A culpa é do cardápio

Mia Wallace e o menu do Jack Rabbit Slims: five-dollar-shake (s2)

Ao longo do tempo cultivei o hábito de leitura dos menus de restaurantes. Eis uma literatura vulgar que reserva aspectos estéticos e simbólicos dos mais curiosos. Ao me referir ao cardápio, não limito a plataforma. Pode ser no tradicional livreto, no ficheiro, no folder dobrável encardido dos dedos de frango a passarinho, no papel avulso (pregado ou não sobre uma prancheta), no ipad ostentatório, no quadro de boteco com letras de encaixar, na lousa sobre um cavalete do lado de fora (ou sua versão hipster para ambientes internos ornados por lettering a giz contornando frases cool em inglês e referências pop)… vale até no soletrar do garçom, na mensagem de whatsapp, ou simplesmente na ausência da informação (vulgo “confiança”). Afinal, o cardápio entrega a primeira expectativa acerca do objeto de desejo sobre o qual se pronuncia: a comida.

A rigor, a linguagem física corresponde à identidade visual da casa. Os restaurantões de tarimba cumprem a etiqueta exibindo a carta do lado de fora pra espantar a gentalha logo de cara, evitando o constrangimento dentro do salão); as casas bem informais de tradição e clientela assídua limitam-se a mandar na bucha o prato do dia — se é que precisam. Tomar um cardápio na mão, conhecendo ou não o lugar, encoraja-nos a um processo de tomada de decisão importante. Você pode ter sentado à mesa pensando na foto de capa do Facebook que vira mais cedo na página do estabelecimento ou pensando no desejo do dia (tô mais pra massa, mais pra peixe, mais pra salada, vá lá…). Ao tomar um cardápio (ou ao ouvir o garçom) sua expectativa original é imediatamente tensionada pelo gesto que passará a pôr em dúvida as certezas premeditadas. A saladinha de entrada virou bruschetta; o peixe perdeu para a descrição da bisteca; o chocolate metamorfosearia-se num mimo cítrico de verão.

Menus seduzem, decepcionam, nos deixam hesitantes ou exultantes. Todo o sabor da expectativa concentra-se nesta experiência um tanto desconfortável de folhear o cardápio (às vezes com a pressão do garçom plantado a meio metro da mesa): o emprego tátil e visual do palato. A salivação deve começar neste ponto à formação das imagens mentais do devaneio sensorial. Quando se fala em comer com os olhos, normalmente ignora-se o aspecto das janelas da alma, pela qual vislumbramos oniricamente o sabor a partir do uniforme uso de todos os sentidos de modo impossível a se corresponder à experiência gustativa de fato. Devolvido para o garçom, o cardápio ganha uma nova vida. É hora de se observar os pratos alheios circulando pelo salão, a temida segunda etapa que ameaça a escolha posta. Aí, o cardápio exerce influência indireta, assaltando a mente do cliente com algumas frases e cifrões que puderam ser decoradas daquele primeiro contato com menu.

– Garçom, posso ver o cardápio novamente?

A segunda leitura do menu — ao contrário do que ocorre com um romance ou um ensaio — vem como um rolo compressor, esmagando qualquer aura benjaminiana, num correr de olhos ansiosos, desatentos, buscando uma nova solução à possibilidade da expectativa frustada da primeira decisão. E, então, é quando comete-se o erro fatal:

– Dá pra trocar isso pro aquilo? Vê uma porção extra daquilo outro. Quero o mesmo dela…

No rearranjo desse desarranjo em busca de saciar a expectativa (que não é mais a mesma a esta altura), o valor da comida desaparece. As glândulas salivares ressecam; o papo na mesa abrevia-se, à espera da superação do momento de tensão do pedido mal elaborado para a conformação ali adiante, quando os pratos chegarem à mesa. Talvez o único jeito de se passar incólume por esse processo seria abrir-se a uma fruição do menu alimentando a mente das expectativas corretas, aceitando toda a incerteza e a insegurança que provém de uma decisão que pode vir a frustrar. A decepção? Faz parte da vida. Quem sabe na próxima?

PS: foi mal a pegada autoajuda ao final.

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