FUNDAÇÃO — A pedra viva do Cariri

Fotorreportagem realizada em Santana do Cariri/CE no dia 24 de outubro de 2019, durante a 16ª Romaria de Benigna, sobre a ‘Pedra Cariri’, alicerce inquestionável da vida e cultura santanense. (Ou, quem sabe, caririense…)

AGRADECIMENTOS

Este trabalho não teria sido possível sem o enorme apoio prestado pelos santanenses Carlos Eduardo de Sousa, 33 anos, fundador do Memorial de Mártir Benigna, e Flávia Isidório Cruz Bráulio, 51 anos, cabeleireira local. Nosso grato reconhecimento a tão solícitas fontes.


PEDRA — Fundação em terra e vida

A Pedra Cariri é uma rocha calcária disposta em finas camadas de sedimentos pertencentes à 5ª camada da bacia sedimentar do Araripe, formada durante o período Cretáceo. Entre as variações climáticas decorrentes do século XIX, a pedra bruta mantinha-se como fonte de renda extra nas primeiras comunidades de Santana, que durante o período de escassez das chuvas e baixa produtividade agrícola vendiam a pedra nos primórdios de sua economia.

PORTÃO — Abrindo as portas para si

Podendo ser usada in natura ou polida, a Pedra Cariri sempre teve amplo uso nas construções de Santana. Como dito anteriormente, a pedra era fortemente inserida na economia de diversas famílias, daí haver diversas serrarias na região. Mesmo com uma menor popularidade, a rocha ainda se liga à economia da cidade. A entrada acima localiza-se na trilha do martírio da Beata Benigna.

TELEFONE — Conversa entre ontem e hoje

Onipresente em quase toda construção de Santana, a Pedra Cariri também compõe partes do Memorial de Mártir Benigna, localizado no bairro Inhumas. O museu, dedicado ao resgate histórico da jovem mártir Benigna, apresenta peças como o telefone acima, antigo item do Cel. Felinto da Cruz, diversas vezes prefeito da cidade. O à época raro objeto era compartilhado por toda a população de Santana e ficava na escola onde a menina Benigna estudava.

PRATELEIRA — Indo de fora para dentro

Além do costumeiro uso na edificação, a Pedra Cariri apresenta ainda funções inusitadas pela população de Santana. Como a prateleira acima, feita da pedra e usada como suporte para cálices. Fruto das serrarias locais, o item é apenas um exemplo de como esta rocha permeia completamente a vida e a cultura dos santanenses, erigindo moradas enquanto as orna.

MONUMENTO — Grande valor e orgulho local

O 1° Parque Geológico das Américas (ou ‘GeoPark Araripe’), criado pela Universidade Regional do Cariri (URCA) no ano de 2005 e reconhecido pela UNESCO em 2006, é um território onde os valores científico, biológico, arqueológico e paleontológico são destacados. Delimitada entre nove geossítios situados em seis cidades caririenses, Santana do Cariri detém dois deles, o Geossítio ‘Pontal da Santa Cruz’, rico pela fauna e flora, e o Geossítio ‘Parque dos Pterossauros’, onde o valor arqueológico ganha maior destaque. A importância crescente atribuída à pedra é percebida na sua escolha como matéria-prima não só dos prédios pela cidade mas também dos grandes símbolos patrimoniais de Santana do Cariri, qual o monumento acima.

RUÍNA — As pedras passam a cair

Apesar da ligação com a economia local, nunca houve políticas adequadas sobre a Pedra Cariri em Santana. Com a exigência, pelo Poder Público, de carteira trabalhista para aqueles que trabalhavam com a pedra, surgiram diversos obstáculos. A falta de investimentos aliada ao alto poder aquisitivo de Nova Olinda/CE (que também comercializava a rocha) invisibilizou o assunto na cidade. O prédio acima é um forte reflexo dessa triste decadência cultural.

ESCADARIA — Oculta, mas não tanto assim

Flávia Isidório, cidadã natural de Santana, quando por nós consultada sobre possíveis expoentes da Pedra Cariri na cidade, expressou forte incerteza, uma vez que boa parte das construções sobre a pedra estão sendo revestidas. A escadaria da imagem localiza-se na Igreja Matriz. Construída em 1911 e sobre cerca de 1.150.000 lajes da Pedra Cariri, teria sua escada bem mais tarde, por volta de 1980 na gestão de Plácido Cidade Nuvens. Hoje coberta, a escadaria apresenta pequenas falhas no revestimento. Nela, é possível observar uma pequena pedra que aparece como se persistisse em existir, exibindo uma cultura que dificilmente (ou mesmo nunca) será esquecida.

PEDRARIA — A joia retorna para casa

Desde meados do século XIX, a extração da Pedra Cariri em Santana é destacada pela indústria civil por seu valor ornamental. Hoje, a pedra é comercializada principalmente para o revestimento de paredes e pisos. A pedreira de Tico Sisnando, na imagem acima, funciona também como serraria e vende seu produto conforme a demanda personalizada do comprador. Ainda que invisibilizada pela cultura, a rocha mantém-se como um forte fator econômico da cidade, resgatando as primeiras essências da Pedra Cariri.

FIGURA — O homem gravado na pedra

Carlos Sousa, fundador do Memorial de Mártir Benigna, é artesão há alguns anos. Sua obra, entre chaveiros, placas e quadros, tem como base a Pedra Cariri. No museu que gerencia, Carlos mantém uma pequena galeria de escritores santanenses. Entre eles, encontra-se Plácido Cidade Nuvens (no canto, abaixo à direita), o mesmo que edificou a escadaria vista há pouco. O artesanato na pedra parece buscar um passado que teima em desistir de si mesmo.

ARTE — A semente do novo tempo

Este mesmo Carlos costuma também produzir colares como os acima. Para isso, usa não somente a Pedra Cariri (gravada com o rosto de Benigna) mas também sementes e outros materiais. Além disso, vende diversos produtos como ímãs e blocos de anotações. Todos de pedra. A presença desta rocha tão cara a Santana do Cariri demonstra um certo renascimento, visto que além de mover a economia, como sempre moveu, move agora também espíritos e corações.

    Simone Hora, Stephani Linard e Williams Abreu

    Written by

    Alunos do 4º Semestre de Jornalismo, realizadores da fotorreportagem FUNDAÇÃO.

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