Truta do Trote

Eram 10 horas da manhã na agência, num daqueles dias cinza que parecem nunca começar de verdade. Enquanto todos conversavam sobre amenidades, o telefone da recepção tocou.

André, o atendimento, puxou a ligação.

“Alô”, disse.

Chamada a cobrar. Aguardou o final da mensagem e repetiu a saudação.

“PAI ME AJUDA!”, explodiu uma voz feminina com um forte sotaque carioca do outro lado da linha.

André, tio de uma e pai de nenhuma, pensou em duas possibilidades: ou era uma garota em apuros tão grandes que errou o telefone ou era o bom e velho trote do sequestro.

Decidiu chamar o blefe.

“Meu Deus! O que houve?”

“EU TÔ NUM CARRO COM DOIS CARA E ELES TÃO ME AMEAÇANDO!”

Peraí, é um cara fazendo voz de menina?

“Nossaaaaa, que graveeeeee”, respondeu por entre risos mal contidos.

“ELES QUER ME MATAR! ELES SÃO PERIGOSO!”

Bom, do português você já tratou de dar cabo.

“Mas como assim? O que eu preciso fazer?”

Um momento de silêncio e uma voz masculina, também com sotaque carioca, tomou a frente.

“É isso memo, mermão. A gente quer 60 mil reais ou a sua filha morre”, disse, com a violência típica de quem busca intimidar e confundir.

“Opa. Éééé, então…Tá complicado. Não tenho esse dinheiro”.

“COMO NÃO TEM? EU VOU MATAR ELA!

Ih, rapaz, assim você me complica. Aceita ticket?”

“CÊ TÁ DE SACANAGI CUMIGO? Olha, cara, seguinte, essa ligação tá ligada ao coração da tua filha. Se tu não me der essa resposta agora, ele vai parar”.

Aí já tinha ido longe demais.

“Como é?! Eu nem tenho filha, maluco. Pode matar.”

“Oi? QUALÉ, MALUCO! ELA VAI MORRER!

“Ah, vai trabalhar, seu vagabundo!”

E desligou.

Mal havia começado a responder as perguntas sobre o ocorrido e o telefone tocou novamente. Ele puxou a ligação.

Era a voz feminina clamando pelo pai novamente. Agora restavam poucas dúvidas, era um homem fazendo voz de mulher.

André devolveu a atuação, tornando sua voz num lamento choroso.

“Oooi. O que é que foi, fiiilha?”

A exata mesma resposta da ligação anterior foi dada de forma mecânica, como que numa fala roteirizada.

“Não digaaaa. E o que a eu posso fazer?”

O farsante continuou a falar, incrivelmente sem perceber que lidava com a mesma pessoa que na ligação anterior.

Deve ser apenas um estagiário do crime.

Desta vez, quando a menina virou homem, André manteve a voz chorosa. O impostor, percebendo que a ligação não daria frutos, tratou de desligar antes mesmo de ouvir o fim da frase “Assim você mata o papai”.

Tão logo retirou o telefone do ouvido, todos em sua volta expeliram os risos contidos durante a ligação.

Antes que todos voltassem para suas tarefas, uma nova ligação chegou, desta vez em outro ramal. André, num misto de empolgação e raiva, atendeu.

Assim que confirmou que era a voz feminina, começou a falar:

“De novo, cara? Você já ligou aqui duas vezes! Como tão as coisas aí na prisão”

Houve uma súbita troca de tom de voz.

“Pai eu tô… Porra”

E desligou.

Ligou de novo, 5 segundos depois. Agora em outro ramal. André já estava sem paciência.

“VAI TRABALHAR, SEU VAGABUNDO, VAI ENCONTRAR O QUE FAZER!”

“AH, VAI PRA CASA DO CARALHO!”

“TIFUDÊ!”

“SUA MÃE!”

“Oi?”

E desligaram ao mesmo tempo.

Nova ligação. Voz de mulher.

“Cara, se dá ao respeito. Ligar a essa hora da manhã fazendo voz de mulher. Faça-me o favor, seu vagabundo”.

Veio um rap de resposta:

“Porra, vagabundo

Ó, vou te falar”

Jesus Chorou, dos Racionais MCs. André sabia a letra. Cantaram o resto do verso em uníssono.

“Tô chapando

Eita, mundo bom de acabar!”

Desligaram.

A próxima ligação veio quando André ainda explicava para os leigos em rap qual música havia cantado.

Voz de mulher, de novo.

“Cara, na moral, se você ligar aqui de novo eu vou dar um salve na rapaziada e a chapa vai esquentar.”

“Orra, mano, peraí, vamo conversar. Deixa eu te dar um papo”, disse, já na voz de homem.

“Papo de homem.”

“Papo de homem.”

“Se liga, tô só fazendo meu corre assim como tu faz o teu.”

“Sério, você não vai conseguir nada aqui. É uma empresa e os ramais tão na sequência. Você vai ligar duzentas vezes e eu vou atender todas elas.”

“Falou.”

Nova ligação.

“Mano, caiu aqui de novo. Dá um jeito aí, sei lá, pula 10 números.”

“Caramba, mano, fica complicado.”

“Como assim?”

“É que tem um sistema…”

“Um sistema?”

“É, tem a ordem dos números aqui e eu tenho que ir ligando assim.”

“Cacete.”

“É foda.”

“Bom, dá um jeito aí.”

“Falou.”

Quando achava que já estava tudo resolvido, uma nova ligação.

“Porra, cara. Tá difícil, hein?!”

“Muito.”

“Mas vem cá, funciona mesmo isso aí?”

“Opa. Uma galera cai.”

“Que fita, mano.”

“Pode crer.”

“Bom, dá um jeito aí porque nós precisamos trabalhar.”

“É, eu também.”

“Então vai na fé e bom trabalho pra você.”

“Pra você também. Vai com Deus.”

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