A arte de recriar a cidade

Por Baixo Ribeiro

Muita gente considera “arte” apenas aquilo que pode ser pendurado na parede… Ainda é comum ouvir de alguém um sussurro envergonhado: “Desculpe, não entendo nada de arte”. Essa miopia em relação à arte é fruto de muitas décadas de isolamento do grande público que não pode comprar quadros em galerias “por que são caros” e não tem o costume de ir ao museu “por que é chato”. Essa é uma situação triste, mas decididamente incentivada por um mercado de arte, cuja palavra de ordem é a exclusividade. Quanto menos acesso as pessoas tiverem aos bens artísticos, mais eles serão desejados e mais valiosos se tornarão. Essa lógica ainda funciona em 2016, mas o mundo está mudando…

O fato é que as novas gerações urbanas pós-internet estão mudando o papel da arte na nossa sociedade. Essas gerações têm muito mais acesso tanto à fruição quanto à produção artística. Pense na imensa produção de vídeos e fotos que sobem todos os dias na internet. São milhões de fotógrafos e videomakers produzindo para um público gigantesco e global. Nunca foi tão fácil pesquisar, conversar, aprender e mostrar arte. A arte já faz parte do cotidiano das pessoas e as novas tecnologias digitais e sociais prometem incluir ainda mais gente nesse processo.

Chegamos em 2016 olhando para o futuro, imaginando como podemos intervir na situação catastrófica do mundo. Questões urgentes, como o aquecimento global e a decadência da democracia representativa, levaram jovens a protestos em todo o mundo: Praça Tahrir no Egito, Indignados na Espanha, Occupy Wall Street, Parque Augusta e as passeatas de 2013 em São Paulo ou Ocupe Estelita no Recife, só para citar alguns. Todos esses movimentos de ocupação do espaço urbano estavam imersos em projetos artísticos a eles integrados. Não se separa mais a arte da vida.

A arte, definitivamente, tomou conta das ruas e das redes. E grande parte do que acontece de melhor e mais inclusivo na arte, hoje, não tem nada a ver com o que o mercado vende ou o que a maioria dos museus gosta de mostrar. Hoje, é possível encontrar um projeto que une arte urbana e plantação de hortas, isto é, artistas e hortelões trabalhando juntos para transformar o ambiente urbano.

Mas quando começou essa mudança de mentalidade? Essa história começa no final da década de 60, num momento de tensões políticas ao redor do mundo, auge da Guerra Fria, várias ditaduras militares instauradas em todos os continentes, Baby Boom, Rock’n’roll, Movimento Hippie… Estudantes e operários se uniram e saíram às ruas para protestar em passeatas, greves e outros atos coletivos, criando novas situações de pressão política. Ações populares aconteceram sincronicamente em cidades por todo o globo: São Paulo, Rio, Santiago, Buenos Aires, Córdoba, Nova York, Praga, Londres, Berlim, Roma e Paris, entre muitas outras.

Nesse momento, a Arte Urbana dava seus primeiros sinais de vida. Primeiro, ligada aos movimentos que investigavam o papel político do artista. Segundo, buscando uma aproximação da arte com as pessoas e com a cidade.

A tradução desse forte engajamento foi a criação de estratégias artísticas de “guerrilha” — estratégias essas que viriam moldar a identidade estética do final da década de 60 e criariam as bases para o surgimento de movimentos culturais importantes nas décadas seguintes.

Para burlar a repressão e criar uma comunicação rápida e direta, foram disseminados recursos midiáticos como os panfletos (flyers) e fanzines com informações urgentes sobre as ações; os cartazes (lambe-lambes) feitos com processos gráficos de baixo custo; o estêncil máscara recortada para reproduzir imagens diretamente sobre as paredes; as pichações feitas com spray sobre qualquer superfície para difundir palavras de ordem. Esses recursos não só marcaram a época, como difundiram-se rápida e globalmente — em palavras de hoje em dia, pode-se dizer que viralizaram.

XX

Em todo o mundo esses mesmos recursos foram sendo cozidos em diferentes sopas culturais com os devidos temperos locais. Durante a década de 70, em Londres, Vivienne Westwood e Malcolm McLaren — um autodeclarado situacionista — fundaram o Punk. Movimento cultural que incorporava a potência da mobilização e participação popular — vide o lema “faça você mesmo” — e, também, as estratégias de guerrilha contra o sistema, com a proposição de um imaginário agressivo e sedutor ao mesmo tempo: alfinetes na cara, cabelos coloridos e ouriçados, roupas rasgadas, música barulhenta e rápida, gráfica tosca em xerox barato…

Em Nova York, quase simultaneamente, estava nascendo o Hip Hop, movimento cultural igualmente abrangente — do qual faz parte o graffiti — cuja missão principal era incluir as periferias urbanas no centro do debate sobre os territórios da arte (questão cada vez mais atual). Um movimento que deu as costas aos cânones e convenções das artes letradas e investiu na experimentação de novas linguagens — mais comunicativas e sintonizadas com os jovens urbanos.

