Discurso de Temer e a semelhança com Nixon

A política brasileira viveu, nesta quinta-feira (18), o momento mais tenso desde que Michel Temer (PMDB) assumiu a Presidência da República após o impeachment de Dilma Rousseff (PT). Acossado pelas delações premiadas e grampos de conversas com os donos da Friboi — em que o executivo Joesley Batista alega ter recebido aval para a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha — o presidente se viu, quase que obrigado diante das pressões interna e externa, a fazer uso de uma das estratégias mais recorrentes na comunicação política: o discurso.

Em um pronunciamento à imprensa, reproduzido ao vivo pelas TVs e canais digitais do partido e do próprio presidente, visivelmente nervoso e cheio de frases de efeito, Temer falou cerca de 5 minutos, negou as acusações e deu de ombros a por fim ao cargo. “Não renunciarei, repito, não renunciarei”, disse logo no início, trecho logo estampado nas capas digitais de jornais e sites de notícias. Foi um pronunciamento tenso pelas expectativas e que guarda semelhanças com a história da comunicação política brasileira e mundial.

A fala do presidente, anunciada pela imprensa logo pela manhã, ganhou contornos mais tensos, após o colunista Ricardo Noblat, de O Globo, informar que o presidente usaria a mensagem para comunicar sua saída do cargo. No Google, por volta das 15h58, era grande a pesquisa pelos termos “renúncia Temer” e “Michel Temer renúncia”, burburinho diminuído logo no início da fala do presidente.

Se, do ponto de vista político, a expectativa causou um alvoroço, no plano da comunicação em si, o uso das palavras no pronunciamento encontra paralelo na história brasileira e mundial.

Em um dos trechos, Temer enfatiza: “não comprei o silêncio de ninguém”. Impossível não lembrar do ex-presidente americano Richard Nixon, flagrado pelo escândalo de espionagem Watergate e que, meses antes de renunciar, foi às redes de TV e disse: “Não sou um ladrão”.

Nixon durante discurso em 1973

Em outra passagem, Temer enalteceu as investigações da Lava Jato, ao dizer: “Exijo investigação plena e muito rápida”. Trecho, mais uma vez, lembra ao ex-presidente Nixon: “Em todos os meus anos de vida pública, nunca obstruí a Justiça. E dou boas-vindas a essa investigação”.

Marqueteiro, assessores e toda a equipe de Temer recorreram, com o discurso, a pontos-chave da oratória política: a ênfase (“Não renunciarei, repito, não renunciarei”); o otimismo ( “ Os dados de geração de emprego criaram esperanças de dias melhores”) e a construção de frases de efeito que o aproximem do público (“Não podemos jogar no lixo da história tanto trabalho feito em prol do país”). Se conseguirão êxito com o pronunciamento, o tempo e o desenrolar da crise política dirão. Uma fala em rede nacional, sozinha, não segura nenhum político no cargo.

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