(FOTO ILUSTRATIVA: Hércules Florence)

Números

O Sistema previdenciário brasileiro traz prejuízos incalculáveis aos cidadãos devido ao excesso de entraves burocráticos

A greve dos servidores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) finalmente parece estar perto de um fim, depois de longos meses de negociação com o governo. Os prejuízos da paralisação vão muito além dos cálculos feitos pelo governo, que levam em conta apenas os números que a causaram. Os trabalhadores reinvindicam, entre outras coisas, um aumento salarial e a abertura de novos concursos públicos para suprir a defasagem no quadro de funcionários.

Esta última interessa diretamente Wagner. Ele sempre foi estudioso. Tirava boas notas na escola. Incentivado pelos pais, arrumou um emprego num supermercado e desde então passou a sentir independente. Descobriu em pouco tempo que poderia ter mais. Aos dezoito, teve a ideia de se matricular num cursinho do outro lado da cidade. Foi no rádio do carro do pai, que Wagner dirigia três vezes na semana para ir aos estudos, que soube da possível abertura do edital do Ministério da Previdência Social. Ele soube ali o que queria. Uma das mais de quatro mil vagas previstas tinha que ser sua. Wagner queria ser funcionário público.

Quase quatro décadas antes de Wagner Souza nascer, Seu Antônio de Paula já trabalhava na lavoura de café. Foi ali que trabalhou quase a vida inteira. Desde cedo, quando perdera seu pai, teve de amadurecer e se tornou adulto muito antes de ter idade para ser verdadeiramente homem como manda a lei. Aos catorze anos, Antônio já havia se livrado da escola primária sem sequer conseguir assinalar o próprio nome. Viu sua mãe adoecer e morrer pouco antes de completar dezessete anos. Humildes, ele e mais quatro irmãos menores aprenderam com os calos nas mãos, o valor de seu trabalho. Sustentou os cinco até que completassem a idade de serem independentes. Conheceu uma moça com que se casou aos vinte e poucos. Construiu uma família. Dois filhos. Ficou viúvo. Não tinha tempo para descanso ou lamentações pois sabia que devia dar o que há de melhor para os filhos. Coisa que ele próprio nunca tivera.

Com o dinheiro da pequena lavoura que comprou aos trinta que pode dar ao seu filho mais velho o estudo necessário para se tornar doutor. O mais novo fixou raízes no campo e se tornou agrônomo. A alegria do pai foi ver a felicidade dos filhos. Aos quarenta, teve de pedir empréstimo ao banco para suprir a dívida que contraiu ao perder dezenas de sacas de seu café, que viraram cinzas durante um período de seca no campo. Quitou até o último vintém.

Raras foram as vezes que Seu Antônio fora à cidade grande. Além da entrega dos canudos de seus filhos, pouco o atraía o movimento dos carros. Mas foi a partir dos sessenta anos que passou a visitar a cidade com maior frequência. A contragosto, visitava o médico periodicamente por imposição dos filhos. Também contra a sua vontade, mais tarde, deu entrada nos papéis. Era a hora de se aposentar.

Duas pessoas com formações e histórias completamente diferentes, mas que no fundo, compartilhavam do mesmo problema. A burocracia atrapalhava ambos. Wagner tinha seu futuro dependendo não só do próprio esforço — via um entrave numa greve que parecia existir apenas adiar seu sucesso. Seu Antônio não via a hora do pesadelo acabar. Afinal, a luta para conseguir a aposentadoria já durava quase dois anos e parecia tão exaustiva quanto o esforço físico que praticou por tanto tempo no campo. Quanto mais idas e vindas à cidade para dar andamento ao processo, menor era a paciência do senhor. Wagner e Seu Antônio não se conheciam. Ao menos não até se encontrarem na esquina da principal avenida da cidade.

Naquele dia na parte da manhã, Wagner pegou o carro do pai, como de habitual, porém estava atrasado. A pressa se justificava, era dia de prova no cursinho e tinha estudado até mais tarde na noite anterior. Ao mesmo tempo, Seu Antônio descia sozinho na estação. Teimoso, caminhou lentamente pelas oito quadras até a agência do INSS. Mal sabia ele que a agência estava atendendo apenas para dar informações. Sua ida era inútil. A greve era geral. O trânsito fez Wagner mudar a rota costumeira, fazendo-­o cruzar com a avenida principal da cidade. Foi quando a distração provocada durante uma das várias ligações não atendidas, que fez Wagner avançar o sinal vermelho e atropelar Seu Antônio. O senhor de pouco mais de sessenta e sete anos morreu ali, no centro da cidade, onde menos queria. Durante o susto do impacto, Wagner encontrou o poste mais próximo. Ferido, foi levado ao hospital. Horas depois, foi submetido a uma série de cirurgias. Wagner está tetraplégico.

O acaso tratou de juntar as duas histórias. E por o fim nas duas esperanças. Seu Antônio trabalhou e contribuiu com o sistema previdenciário a vida inteira, e não gozou um centavo sequer. A greve está quase no fim, e os pais de Wagner já planejam dar entrada nos papéis. É Wagner quem vai se aposentar. Por invalidez. Mas o INSS não leva em conta essas histórias. Na verdade, Wagner e Seu Antônio são apenas números.

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