sobre caminhos e dores antigas
a minha avó enfrentou a morte, no mínimo, sete vezes. mulher negra mineira que enfrentou Jesus e contou com suas próprias palavras o acontecido quando de frente para a morte: "não, eu não vou. tenho que voltar para cuidar dos meus filhos"
mesmo sendo um bucado de gente já criada, fomos acostumados a repousar nas orações de minha avó. a força que dela vibra é coisa que não se traduz em versos.
de corpo já encurvado, voz baixa, humor desequilibrado, diagnósticos médicos inconclusos, bolsa cheia de remédio, coração remendado, é dali que vem o sopro mais forte das palavras que emanam sorte e boa vida para seus descendentes.
cheia de causo, de coisa, de pouco contato, apesar da mão e voz doces, minha avó alimenta nosso passado com suas histórias prenhes de detalhes. ela enfrentou, com 16 anos e uma filha, seu primeiro marido, que com 57 a espancava e a obrigou a se afastar das salas de aula — ela dava aulas para sua própria comunidade. ainda nova, enfrentou as labutas de um segundo casamento, com um homem tão velho quanto o primeiro que sofria dos mesmos adoecimentos que ela — aqui entram os homens incompreendidos de nossa linhagem.
eu sinto que as mulheres que saíram de minha avó, e até mesmo as que vieram antes dela, sofrem do mal da incompreensão. como efeito, as entopem de remédio. é assim com ela, com as minhas tias e com a minha mãe. o ciclo é tão enraizado que chegou na minha prima e na sua filha, que aos 6 anos toma remédio para ansiedade.
aos 13 anos, eu desenvolvi crise de pânico. convivi com isso até os 23 — momento no qual já estava há dois anos em tratamento psicológico e quando, enfim, conheci a ayurveda. em minhas crises haviam dois medos: o da morte e o da loucura.
por que o medo da loucura?
acredito que em nossa memória genética e ancestral carregamos as dores não curadas. por fazer parte dessa caminhada de passos tão antigos, fui agraciada com a possibilidade do rompimento. curar a mim e curar a elas, como consequência. não foi necessário me render aos remédios — apesar de insistirem. talvez essa força para driblar tal caminho já conhecido — o da medicação — venha do fato de que minha avó já passou por tratamento de choque. há tanto sobre o que resistimos há anos, tanto sobre o que já suportamos...
hoje, ainda temente à morte, não temo a loucura. aprendi a compreender as mulheres incompreendidas de onde vim e, com isso, me compreendo mais. se me compreendo, não aceito diagnóstico algum que me enquadre em doenças tabeladas. quem haverá de me convencer que um cid me define?
depois de várias voltas que a vida dá, me tornei mestra. esse vínculo com a minha avó me envolve e percebo que estamos todas trilhando, juntas, um mesmo caminho. a sala de aula da qual ela teve que abrir mão, se tornou um dos meus maiores desafios. a luta pelo título de mestre me trouxe inúmeras crises. por vezes eu não entendia porque aquele lugar me doía tanto — mas aqui estava a resposta: haviam dito para minha avó há 60 anos atrás que aquele não era nosso lugar.
os sonhos dela renasceram em mim antes mesmo de saber quais eram. veja como nossos passos vêm de longe!
acredito que é sobre isso quando nos dispomos e somos agraciadas com a possibilidade de reescrever nossas narrativas.
quem há de decifrar o grito de dor de todas essas mulheres que foram impedidas de traçar o próprio caminho?
que sejamos nós mesmas a cura.
conhecer a nossa própria história gira a chavinha da compreensão de nossos processos atuais. pois hoje, mais do que nunca, sei que sou o sonho de minha ancestral, e sei que grande parte das dores são repetições.
a cura vem da busca por romper o ciclo de dor e reconstruir os caminhos obstruídos.
chega de achar que temos apenas a idade que o ocidente nos deu nesse tempo adestrado. o tempo não se adestra, afinal: exu matou um pássaro ontem com a pedra que arremessou hoje.
lancemos a pedra hoje, é sempre tempo de reescrever nossa história.
Com todo meu amor, ofereço essa breve reflexão para minha avó Magda, cujo força e beleza nunca secam!
