Cânions de história

Por Iracema Torres

Depois de deixar para trás 460 km de estrada desde Salvador, chegamos àquela região por Paulo Afonso. Não sei exatamente se esperava alguma coisa. Já tinha até passado pelo Velho Chico de carro antes, no caminho entre Salvador e Fortaleza. Nos vimos, eu e o rio, lá pelas bandas de Juazeiro e Petrolina. De uma outra vez, foi atravessando por Penedo. Outra ainda por Propriá. Até mesmo por Paulo Afonso já havia atravessado, mas, não sei, só podia estar dormindo no carro dessa vez. Ou ainda era uma criança desacostumada a admirar belezas.

É o cânion que deslumbra. Em Juazeiro e em Propriá, a ponte é quase no nível do rio. De Neópolis a Penedo, a travessia — inusitada e uma providencial parada em longas viagens — é de balsa. Mas do alto dos 84 metros da ponte metálica Dom Pedro II, que cruza o cânion formado pela barragem do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, tem-se uma primeira noção do que vamos ver ao visitar a região dos cânions que vêm desde a barragem do Xingó, a 70 quilômetros dali.

Atravessamos, nos deslumbramos, voltamos. Paramos. A ponte-mirante tem espaço para pedestres contemplarem, tirarem fotos e curtirem a vertigem de admirar o rio de águas verde-esmeralda lá embaixo. Alguns ainda se divertem entendendo a imensidão daquele rio ao procurar, na sombra da ponte na água, o pontinho que representa o quão pequeninos somos, acenando para nós mesmos e fazendo o Velho Chico entender que chegamos, viemos — e estamos — em paz.

O sertão virou mar

Estar nessa região do Rio São Francisco pode ser, para alguns, um primeiro contato com a caatinga nordestina, com o sertão, com o Brasil profundo. Viajando de carro até o Xingó desde Aracaju (208 km), Maceió (289 km), Recife (440 km) ou Salvador (513 km), as mudanças na paisagem de Mata Atlântica à região da cor de terra, do barro, da seca, dos chapéus de couro, do mandacaru, da palma, das árvores espinhosas e retorcidas. O verde persistente misturado àquele tom sépia quando uma chuvinha dá o ar da graça. É a nossa mata branca. Só assim para a gente entender todas aquelas aulas de geografia.

A região do Xingó é um grande entroncamento de estados nordestinos. Ali se encontram, e se confundem, Sergipe e Alagoas. Entrando mais um pedacinho pelo Chico, já vamos estar na Bahia. Um bocadinho mais e bem-vindo a Pernambuco. Ali os sotaques se confundem, e os de ouvido treinado para sotaques nordestinos — não aqueles que acham que os sotaques de baianos, pernambuca nos e cearenses são todos a mesma coisa — não vão ter como saber em que estado estão só de ouvir a fala cantada do seu interlocutor.

Ouvindo a música Sobradinho, de Sá e Guarabyra, dá para ter uma noção do que aconteceu na região com a construção da barragem do Xingó: “Vai ter barragem no Salto do Sobradinho, e o povo vai-se embora com medo de se afogar”. Foi assim também com Canindé de São Francisco, um dos principais pontos de apoio para os turistas na região. A cidade, antes um pequeno vilarejo à margem do Velho Chico, foi inundada em 1987 após a construção da Usina Hidrelétrica do Xingó e acabou transferida para um platô próximo. O sertão virou mar. Sumiu a antiga cidade, formaram-se os cânions navegáveis do Xingó.

Com 65 quilômetros de extensão, 170 metros de profundidade, largura que varia de 50 a 300 metros e passeios de barco saindo de diversos pontos — Karranca’s Bar e Restaurante (Canindé de São Francisco), Restaurante Show da Natureza (Olho d’Água do Casado), Restaurante Castanho (Delmiro Gouveia) e até de Aracaju e Maceió –, o cânion é o principal atrativo da região. Cada companhia escolhe um pedacinho do rio e oferece roteiros em lancha, escuna, catamarã, canoas e até stand up paddle.

Dois passeios imperdíveis são ao Vale dos Mestres — onde é possível ver pinturas e gravuras rupestres de 3 mil anos — e à Gruta do Talhado, um santuário no Velho Chico, que tem esse nome por suas paredes que parecem ter sido talhadas à mão.

Mais do que belas paisagens

Há algumas cidadezinhas para se hospedar num raio de 80 quilômetros, mas a mais agradável e estruturada, e que ainda é patrimônio histórico, é a alagoana Piranhas. É ali que se sente que nem só das belezas do Rio São Francisco é feito o turismo da região.

A cidade é considerada a porta de entrada para a Rota do Cangaço. Ali, nas escadarias da prefeitura do município, foram expostas as cabeças de Lampião, Maria Bonita e seu bando, depois de surpreendidos e encurralados na Grota de Angicos. Dali também partiu em busca do bando de cangaceiros a volante do Sargento Bezerra.

E é do lado sergipano do Velho Chico que se desenvolve uma das partes mais marcantes da história do casal de cangaceiros. O massacre, como é chamado por alguns historiadores, aconteceu na madrugada do dia 28 de julho de 1938. O local era considerado por Lampião como um dos mais seguros: uma reentrância na pedra cercada por uma vegetação cerrada de angicos, árvore comum na região.

Mesmo conhecendo cada movimento, cada barulho produzido naquela região de caatinga, o bando de 34 cangaceiros foi surpreendido ao amanhecer. Nem os sempre atentos ouvidos dos cangaceiros, nem os sentidos dos cachorros detectaram a presença da volante. Nunca se soube se os cangaceiros dormiam o sono dos justos ou se foram traídos. O mistério da emboscada a Lampião e seu bando permanece.

O passeio à grota sai de Canindé de São Francisco ou de Piranhas, com guias que explicam cada detalhe da história da emboscada, hábitos e curiosidades sobre Lampião e Maria Bonita e ainda despertam a curiosidade para visitar, em Piranhas, o Museu do Sertão. O trajeto de 700 m, entre a beira do rio e a Grota de Angicos, é percorrido a pé.

No mesmo passeio de barco, ainda é possível visitar o povoado de Entremontes, que tem casario colonial e é conhecido pelas bordadeiras do “redendê”, como é chamado o bordado da região, e conhecer o local onde D. Pedro se hospedou em sua passagem pelo Rio São Francisco.

Depois de se embasbacar com a inesperada paisagem, muito sol castigante do sertão, banho de rio, comer muito bode e carne do sol, podemos seguir na música de Sá e Guarabyra e dizer “Adeus! Adeus! Adeus!” ou contemplar a bela paisagem desde o Mirante do Talhado e planejar a próxima visita.