O filósofo francês Baudrillard escreve sobre o fenômeno do graffiti que, a partir de 1972, toma conta dos trens que circulam pelo metrô em Nova York: “Os grafites nasceram após a repressão das grandes revoltas urbanas de 66/70. Trata-se de uma ofensiva tão ‘selvagem’ quanto as revoltas, mas de um outro tipo, uma ofensiva que mudou de conteúdo e de terreno. Estamos face a um novo tipo de intervenção na cidade, não mais como lugar do poder econômico e político, mas sim como espaço/tempo do poder terrorista dos mídia, dos signos e da cultura dominante”.

A cidade é disputada permanentemente pelos donos da terra, pela propaganda e pela população que usa e paga por esse uso. Existe uma tensão constante entre os interesses públicos e os privados, e esse eterno conflito se explicita na construção de muros e grades de segurança, na instalação de cercas elétricas, câmeras de vigilância e guaritas, blindagens de carros e todos os sistemas de segurança que possam ser imaginados.

A cidade sinaliza que o privado não quer ser invadido e, frequentemente, invade o ambiente público com sua estratégia de supervalorizar os símbolos do medo e coloca mais lanças nos portões de entrada e mais concertinas nos altos muros de proteção.

O graffiti e a pichação surgem como um contra-ataque a essa sinalização opressiva, que mostra “quem é que manda na cidade”. A atuação coletiva e insistente de enormes contingentes de grafiteiros e pichadores retoma a paisagem urbana, transformando o muro que cerca um condomínio numa tela de pintura ou o esqueleto de uma construção abandonada numa pauta de caligrafia. Dentro desse contexto, o graffiti, tão popular entre jovens do mundo todo, tem um sentido de reocupação do espaço público urbano, de marcação desse espaço com uma identidade jovem/contemporânea — que se opõe à identidade velha/corporativa.

Assim como os grafiteiros e outros artistas, os skatistas também tomam os espaços urbanos para si, os ciclistas, os garotos e garotas que se encontram nos rolezinhos ou nos bailes funk e, também, os hortelões urbanos. O espaço público da cidade está sendo percebido, como um lugar de encontros, trocas e vivências. Essa é uma reação à privatização massiva ocorrida nas últimas décadas do século passado, com a instituição de um “urbanismo de bolhas”, de condomínios fechados, shopping centers, centros empresariais cercados, carros blindados e ruas desertas de pedestres.

Parte da população está voltando a tomar conta da cidade e exigindo a qualificação do que é público. Está chamando para si a responsabilidade sobre a manutenção e melhoria dos espaços de uso comum. Essa parte da população são os que eu tenho chamado de “novos ativistas urbanos” — cidadãos que saem às ruas para recriá-la, consertá-la, equipá-la, humanizar o seu uso. Grupos de formações distintas, não apenas arquitetos e urbanistas, mas também designers, artistas, biólogos, botânicos, sociólogos, antropólogos, especialistas em direitos humanos, em mobilidade, em moradia e, sim, artistas.

A participação é cada vez mais intensa e diversificada e vemos mais projetos artísticos dialogando com as comunidades e respondendo à sua ânsia em atuar e colaborar. São muitas frentes de experiência e atuação, muitas plataformas e mídias, muitas e novas abordagens artísticas que se utilizam da inovação tecnológica que tem se colocado à nossa disposição.

Exemplifico um pouco da diversidade da produção artística urbana contemporânea, citando alguns projetos de artistas brasileiros e estrangeiros com quem eu tenho colaborado, produzindo ou curando exposições, instalações e intervenções urbanas.

No projeto Women are Heroes, o francês JR encheu o Morro da Providência com lambe-lambes fotográficos, como se as casas do morro estivessem olhando para a cidade do Rio. As fotos foram tiradas a partir do contato do artista com as líderes femininas da comunidade da Providência e fazem parte de um trabalho com outras mulheres na Índia, Quênia, Camboja, entre outros.

