Bem vindo ao mundo da Pós Verdade

Fulano é ex-presidente da República e dono do maior frigorífico do mundo, Cicrano é senador e usuário de drogas ilícitas e Beltrano é o homem mais poderoso do país e satanista. É difícil encontrar algum usuário de redes sociais que não tenha sido impactado por pelo menos um desses boatos nos últimos anos, mesmo sem dar nome aos sujeitos. São exemplos reais de um mundo falso, que diz muito sobre o universo em que vivemos. É a pós-verdade.

A expressão está em todos os lugares: nas redações dos jornais, nos debates entre especialistas em política e comunicação e na boca dos principais think thanks do ambiente digital. Está tão em evidência que a Oxford Dictionaries — departamento de Oxford responsável pela elaboração de dicionários — elegeu “pós-verdade” como a palavra do ano de 2016. Nos anos anteriores, já foram escolhidos termos como “selfie” (2013) e “emoji” (2015). “Adjetivo definido como ‘relacionado com, ou denotando circunstâncias nas quais os factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública que apelos a emoções e convicções pessoais”, define a prestigiada entidade, em um comunicado.

O termo ganhou força em 2004, a partir do livro “Post-truth era: dishonesty and deception in contemporary life”, de autoria do americano Ralph Keynes. Apesar de nova a palavra, a pós-verdade se assemelha mais à evolução de um conceito bastante antigo. Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista, Joseph Goebbels tornou-se conhecido pela frase: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Com essa afirmação, o braço direito de Hitler usava rádio, cinema, jornais e a imprensa em geral para enaltecer feitos alemães que nunca existiram, ao mesmo tempo em que cegava a população do genocídio praticado contra os judeus na 2ª Guerra Mundial.

Se, antes, era preciso repetir mil vezes uma mesma mentira para que ganhasse aparência de verdade, hoje, a internet cumpre esse papel e de uma maneira bem mais assertiva. A pós-verdade ganha força no universo das redes sociais, ao mesmo tempo em que os jornais tradicionais perdem espaço. Enquanto os principais veículos impressos do Brasil têm queda na circulação — 6% em 2016, segundo o IBGE — mais de 78 milhões dos brasileiros usam mensalmente sites como Facebook, Twitter e Instagram. Não só leem, como confiam: segundo um estudo recente da CNT/MDA, 78% das pessoas dizem acreditar nas informações divulgadas online.

E é aí que mora o perigo. Não apenas as redes sociais se tornam algozes na propagação dos boatos, como também a imprensa. Na busca pela audiência, espaço e lucro perdidos, a mídia noticia o “homem que mordeu o cachorro”, mesmo sem checar se isso é, de fato, verdade.

Nos tempos modernos, o conceito de Karl Marx se torna cada vez mais vivo: “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Hoje a verdade se assemelha muito mais a aquilo que um indivíduo ou um grupo de pessoas desejam que assim seja para justificar suas crenças ou ideologias.

A pós-verdade tem encontrado um terreno bastante fértil no Brasil e exterior. Tornou-se um tema central nos comentários e discursos políticos. Nos Estados Unidos, muitos especialistas, inclusive, atribuíram a vitória de Donald Trump à rede de boatos espalhada contra Hilary Clinton na campanha presidencial. As críticas tomaram tamanha proporção que colocaram em xeque a forma de distribuição de conteúdo do Facebook e Google e os levaram a propor soluções para fiscalizar a veracidade de tudo que circula na internet.

Ninguém nunca duvidou do fato que a verdade e a política tem entre si uma relação maldosa, assim como ninguém que conheço considera a sinceridade como uma virtude política. As mentiras sempre foram consideradas instrumentos necessários e legítimos não só em contextos políticos e demagógicos, mas também em dimensões estadistas (Hannah Arendt).

Pós-verdade e o Brasil

Trazendo para o contexto brasileiro, é fácil perceber o papel de pós–fato em uma realidade marcada pela fissura entre direita e esquerda, com acirrados discursos e tentativas de convencimento. Muitas vezes um discurso emocionado, carregado de aspirações e desejos pessoais, domina a razão e supera qualquer prova que o questione. A pós-verdade vai além do contraditório.

Mas se engana quem pensa que isso é apenas uma questão ideológica. Trata-se também de um mercado bastante lucrativo. Recentemente, um estudo realizado pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP) revelou os 10 principais sites de falsas notícias do país. São canais que não fazem parte da chamada mídia tradicional, mas que possuem características em comum: textos sem assinatura, informações repletas de opiniões e com chamadas “bombásticas” e excessos de propagandas. Assim, o proprietário recebe cada vez que um novo acesso é gerado. É uma brincadeira bem lucrativa.

Página do Facebook de um site de“pós-verdade”, com mais de 1 milhão de interações mensais

Na esteira da realidade atual, há quem encontre em tudo isso algo a se acreditar e quem ache uma forma para ganhar dinheiro. É um processo de influência que parece inevitável. Afinal, vivemos em bolhas sujeitas a manipulações, sejam elas ideológicas ou sociais. Da nossa parte, como indivíduos, cabe aceitar que sua crença não é a única, tampouco certa, e checar sempre a veracidade das informações. Hoje, uma mentira contada uma vez pode parecer verdade após mil compartilhamentos. Goebbels ficaria feliz em saber de tudo que é possível ser feito com a internet.

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