O Estado científico

Proponho aqui um debate baseado no artigo

The Faustian Face of Modern Science: Understanding the Epistemological Foundations of Scientific Totalitarianism

(…) when the modern revolutionary tangibly enacts his Utopian vision, it automatically qualifies as a dystopian nightmare for others. Promises of unlimited freedom begin to fade as the apotheosized State confiscates the citizenry’s wealth in the name of socioeconomic egalitarianism and imprisons dissidents. In the name of facilitating evolution, a theory that the orthodoxy of science has deemed infallible, those members of the human species who fail to meet the arbitrarily established standards of biological and genetic purity are expunged through eugenical regimentation. Fanatical as they are in their scientism, modern revolutionaries view man himself as a quantifiable entity. The irreducible complexity of humanity is overlooked as man is gradually transformed into a paint-by-numbers schematic. Society, by extension, is also considered a quantifiable entity. Thus, modern revolutionaries work to install their own bowdlerized form of democracy: the democracy of “experts.” By virtue of their own purported scientific and technical expertise, these policy professionals calculate and systematize the motivations of the populace and develop economic and technological stimuli that can produce the desired patterns of mass behavior.

O texto aborda as limitações da ciência e sua motivação primordial, que fora, segundo o autor, destituir deus de seu trono após seu longo reinado medieval. Ao derrotá-lo, a ciência criou uma nova divindade e, assim, uma nova cosmovisão igualmente impregnada de conceitos e linguagem. A discussão me remeteu à ideia da incompletude de Gödel, segundo a qual não é possível desenvolver uma “mãe de todas as teorias”, que possua consistência interna e ainda possa ser provada a partir de suas próprias ferramentas (axiomas, regras de produção, notação, etc). Você seria obrigado a criar uma nova teoria (ou linguagem formal) com outros axiomas, e, assim, o problema da incompletude seria propagado indefinidamente para a teoria imediatamente superior à precedente. Este post discute diversas explicações sobre o problema da incompletude, com destaque aos comentários ao fim do texto.

Do texto em discussão, também pode-se depreender que uma das grandes “features” da ciência é ser, ainda que de maneira idealizada, mais maleável do que a cosmovisão católica medieval. No entanto, não podemos negar que existe uma aristocracia/tecnocracia científica que muito se assemelha ao poder exercido, outrora, por monges e sacerdotes (os doutrinadores medievais), que dissemina o “saber oficial”, através da apresentação de títulos e credenciais. Se um estudo foi publicado numa revista de renome ou tenha sido referenciado por um acadêmico respeitado, muito provavelmente o material ganhará um status de verdade, nem que seja para efeitos práticos (e há que se reconhecer a diferença entre a ciência ideal e a ciência em ação).

O autor também toca a questão de a ciência, não raramente, chegar a conclusões místicas: ainda que se possa afirmar que eventos co-ocorrem no espaço ou se sucedem no tempo (por exemplo, um relâmpago sucedido pelo ruído correspondente, o trovão), é impossível provar associações do tipo causa-efeito (o relâmpago causa o trovão):

(…) radical empiricism arrives at conclusions that are inescapably mystical in character. An exclusively empirical approach relegates cause to the realm of metaphysical fantasy. This holds enormous ramifications for science. What is perceived as A causing B could be merely a consequence of circumstantial juxtaposition. Although temporal succession and spatial proximity are axiomatic, causal connection is not. Affirmation of causal relationships is impossible. Given the absence of causality, all of a scientist’s findings must be taken upon faith. Ironically, science relies on the affirmation of such cause and effect relationships.
That such mystical elements pervade radical empiricism comes as little surprise. Modern science, which finds its epistemological foundations in radical empiricism, has all of the elements of a myth. Self-avowed “shaman of scientism” Michael Shermer has proposed that the scientist should assume the role of the modern mythmaker: ” . . .because of language we are also storytelling, mythmaking primates, with scientism as the foundational stratum of our story and scientists as the premier mythmakers of our time” (“The Shamans of Scientism”).

Um pesquisador provavelmente afirmaria que a ciência não dá o conhecimento por totalizado e, estritamente, jamais afirmaria coisas do tipo “A causa B”. Na prática, a ciência sequer sobreviveria se não vendesse causalidade, tanto para o grande público quanto para os periódicos científicos. Dado que uma descoberta científica traz à tona apenas evidências da existência de um pattern, ao extrapolar conclusões sobre um conjunto finito de dados amostrados — e, ao extrapolar, vende causalidade — não pode negar que, em seu âmago, a ciência está fortemente calcada na fé.

O meio acadêmico, se fosse honesto com os pressupostos mais caros à ciência, sempre acrescentaria a seguinte observação ao final de seus trabalhos, como em uma bula de medicamento:

NÃO CREIA, SÃO APENAS EVIDÊNCIAS.

Isso tornaria claro ao grande público (e a muitos cientistas desatentos, que às vezes esquecem da observação acima) que, ao ingerirmos um medicamento ou vacina, fazemo-lo porque existem evidências de sua eficácia, mas de forma alguma é axiomático, categórico, que determinada droga cumpre o que é prometido na bula, ou seja, que a droga A causa a cura da enfermidade B. O meio acadêmico, ao “esquecer-se” dos pressupostos científicos, transforma a sua verdade (episteme) em algo crível, adentrando, invariavelmente, a seara da fé. Mais ainda, até que ponto podemos separar a idealização da ciência da sua prática, ou seja, de uma ciência viável?

Em suma, a ciência possível propõe uma cosmovisão tal qual uma religião. A ciência idealizada, que pressupõe um estado de permanente ceticismo, jamais se concretiza, pois não é viável (não gera um produto usável de conhecimento, exceto para si mesma).

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