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Você vai ter que voltar ao início.

Talvez consiga manter algumas das conquistas da jornada até aqui, mas é quase certo de que tenha que se desfazer de tudo. Deu errado, e esses souvenires que você quer tanto guardar são lembranças incômodas de que o caminho não era esse.

Qual era a meta inicial? Não fique se culpando por ter se desviado, é comum, o caminho é longo, multiplexado, e é difícil manter o foco, eu sei. Mas, se deu errado, é preciso voltar ao começo. Lá, onde você ainda calçava os sapatos e se preparava para ganhar o mundo. Para onde você pretendia ir? Que sonhos colocou na mochila? E que armas?

A gente perde muito na jornada. Perde o brilho dos olhos, perde a pureza na primeira escolha — e as escolhas são tantas… Mas você chegou aqui, e dá tempo de voltar. Sempre há tempo de voltar.

Seu parâmetro é só você. Quem você é hoje, seria o herói de quem você foi? Se houvesse a chance de encarar aquele eu lá do início, você teria orgulho? Encheria o peito para desfilar tuas vitórias ou apenas inventaria desculpas?

Então volte. A mochila rota, os pés descalços, sinta a areia e as pedras acariciando e ferindo a sola. Lembra daquele dia, deitado sob a sombra da amendoeira? Qual era o plano? Os leões vieram e se foram, alguns mortos, outros acovardados… e você? Para onde foi? Era aí que você queria estar?

Esqueça quem te atrapalhou. Pare com esse papo de inimigos, você não tem inimigos. Inimigos teve Hitler, você teve apenas antagonistas transitórios. Com alguns faltou só entendimento e humildade (de ambas as partes, não se exima da sua própria culpa), com outros era só pelassaquismo mesmo, normal, o ser humano é assim — mas ele pode melhorar. Jogue fora o seu caderninho preto de nomes e volte. Ah, e dessa vez guarde apenas o que for bom, combinado?

É preciso engolir o orgulho para reconhecer que errou o caminho. A sensação de fracasso, o medo do recomeço e do julgamento alheio atrapalham muito o retorno. Mas você falhou, e é imperioso voltar. É necessário ser o seu próprio modelo de infância, cumprir as metas sonhadas, realizar a utopia. Senão, de que adiantou?

“Ah, mas eu consegui isso, isso e aquilo…” — pare, não se apegue ao que não era seu. Era carro bonito o seu sonho? Era empreguinho seguro apenas para não morrer de fome e comprar TV em 163 prestações com o que sobrasse do salário? O sonho não pode ser material, você sempre soube disso. Isso tudo aí que se pegou em você (e em que você se apegou) não estava no roteiro da viagem, e não pode segurar você aqui.

Olhe para trás. Se você errou o caminho, é hora de voltar. E você sabe disso.

PS:

“Ele ganhou dinheiro
ele assinou contratos
e comprou um terno
trocou o carro
e desaprendeu
a caminhar no céu
Foi o princípio do fim”

(“Busca Vida”, Paralamas do Sucesso)

Não sou muito fã de Paralamas, mas esse trecho é mantra. Que eu nunca desaprenda a caminhar no céu, apesar de ternos, carros e contratos que possam vir um dia.