Geradores de conteúdo versus informação

Coisa que mais se comemora no cenário atual do jornalismo é o “fim do monopólio da informação”. Acabou pra quê?

O motivo das linhas abaixo, tempos depois da publicação do último texto, é muito mais do que uma preferência clubística ou uma análise qualquer sobre marketing esportivo. É a proposta de uma provocação e de constantes discussões sobre os movimentos do cenário atual do jornalismo, que flutua entre as apurações dos grandes profissionais e a percepção de mercado dos bons geradores de conteúdo.

“A internet acabou com o monopólio da informação”. Quem nunca ouviu ou leu essa frase, que INSCREVA-SE e clique no primeiro JOINHA. O repórter que saía para as ruas em busca de informação para estampar as páginas do jornal do dia seguinte é espécie em extinção no atual mercado jornalístico. Celulares com câmeras de alta qualidade (e outros com nem tanta qualidade assim) permitem a qualquer um a transmissão de dados e informações a partir do local onde estejam. O repórter acaba ‘furado’ pelo tempo de deslocamento até o local onde a notícia está. E os tais geradores de conteúdo, às vezes com boas intenções mas sem qualquer compromisso com o jornalismo, se gabam de tirar a “exclusividade” da informação das mãos dos “grandes veículos”.

Na teoria, significa dizer que hoje qualquer um pode ser jornalista por um dia (ou mais). Na prática as coisas são bem diferentes. Reclama-se que o grande veículo filtra as informações de acordo com seus interesses, mesmo sendo “imparcial” em sua concepção. Falam que o “jornal TAL” protege o “anunciante X”, enquanto a “TV Y” não insiste na notícia ruim sobre o “parceiro BLA”. Mas quando há a “quebra do monopólio”, a informação passa a ser dada por gente que quer, também, abordar o tema com foco em seus próprios interesses. Você já viu aquele blogueiro torcedor do seu time publicar algum “texto” que prejudique a própria instituição?

Falei em time justamente porque o tema deste texto surgiu numa discussão esportiva bem pouco -ou quase nada- explorada nos últimos dias. Geradores de conteúdo especializados no Corinthians passaram a especular que há, sim, um contrato de naming rights assinado desde a última segunda-feira (09/11) para o batismo do estádio da equipe. Jornalistas sustentam ter confirmado com fontes a informação, embora a versão oficial seja a de que tal negociação possui sigilo contratual. Muitos nomes foram especulados nos últimos 3 anos, período em que as conversas se arrastam, e há até a suposição de que tal anúncio acontecerá com uma festa na última rodada do Campeonato Brasileiro, na partida contra o Avaí, em Itaquera.

No meio desta cena especulativa, um vídeo gravado numa situação incomum chamou a atenção de alguns envolvidos com o tema.

Steve St Angelo, CEO da Toyota para a América Latina e o Caribe (divulgação)

Steve St Angelo, CEO da Toyota para a América Latina e o Caribe, discursou no último sábado (07/11) no evento de lançamento da Nova Hilux, em Mendoza (ARG). Falando para uma plateia formada por jornalistas brasileiros especializados em automóveis, o norte-americano introduziu sua explanação com aquilo que chamou de “um importante anúncio”. Afirmou que é amante do hockey desde a infância e que já estava na hora de escolher um time de futebol para torcer. Mostrou imagens de torcedores de seu esporte favorito e os chamou de loucos, para logo em seguida manifestar a própria escolha: “Vai, Corinthians!”. Logo e camisa do clube nos telões, ao lado da marca da empresa e de imagens da Nova Hilux.

O vídeo gerou certo buzz em comunidades ligadas ao Timão e ganhou status de furo com a constatação de que este pode ter sido um “vazamento” do sucesso da negociação dos naming rights da Arena Corinthians com a Toyota.

Fatos contextualizados, e agora vou me restringir a comentar que blogues e veículos ligados ao clube consultaram internamente suas fontes e obtiveram como resposta a versão de que “Corinthians e empresa possuem contrato de sigilo sobre as negociações”, e também de que “não é a Toyota”. Pronto, fim dos boatos. Bastaram essas confirmações para que as redes sociais fossem inundadas por comentários do tipo “não é essa empresa, esquece” ou “esse CEO usou o Corinthians para fazer marketing pessoal”.

Sou do tempo em que jornalismo era destacar um repórter para investigar, fuçar e esmigalhar essa história até o último capítulo. Entender o porquê da alusão ao futebol numa coletiva de apresentação de veículo, pedir à assessoria da Toyota um posicionamento oficial sobre a “brincadeira” do executivo, questionar clube e empresa sobre a exposição das marcas juntas em uma mesma apresentação institucional. No meu tempo o jornalista que esteve no lançamento da Hilux em Mendoza já teria comentado o “Vai, Corinthians” com seu colega da editoria de esportes no sábado mesmo, durante a coletiva de imprensa. Na saída, já teria um gravador na boca do CEO relembrando a brincadeira aparentemente descontextualizada.

Quem trabalha nesse jornalismo que desmonopolizou a informação se satisfaz hoje com a “versão oficial”. Até ajuda a esconder, se for a melhor opção aos próprios interesses.

Qual é a diferença, enfim, em relação ao monopólio da notícia antes exercido pelos grandes veículos? O princípio de descentralização não tinha o objetivo de, justamente, impedir a proteção de determinados interesses?

A crítica não atinge somente os geradores de conteúdo inseridos nesta nova forma de se fazer jornalismo. Ate 12/11, nenhum veículo especializado de imprensa deu ênfase ao “importante anúncio” do CEO da empresa japonesa.


Essa história deve ter um capítulo final em menos de um mês -considere a data desta publicação. Dependendo de quando você ler esse texto, essa ou qualquer outra empresa pode ter assumido a propriedade comercializada pelo Corinthians. O propósito deste texto é provocar discussão sobre métodos de atuação, e não o de apostar em quem está certo ou errado sobre as imagens vistas no vídeo.

A Toyota conversa com o Corinthians ao menos desde 2012, quando o time que jogaria o Mundial de Clubes esteve próximo de ostentar no Japão a marca da montadora em sua camisa -a propriedade acabou ficando com a Caixa Econômica Federal. A loja oficial do clube, no Pq. São Jorge, teve estampas vermelhas com o logo da Toyota guardadas em sua área de personalização de camisas pelo menos até abril de 2014. Funcionários consultados sobre a razão da existência daquelas estampas deram a mim a explicação acima.

gabrielsouzaelias@gmail.com

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