If its your art creation, please tell me to give you credits

Solidão a dois.

Dividimos um cigarro, assim como não fazia desde os tempos da faculdade, onde o grupo de amigos fumantes era grande e o dinheiro curto. Tínhamos uma carteira inteira, mas dividimos o cigarro mesmo assim, como não dividíamos mais a cama há tempos. Reparei nos seus dedos nodosos e esguios, você nunca gostou deles, eu pelo contrário sempre adorei suas mãos grandes e calejadas, principalmente quando deslizavam sobre meu corpo mau intencionadas e terminavam me agarrando firme contra a parede. Reparei na sua boca, larga, baforando aquela fumaça branca no feixe de luz vindo da porta da cozinha. Lembrei de tempos mais amenos, quando você costumava sorrir pra mim.

Na primeira vez que te vi, senti um baque no coração, você era a personificação dos meus desejos mais íntimos, você era lindo com seus alargadores enormes, sua careca ruiva, sua camisa xadrez verde e seu sotaque engraçado, o famigerado ruivo paraguaio. Percebi naquela luz fraca da varanda que sua beleza não se esvaiu com nossas brigas e nem pelos maus tratos da vida. Você continuava lindo, um pouco mal cuidado, acho que você tem esquecido de si mesmo nos últimos tempos, se escondendo atrás dessa carapuça raivosa sempre na defensiva. Nunca foi o modo como você se vestia, mas o teu olhar imponente de quem sabe derreter corações e tirar calcinhas. Era disso que se tratava, uma mistura sem medida exata de doçura e gentileza com uma masculinidade feroz. Eu olhava para você e te enxergava, hoje procuro te decifrar à distância.

Não estávamos sozinhos, a conversa fluía entre os amigos mas meu pensamento estava longe, perdido em você, nos detalhes ínfimos do teu corpo sentado ao meu lado mas tão distante do meu coração. Você já esteve lá, sabe que é um lugar dúbio e perigoso, sei que certa vez você pegou o caminho errado e foi parar em um quarto frio e solitário, de poucas palavras, raiva e desconfiança, mas sei também que já esteve no meu paraíso secreto, onde te amei intensamente, loucamente até que fizemos — sim ambos, pois não carrego mais sobre meus ombros essa culpa solitária — desse amor sincero, miserável. Não foi o tempo que apagou a paixão, não foi a convivência que nos desgastou, fomos nós que feridos, nos fechamos.

Pensei em todas essas coisas enquanto o cigarro queimava passando dos meus dedos para os seus e vice versa. Bem que poderíamos estar trocando carícias, bem que poderíamos estar nos tocando voluntariamente não apenas pelo acaso dos nossos dedos de encostarem.

Eu sentia sua falta quando estava ao seu lado, você costumava puxar a cadeira para eu sentar, hoje fecha as portas dos seus sentimentos. Você costumava segurar minha mão, hoje reclama do calor e diz que minhas mãos suam demais. Tenho certeza de que não idealizei você, mesmo que tenha te transformado em palavras em vários textos e declarações, não quero que você seja aquele mesmo homem de cinco anos atrás, quero que você seja o meu homem de hoje. Somos muito jovens para deixar de se apaixonar, eu não quero viver na sombra do que já fomos, eu quero me apaixonar de novo. Quero sentir meu corpo ardendo de novo, quero sentir borboletas no estômago. Preciso, porque sou viva e não posso padecer dessa morte lenta que é o afastamento entre nós dois.

Eu sinto falta das loucuras, dos banhos de chuva inesperados, dos nossos corpos suados, de como transformavam os os problemas em detalhes secundários de como estávamos dispostos a viver e transformavamos os os perrengues em aventuras para contar.

Divide mais um cigarro comigo, divide a cama comigo, divide seus pensamentos, seus sentimentos… Divide a vida comigo, porque essa solidão a dois está sendo um fardo muito pesado para carregar.

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