Da saga de Zangado na aula do Grande Mestre

Príncipe Myshkin
Nov 1 · 6 min read
Egos mais altos que as nuvens; moral mais baixa que gilete deitada.

Noite agitada na cidade universitária. Pela avenida passavam dezenas de carros populares rebaixados, com os auto falantes a regurgitar músicas infernais. Havia também um número inaceitável de motocicletas com o escapamento estourado. A confusão sonora se completava com os jovens a gritar pelas calçadas, e os ébrios que cantavam a plenos pulmões nas janelas de alguns automóveis.

Esta sinfonia macabra entrava pela janela da sala de aula da faculdade, onde um grupo de sessenta alunos se espremia num espaço pequeno, sentados em carteiras minúsculas que mal suportavam um caderno. Diante deles estava um professor razoavelmente aclamado por glórias acadêmicas, de nome conhecido entre círculos científicos. Um Grande Mestre, alvo favorito dos bajuladores, o homem cujo saco era o verdadeiro corrimão do sucesso na pós-graduação.

Sua fala transparecia conhecimento profundo, a especialidade da especialidade, com uma pompa exacerbada nos termos técnicos. O Aluno não duvidava de seu domínio profissional, algo adquirido por anos de atuação reconhecida e relatada pelos corredores do prédio tradicional. Mas ele também não conseguia ignorar a frequência com a qual o mestre pausava sua fala para ler o livro aberto sobre a mesa. Não era como se ele estivesse lendo anotações com tópicos marcados de uma aula planejada. O Aluno percebeu: ele lia em voz alta, num tom que emulava fala comum; ele fingia que sabe de cor.

O que incomodava o Aluno não era o fato de o mestre não saber de cabeça a matéria trabalhada, mas o teatro. A situação piorou quando, ao não conseguir manter a farsa, o mestre completou uma frase com um termo latino qualquer, e lançou contra a turma a seguinte frase:

— Isso vocês já estudaram, vocês já sabem.

“Como assim? O curso é repleto de nomes em latim, com institutos e princípios em quantidade estratosférica! Seria difícil demais para ele explicar, de forma simplificada, o nome que ele acabou de ler de relance no livro?”

A conclusão do Aluno foi fatal: ele não se lembrava. E não há problema nenhum nisso, afinal ninguém é obrigado a ter memória sobrenatural, os manuais e livros estão aí para isso. Porém, uma pergunta surgiu, gigante, em sua mente: “Pra que fingir? O que ele ganha com isso?” E respondeu a si mesmo: “É para ser academicamente louvável. É para fazer o graduando se sentir pequeno. Esconder a própria ignorância numa prestidigitação teórica é como subir numa banqueta para ficar mais alto que os demais. Este professor é o homem que sabia javanês.”

O Aluno-Zangado se moveu na cadeira desconfortável, cruzou as pernas, respirou fundo. O tom de superioridade do mestre era apenas uma das coisas que o incomodava. O homem falava como Barbárvore, o Ent. Não, ele não tinha uma voz grave e vibrante. Ele falava devagar, como se contasse as próprias sílabas. Para piorar, ele parecia não se importar com o número de estudantes ali presentes: seu tom era o mesmo que uma pessoa usa ao visitar um confessionário. Era pouco mais que um sussurro, e a algazarra da avenida não ajudava em nada.

“O relógio parou, não é possível!” pensou Aluno-Zangado ao ver as horas no celular. Ele se levantou e saiu. Os corredores do velho prédio estavam praticamente desertos, com o casual estudante que passa rumo ao bebedouro com uma garrafa vazia. Aluno-Zangado caminhou o mais devagar possível, entrou no banheiro, demorou-se no mictório, e depois lavou as mãos com cuidado, enxaguando até que o último vestígio de sabão desaparecesse. Lavou também o rosto, na tentativa vã de espantar o sono e a raiva. Diante do espelho, ele checou o cabelo: ainda estava ok. Tirou alguns pêlos de gato que se destacavam em sua camiseta, e, por fim, verificou se o zíper da calça estava fechado. De volta ao corredor, Aluno-Zangado refez o caminho até a sala com o mesmo ânimo da vinda, tentando emular em seus passos o ritmo enfadonho do professor que arengava na sala de aula. Abriu a porta com cuidado e voltou ao desconforto de sua cadeira. Foi com um suspiro profundo que ele constatou, observando a tela do telefone, que ficara fora da sala por apenas cinco minutos.

