsas promessas de uma ponta que seja em algum programa maldito é o inferno, deixa eu ficar aqui, prometo que nunca mais vou desprezar o que a gente tem, o que você conquistou e me oferece, a segurança de saber onde vai dormir hoje, e acordar sabendo que tem comida na geladeira, eu achava que fosse voltar pro Recife em grande estilo e cagar na tua cabeça mas estava errada, agora estou aqui implorando pra você me dar uma chance, doida pra tirar a mochila das costas e correr para os teus braços, mas preciso ouvir de você, preciso que você me aceite de volta, senão eu não sei o que faço, acho que morro, acho que… Fala pra mim, eu faço qualquer coisa, qualquer coisa que você quiser, só precisa dizer que me aceita… — e começou a chorar, com a cara escondida entre o braço pousado na mesa da cozinha e a mochila impedindo que sentasse direito.

É a hora da carne. Despejo os pedaços que marinavam a seco de leve na bacia toda na frigideira. Separo-a para que ocupe todo o espaço do metal, que se espalhe e frite por inteiro. O cheiro e o barulho vêm quase juntos, inconfundível, como música para meu paladar, sinestesia perfeita que me ataca como ao cão do Skinner.

Gosto de pimenta calabresa, adoro azeite, curto Jeff Buckley pra caralho e me amarro em cozinhar bebendo. Aturo até Clara, com toda a sua insanidade, dislalia e insegurança entrópica. Amo uma boa faca bem afiada, mas poucas coisas nesse mundo me deixam tão feliz quanto carne frita.