Entre a dor e o prazer de se comer fora de casa

Pra ilustrar: o salmão com xarope de uísque, maçã verde e purê de batata com provolone do El Negro (divulgação)

Comer nunca é uma atividade isolada. Ou seja, não se resume às propriedades gustativas meramente, ou ao exercício primitivo da saciedade. Toca em questões tão importantes (sobrevivência, nutrição, ética) como esquiva-se por futilidades tais como a ostentação do restaurante chique para o encontro marcado e a reunião de negócios à conveniência do cartão corporativo. Comer pressupõe um ato social, de convívio ou interação. Ao mesmo tempo, prevê um componente solitário, do prazer culpado dos fast foods, das bombas gordas de serotonina ansiolítica para o alívio do comichão da gula… Inevitavelmente, comer passa pela ordem econômica. E a grande ginástica gourmet dos tempos modernos está em conciliar a dor do bolso com o prazer do palato. Ou seja, como a dor libera endorfina e, portanto, está intimamente associada ao prazer (não apenas como antagonista), há quem goste de sofrer mais do que os outros. Aos que preferem um equilíbrio maior inventou-se a promoção.

O pão de queijo de ontem e o salgado congelado após encalhar na estufa saem pela metade do preço; o quilo depois das 14h despenca; na happy hour o chope tem dose dupla; e o abacaxi de 4 pilas fica 10 se levar três. Ou seja, a promoção ocorre no aproveitamento do “refugo” do dia, no uso dos horários menos movimentados, na queda da demanda ou na compra de atacado. E não há mal nisso. É até ético — isso se ninguém estiver abusando do poder de sedução do preço baixo para servir coisa estragada. Em eventos como o Restaurant Week, tradicional semana (que é mais de uma) para incentivar as pessoas a comer fora, ou mesmo nos menus executivos de almoço essa fórmula se disfarça pela jogada de marketing.

Num momento de austeridade, a promoção se insinua — toda eixosa, cheia de L2, como diria Nicolas Behr. O preço, para a realidade daquilo que tem sido praticado no dia a dia dos restaurantes, é convidativo. Arredondando: R$ 45 e R$ 54, respectivamente para almoço e jantar, para um curso completo de três etapas (entrada, principal e sobremesa). Como envolve restaurantes a la carte (cujos pratos individuais facilmente ultrapassam o valor do menu promocional completo), o perfeito equilíbrio se anuncia, afinal dói menos no bolso. Resta a pergunta catártica: foi bom pra você?

A resposta do palato nem sempre corresponde. Até porque envolve outros sentidos que se entrelaçam no afã pela composição da refeição “endorfinamente” perfeita: o que o prato diz aos seus olhos? Como está o aroma? Está bem executado? Sacia? Ano após ano, o que percebo nos menus do Restaurant Week e similares (Brasil Sabor, por exemplo) é um empenho em supervalorizar as receitas, gourmetizar a descrição dos ingredientes para, ao final, sobrar aquele gostinho amargo da expectativa frustrada.

Passar o olho nas ofertas dos 63 restaurantes que aderiram à iniciativa (pagando por isso) chega a ser nauseante ao observar os mesmos tétricos vícios: o mix de folhas sem-vergonha, a sobremesa tamanho mini, as porções reduzidas, o sorvete Kibon e meu personal favorite: a taça de frutas da estação. Comer bem fora de casa permanece uma experiência dolorosa, por maior ou menor prazer que se extraia do prato de comida.

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