— Não basta, simplesmente, eu ficar aqui na frente falando para vocês como as coisas funcionam. — Dizia o mestre, devagar como uma fila de mercado às quinze horas num sábado. — Vocês têm que mostrar interesse, ler a doutrina, se esforçar. Vir para a faculdade e ficar zanzando pelo prédio não ajuda. — Aqui ele lançou ao Aluno-Zangado um olhar reprovador. — Podem até não se interessar pela minha disciplina, mas e depois? Como vão passar em um concurso público para ter uma carreira de respeito?

Zangado virou os olhos e chacoalhou a cabeça. Puxou o telefone novamente, abriu um aplicativo de ebook e tentou se entreter com algum livro. Um parágrafo, dois, três… A voz em câmera lenta do professor começou a se confundir com a do narrador, e logo a leitura se tornou impossível. Zangado guardou o celular no bolso e cruzou os braços.

Ele observou o professor caminhar diante do quadro, gesticulando e fazendo pausas estratégicas para ler seu livro. Eventualmente o homem parava no meio de uma frase, permanecia em silêncio por vários segundos, e então retomava a fala como se nada tivesse acontecido. Em outros momentos, aproveitando que a atenção dos alunos estava fixada nos cadernos, notebooks e celulares, cutucava o nariz, extraía o conteúdo, enrolava entre o indicador e o polegar, e lançava pelo ar, na direção da lixeira. Zangado, além de raiva, agora também sentia nojo.

O sono veio violento, embalado pelo mantra interminável do douto professor. Zangado rangia os dentes, bocejava, e volta a ranger os dentes. “Eu quero minha casa!” Meia hora passou. “Eu quero meu diploma!” Mais minutos infinitos. “PARA DE FALAR E ME DÁ MEU DIPLOMA!”

O relógio marcou 22:38. Os alunos começaram a ficar inquietos, cochichando, pedindo a chamada que nunca chega. Cinco minutos para as vinte e três horas, e os estudantes que moram nas cidades vizinhas começaram a falar que perderiam o ônibus.

— Só mais um minuto, já estou acabando! — Disse o mestre.

Quando a lista de chamada finalmente foi aberta na mesa, Zangado suspirou de alívio, com os olhos irados lançando maldições inaudíveis contra aquele acadêmico de carreira. E então teve início outra tortura, a roda da dor começou a girar. Cada nome era murmurado numa cadência mais lenta que o BPM de uma música de elevador. Neste momento a raiva de Zangado se expandiu, adotando toda a sala como seu alvo: o ensino superior é dominado por estudantes cuja maturidade congelou no ensino fundamental, e durante a chamada as crianças de vinte e poucos anos costumam conversar em voz alta. Os estudantes não conseguiam ouvir seus nomes, o professor não conseguia ouvir os “Presente!”, os “Tô aqui!”.

Zangado estalou cada um dos dedos das mãos; pensou no quanto havia trabalhado naquele dia; tentou ignorar que naquela noite ele teria poucas horas de sono. Cada nome era como uma martelada em sua consciência já crucificada na árvore do sofrimento. “Meus pais poderiam ter me dado um nome que começasse com a letra A.”

Finalmente o nome de Zangado foi pronunciado, e como resposta ele emitiu um sonoro “Presente!”. O mestre congelou por alguns segundos, a caneta pairando sobre o papel. Ele olhou para Zangado com um rosto julgador, cada ruga repleta de escárnio e orgulho. Baixou a caneta, fez marcas rápidas na chamada, e murmurou o próximo nome.

Zangado, mochila nas costas, punhos cerrados, saiu pelo corredor com passos largos e firmes, sentindo a raiva ferir o chão através das solas de seus sapatos.

— Achei que não ia parar mais! — disse um amigo.

— E o cara deve ter me dado falta! — Respondeu Zangado.

E este foi apenas mais um relato da Saga de Zangado pela Terra Mágica da Bajulação Eterna (ou, As Aventuras no Fantástico Mundo Tribal da Pelação de Saco Acadêmica).

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A pena é mais forte que a esoada

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