Pedra passiva

*Escrito na mesa de um bar, em um copo de whisky, no fundo de um poço*

“Hey! Aqui em cima”

Abriu os olhos e os fechou novamente. Fazia muito tempo que estivera desacordado? Forçou os olhos a ficarem semicerrados, era o máximo que podia. Não conseguia enxergar muita coisa a sua frente começou a tatear as paredes em sua volta. Não se lembrava muita coisa do que havia acontecido. Não fazia ideia de onde estava.

“Aqui! Olha aqui em cima!”

Uma voz desconhecida gritava por ele. Não sabia de onde vinha. Olhou ao seu redor e tudo estava escuro, olhou para baixo e não enxergava o chão. Olhou para cima e não via nada. Assumiu que a voz era uma coisa da sua cabeça. Afinal havia muito tempo que ninguém procurava por ele.

“Anda! Olha aqui! Sobe pra cá! Não posso esperar muito tempo”

A parede era feita de pedra, formando um circulo que mal cabia ele de braços abertos, o chão estava levemente úmido, com uma poça de água à sua direita. Riu um pouco, depois de tantas vezes no sentido figurado ele agora estava literalmente no fundo de um poço.

“Vou ter que te deixar! Não consigo te ajudar se você não começar a escalar”

Não reconhecia a voz, não via a pessoa, não sabia nem a altura do poço, mas decidiu que não custava tentar e resolveu começar a escalar. Meio desconfiado que não iria dar em nada, meio com medo de cair e se machucar gravemente encaixou sua mão direita em um vão entre as pedras. Depois a esquerda e depois os dois pés. Começou a subir.

“Isso! Vem! Estou logo aqui”

Subia vagarosamente, cautelosamente e à medida que subia a parede daquele poço, mais se afundava em pensamentos e lembranças. Lembrou de como tinha parado ali, do quão raso era o poço quando entrou ali. Um poço raso, inofensivo, mas que a medida que o tempo passava se tornava um poço mais e mais fundo. Lembrou de quem o pôs ali e foi cavando mais e mais o poço. Sentiu raiva pelas lembranças. Ódio daquelas memórias. Uma lagrima escorreu dos seus olhos. Um pé escorregou de uma pedra. Desequilibrou-se. Caiu.

“Não! Cuidado! Você está bem?”

Sem resposta. Ele queria falar, mas não tinha forças pra abrir a boca. Queria levantar, mas não tinha forças pra se mover. O poço estava mais fundo. O chão estava mais úmido. As lembranças mais vívidas. Perdeu a vontade de viver. Se conformou com seu estado. Desistiu parar de ouvir aquela voz.

“Não posso descer aí pra te pegar, porque não conseguirei subir! Vem, por favor! Quero você aqui! Você está bem? HEY! HEEEEY! Por favor, esteja bem. Eu tenho que ir mas não queria te deixar!”

Poderia responder, mas isso só o motivaria a descer para tentar ajudar. Se perguntou do que adiantaria os dois presos no fundo do poço. Resolveu ficar calado. Uma hora ele vai desistir, uma hora ele vai ter que ir. Dormiu.

“Hey… Estou aqui! Vamos! Acorda… Vou te ajudar a subir”

Acordou sem saber quanto tempo havia se passado, acordou sentindo aquela mão quente no seu rosto. Acordou sem acreditar que ele estava ali e estava pronto pra ajudar. Se levantou. Começou de novo a escalada. Ele ficou para trás.

“Vai! Continua subindo! Estou logo atrás de você”

Continuou a escalada tomando um cuidado extra. Não queria escorregar, cair e derrubá-lo. Um pé de cada vez, uma mão de cada vez e foi subindo, subindo até que uma lufada de ar revigorante lhe atingiu o rosto. Respirou fundo aquele ar e sentiu-se, talvez pela primeira vez na vida, livre.

“Pronto! Você conseguiu! Estou tão feliz por você! Do lado de fora tem uma tampa. Tape o poço e me deixe aqui”

Já do lado de fora olhou para baixo, não via ninguém subindo. Ele nunca tinha começado a escalar. Tinha ficado pra trás e lhe deixado acreditar que estava vindo. Tinha feito isso pra que pudesse me libertar, me ajudar, me deixar viver novamente. Ele tinha ficado pra trás. E agora estava lá. No mesmo fundo de poço que estivera minutos atrás. Dias atras. Vidas atrás.

“Vá! Viva sua vida. Seja feliz. Isso, pra mim, é mais que o suficiente. Vá e viva comigo, sonhe comigo, sorria comigo. Pense que estarei sempre contigo e que nada me segurará longe de você. Nem mesmo esse poço.”

Esticou seu braço pra dentro do poço e tocou aquele chão úmido. Se surpreendeu com o tanto que o poço era raso. Escalara várias e várias pedras e agora, do lado de fora do poço, tocava o fundo do poço com sua mão. Mas não havia mais ninguém lá. Procurou por ele ao redor do poço, de repente um abraço, um beijo no rosto, um sorriso e um olhar. De repente tudo estava bem e não havia mais poço.

“Estou aqui e sempre estarei.”

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Carlos Fonseca’s story.