Sobre pães, jornais e manhãs de sábado

Tomado pelo automatismo da leitura apressada diária do Correio Braziliense para fins do exercício de assessor, passo batido pelos poucos arroubos de sensibilidade e ludismo restantes nas páginas do impresso. Eis que nesta manhã, presto minha visita mensal à máquina do tempo em que se configura a barbearia Líder, no SRTVS, e descubro uma joia de texto do compadre Gustavo Falleiros sobre o Pão do Alemão — combinação insuperável para uma manhã de folga esta do papel-jornal com a padaria.

Antes, devo contextualizar a barbearia. Ali trabalham três barbeiros que me conhecem desde quando não me recordo. Cortam o cabelo do meu pai, o meu e o do meu filho, quando ele deixa. Executam o mesmo corte máquina-seis-do-lado-tesoura-em-cima de toda a vida, entre debates acerca de futebol — há uma rivalidade Fla X Flu X Bota; o consenso é apenas o nosso Gama.

Enfim. Até outro dia você poderia encontrar velhos exemplares da Manchete por lá. Atualmente, só o diário braziliense mesmo. Catei os cadernos de Cultura e Cidades, por força do hábito. Depois de uma passada de olho me detive na crônica do Falleiros. Ele, um lorde-pop afeito às memórias, aos sentidos e de textos à flor da pele com quem tive a honra de dividir a edição do caderno cultural do JBr por menos tempo do que gostaria.

Escreve ele nesta manhã sobre o saudoso mestre padeiro Reinhold Dern, famoso pelas fornadas, pelas cervejas e pela implacável sisudez.

Por alguns anos estive tomado pela curiosidade de conhecer o Pão do Alemão, meio de costas na esquina da então deserta comercial da 213 Norte. Certo dia fui lá às pressas, levado por um impulso exploratório da minha gula. Não vi muita graça nos pães… talvez mais em uma rosca açucarada que não tinha nada lá tão mais especial do que noutras padarias da Asa Norte. Porém, ignorei todo o resto, escapou-se a aura.

O texto do Falleiros é um alento para todos que conseguem ou querem enxergar na culinária uma passagem para tocar o profundo da poesia e deleitar-se na interdisciplinaridade que é este campo da vida. Pois só conheci Reinhold Dern na morte.

Buscava uma oportunidade para escrever sobre o Pão do Alemão, quebrar a barreira do olhar penetrante de Reinhold e entrevistá-lo… restou-me as últimas palavras, em um curtíssimo obituário que escrevi para a Veja Brasília. À época fui à padaria. Havia, sobre as fotos de paisagens de vilarejos alemães que encobriam as janelas, uma mensagem de luto.

Aprendi ali, diante das portas cerradas, na história pouco contada, na ausência da inquietude lúdico-empreendedora da qual se revestia Reinhold, que a experiência gustativa não deveria se limitar ao exercício primitivo da salivação-mastigação-deglutição. Falleiros me fez recordar disso hoje. Muy grato, velho.

PS: aguardo com alguma ansiedade a prometida sequência do texto.

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