Apaga-se a luz da mesa de Ulysses

A fachada do Piantella, originalmente batizado de Tarantella

Por quase quatro décadas, o Piantella conseguiu um grande feito: criar uma identidade inabalável. Símbolo de uma nobreza antiquada aliada aos caprichos parlamentares (de oposição ou situação, como era o lema), seu painel bulcãoniano na fachada e as portas cerradas asseguravam o espírito reservado, o protocolo da aristocracia.

Sempre que passava por lá, por tantos anos era movido por um misto de curiosidade, desejo e repulsa de adentrar no que imaginava ser um salão imperial com garçons de smoking e um chef de toque blanche à moda francesa. Como um assalariado da imprensa, à época, entrei pela cozinha, onde não havia sinal de nobreza.

Chef Palito me recebera após o serviço do almoço, em sua folga, para uma entrevista. Saudoso das praias do Nordeste, contentava-se em tom de lamento em aproveitar as poucas horas do turno vespertino pra ir à beira do Lago Paranoá, enganando-se com a paisagem das nossas águas de horizonte finito.

Uma volta pelo salão de cadeiras estofadas, pelo altar de Ulysses Guimarães no segundo andar e pela adega opulenta mostrava-me um dos raros sobreviventes da era clássica do gourmet. Antiquado, porém extraordinário à primeira impressão. Há de se reconhecer que, apesar da insossa feijoada dos sábados, do exorbitante menu executivo de almoço, o Piantella não se dobrou à decadência final do restaurateurism: a gourmetização.

O Piantella mudou seu nome original ainda nos anos 70. Tarantella já tinha dono. Poderia ter revisado o cardápio também. Mas preferiu manter por quase quatro décadas aquele mesmo menu salteado por muita empáfia e pouco sabor.

Escargots oprimidos pelo alho, vieiras embebecidas em espesso molho branco, cavaquinhas rijas para além do ponto, carré de cordeiro ressecado guarnecido por risoto empapado com raspas de trufas… sem falar daquele aterrorizante amálgama de chocolate industrializado que cobria os profiteroles murchos recheados por um sorvete daquele cuja embalagem é sua única serventia: virar tupperware de feijão dormido. Eis um espetáculo de horror para o que se clama como alta cozinha.

Havia momentos de respiro. Lembro saudosamente da simplicidade do linguado ao molho de vinho branco, aspargos e coração de alcachofra do chef Palito. De resto, o restaurante vivia seu próprio mundinho, encerando sapatos e afofando egos dos donos (ou aspirantes a donos) do poder e seus lobistas.

Nos últimos dias de Marco Aurélio à frente do projeto, houve um último esforço de reinvenção da casa, abrindo para menu-degustação com criações de “vanguarda” do Lui Veronese, sangue novo. Bem bom, por sinal, mas um long-shot para bancar uma modernização conceitual do Piantella. Evidentemente é difícil educar paladar de bufão, ainda mais se com a boca cheia de veneno.

A exemplo de outros restaurantes clássicos de Brasília, o Piantella chegou ao final de seus dias servindo apenas à memória afetiva de uns poucos endinheirados que ainda estacionavam suas mercedes em fila dupla na comercial da 202 Sul. Se fecha as portas, é porque foi engolido pela própria história. Os tempos mudaram. Inclusive na política, a quem o restaurante era mais útil.

Seu fechamento é sinal de que comida cara não é necessariamente comida boa; ingrediente de luxo não é tão reconfortante e sustentável como o produto local. E mais ainda: que a corja politiqueira que maquinava contra o povo às gargalhadas sob lustres à meia luz ao redor da “mesa do doutor Ulysses” não precisa mais se esconder detrás de refeições ostentatórias perfumadas com naftalina e regada a Château Cheval Blancs saldados pelo cartão corporativo.

Os urdidores engravatados agora se encontram a céu aberto, em ambiente claro como o dia, com a certeza da impunidade e da conveniência do foro privilegiado. A partir deste 31 de agosto de 2016 mais do que nunca.