“Eu é Que Fiz Isto”

Por Pastor Lutero

Estas palavras são do próprio Deus através de Semaías. E o entorno histórico desta frase se dá quando Roboão recusa o conselho dos homens idosos que serviram a Salomão, seu pai; os quais lhe disseram para ceder diante do pedido de Jeroboã, a fim de aliviar o trabalho excessivamente pesado de sobre o povo.

Roboão ouve aos colegas mais jovens e dá como reposta que aumentaria o peso do trabalho. Isso causou divisão em Israel. Dez tribos seguiram a Jeroboão e duas ficaram com Roboão.

O jovem rei quis guerrear para ter as dez tribos de volta; mas Deus diz que não era para tomar esta atitude. A explicação de Deus foi:

“Eu é que fiz isto”.

Para nossa mente, que sofre os efeitos da Queda (Gênesis 3), entender tal explicação logo traz perturbação e confusão quanto ao “caráter” de Deus. Como Deus, que sempre ensina união e comunhão faz, promove a divisão de um povo? E ainda mais, o Seu povo amado?

E isto, por sua vez, leva-nos a perguntar também: será que tudo o que acontece em minha vida vem de Deus? É Deus que fez isso?

É Deus que formou a família na qual nasci? As dificuldades de minha criação são oriundas de Deus? O desprezo e humilhações que já passei, em última instância, vieram de Deus? Deus também diz disso: “Eu é que fiz isto”? A solidão, o abandono, o desencontro sentimental também são ação de Deus? Pelo texto que lemos, a resposta é um firme e sonoro “sim”.

que “fazer” doutrina embasada em um só texto é caminho certo para heresia (ensino doutrinário falso), será que a Bíblia tem mais a dizer sobre isso? Bem, uma leitura atenta e honesta em textos como o Salmo 139.16; Gênesis 45.4–8; 50.20; Mateus 10.29–31; Juízes 14.1–4; Lamentações 3.37; Romanos 8.28; Ef 1.11 (e há muitos outros), apontará para o fato de que esta é uma verdade essencialmente bíblica.

Então, como isso se pode explicar? Estudiosos bíblicos piedosos e práticos têm dado pelo menos dois nomes à vontade de Deus: decretiva e preceptiva. A primeira, também chamada de “soberana e eficaz”, é aquela pela qual

“Deus faz acontecer o que Ele quer. Quando Deus soberanamente decreta algo neste sentido, nada pode impedir que aconteça” (R. C. Sproul).

Sobre isto, este autor ainda diz: “Quando Ele [Deus] decreta algo soberanamente, isso acontecerá — quer eu goste ou não, quer eu escolha ou não. Ele é soberano. Eu sou subordinado”. A vontade decretiva de Deus, precisamos lembrar, nos é secreta. Não temos acesso à mesma imediatamente.

A segunda refere-se à vontade de Deus em Seus preceitos, mandamentos, diretrizes reveladas na Bíblia. Essa nos é acessível. E é nela que devemos buscar apoiar nossa vida; moldar nosso caráter e conduta. Nossa grande preocupação deve ser com esta.

Tendo sido, portanto, estabelecida essa distinção, e voltando ao episódio da divisão de Israel, vemos que a quebra da vontade da vontade preceptiva de Deus (quando Roboão não ouve o conselho dos mais velhos) dá ensejo à aplicação da vontade decretiva de Deus.

Roboão errou, quebrou a vontade preceptiva de Deus, pelo que foi totalmente responsável; mas Deus tinha um plano superior mesmo diante de uma desobediência, de um fracasso. Deve ser dito aqui que, toda quebra da vontade preceptiva deve se sucedida de sua obediência, no sentido de confessar arrependido, buscando o perdão de Deus (é isso que Davi faz nos Salmos 32 e 51, os quais se referem aos seus pecados em 2 Sm 11). Isso porque o arrependimento, a confissão e pedido de perdão são ordens, mandamentos e diretrizes da vontade que está revelada na Bíblia.

Mas, no caso em questão, qual foi o bem em vista? Bem, 200 anos depois da divisão de Israel, em 722 a.C., Israel sofre a primeira Diáspora (Dispersão), em que Israelitas são espalhados, “borrifados” mundo à fora; e aonde chegam constroem sinagogas, onde mais tarde, os apóstolos usariam como base para a pregação do evangelho de Jesus; o qual unifica e unificará eternamente as nações. Mas não só isso, pois cada israelita espalhado, mesmo em seus dias, já levava a presença do Deus vivo e verdadeiro.

Na verdade, é muito difícil, e parece até mesmo herético, afirmar que foi Deus que fez uma crise familiar, um bom pai de família perder o emprego, uma mãe zelosa, piedosa e bondosa ser acometida de uma enfermidade agressiva, um jovem sério e bem intencionado ser deixado pela namorada, etc. Mas, o fato é: um dia, se não desfalecermos e desanimarmos (Gl 6.9), entenderemos que, mesmo em meio a dores, aquilo tudo foi o melhor. Não só para mim, mas para muitas outras pessoas; e que fazemos parte do grande plano de Deus para a salvação da humanidade. A história de José do Egito comprova que é assim. E, claro, a vida de Jesus entre nós. Ou seja, do ponto de vista humano,

tudo parecia estar e dar errado; mas no fim, tudo estava e está certo.

Assim, o que é preciso diante desta dura verdade? Primeiro, fé para confiar que, de fato, Deus é bom (lembrando que nossa visão de bondade não é perfeita e a de Deus é) e controla as circunstâncias. Fé que confia que mais dia menos dia, veremos que Deus fez o melhor. Precisa-se também submissão, para aceitar a situação, por mais caótica, triste e desesperadora que possa parecer.

Em Jeremias 29.11, Deus diz que, mesmo no exílio, era para o Seu povo saber que Ele tinha bons pensamentos e propósitos para eles. Por isso, podemos e devemos dizer como David Martin Lloyd-Jones (1899–1981) disse:

“A vontade de Deus e os Seus caminhos são um grande mistério; mas eu sei que tudo o que Ele decreta ou permite é necessariamente para o meu bem”.

Porém, é imprescindível lembrar que, somos responsáveis por nossos atos e decisões. Ou seja, saber que Deus está no controle, que “Ele fez isto”, não justifica vivermos dissoluta e pecaminosamente, e depois lançar o débito na conta de Deus. Roboão viu seu país se dividir. E isso não foi uma situação agradável de conviver.

Então, para toda e qualquer situação passada, presente e futura das nossas vidas, lembremo-nos corajosamente das palavras de Deus para Roboão:

“Eu é que fiz isto”.

E o fez para Sua glória e nosso bem.

Que bom que é assim! Que Ele, que é sempre bom, nos ajude! Amém.

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