Convidada a participar de uma exposição em São Paulo, a artista norte-americana Swoon realizou uma instigante obra de arte: uma escultura-instalação de madeira em pleno vão livre do MASP, que serviu de abrigo para moradores em situação de rua. Esse trabalho só foi possível por que a artista construiu uma rede de instituições e ativistas que participaram intensamente de todo o processo. A instalação permaneceu no espaço público por quase quatro meses e foi usada, vivida, visitada por muita gente — só de transeuntes, passam pela Paulista mais de um milhão de pessoas por dia.

O francês Invader pensa a cidade como um tabuleiro e seu trabalho, como um jogo interativo de esconde-esconde. Em São Paulo, o artista escolheu mais de cinquenta locais para fazer suas pequenas instalações com azulejos e editou um mapa com a localização dos “invaders”. Ele fez a maioria das suas instalações em muros muito altos, viadutos e prédios pichados, criando um diálogo visual com a agenda da pichação. A maioria das instalações sobrevive e serve de referência para passeios de bicicleta e skate.

O Coletivo BijaRi chegou em Pelotas e logo foi entrando no esqueleto abandonado de um prédio alto para estender diversos cartazes pelos andares do prédio, de modo que, de fora, parecesse que o prédio havia sido ocupado por moradores de algum movimento de “sem-tetos”. No dia seguinte foram para as ruas, passando-se por jornalistas e saíram a perguntar para as pessoas o que elas achavam da ocupação daquele prédio no centro de Pelotas. Os cidadãos puseram-se a discutir a questão da ocupação em si e outras correlatas, como o abandono de uma estrutura tão grande na cidade, o gasto inútil de dinheiro público, a legalidade de invasões para moradia etc. O debate político só foi interrompido pela ação da polícia que, invadindo o local, percebeu que tratava-se de uma ação artística e não de uma real ocupação.

Daniel Melim ainda mora na mesma cidade em que nasceu e cresceu: São Bernardo. Perto da sua casa e atelier está o Jardim Limpão, um bairro populoso, de infraestrutura precária, construído sobre um morro varado por vielas estreitas, becos e com casas de tijolo sem pintura. Há mais de dez anos, Melim mantém seu projeto de permanência artística, através do qual pinta as fachadas, muros e paredes do Limpão, com a ajuda de jovens que frequentam os cursos de estêncil administrados pelo artista.

Narcélio Grud vive em Fortaleza, Ceará, e trabalha com instalações sonoras. No último festival Concreto — exposição de arte urbana que o artista e curador organiza anualmente na cidade –, ele distribuiu pequenas caixas de música por vários postes no passeio público. Ao chegar perto dos postes, as pessoas, curiosas, acionam a corda da caixinha e ouvem, surpresas, a música que toca por alguns instantes.

Em Niterói, há muitas grades, assim como na maioria das cidades brasileiras. Gradeiam-se os parques, os museus, as janelas de casas antigas, tudo o que se pode gradear. A cidade se gradeia para sentir-se mais segura, mas, com tanta grade, sente-se presa. O artista Henrique Viviani resolveu discutir essa questão bordando desenhos nas grades com fitilhos plásticos coloridos. O projeto Agrade-se está, de fato, sensibilizando as pessoas para o assunto e inspirando que elas mesmas saiam bordando pelas grades ao seu redor.

A Vila Madalena é um laboratório de arte urbana e as pessoas que moram, trabalham e visitam o bairro já não estranham nenhum tipo de intervenção artística que possam presenciar. Assim, quando o artista Alê Jordão instalou esculturas-mobiliário feitas com guard-rails reciclados num terreno vazio do bairro, foi como se ali sempre tivesse existido aquela praça. O que antes estava abandonado e passava despercebido, no dia seguinte à instalação virou um lugar de encontro superfrequentado. De manhã, as crianças brincam nas esculturas, como se fossem trepa-trepas, à tarde grupos saem dos escritórios e vem fumar um cigarrinho na praça, e, à noite, casais vem namorar embaixo das luzes de led com movimentos programados que fazem parte das esculturas.

O argentino Tec voltou esse ano para a sua cidade natal Córdoba, onde realizou uma exposição no Museu Caraffa e também uma intervenção pública para relembrar uma história marcante dos tempos em que a ditadura militar estava instaurada no país: o Cordobaço, grande protesto ocorrido em 1969, que uniu estudantes e operários em violentos confrontos com a polícia local. Na época, todos os livros “de esquerda” estavam proibidos e era muito perigoso mantê-los em casa e, por isso, as pessoas os enterravam no jardim de suas casas. O artista recolheu pelos sebos da cidade todos os livros “de esquerda” que pôde e os expôs lado a lado com capacetes de operários. E numa esquina do bairro de sua infância, pintou no chão a imagem de um buraco cheio de livros, como se tivessem sido desenterrados simbolicamente.

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