Por uma esquerda que se encare no espelho

Por Jean Willys

Nos movimentos de esquerda alinhados com o estalinismo soviético ou, inclusive, aqueles que denunciavam seus crimes, a homossexualidade era vista como um “desvio burguês” por boa parte dos marxistas. Em um texto clássico sobre a “moral revolucionária”, o líder trotskista Nahuel Moreno fala da decadência do Império Romano com referências veladas à homossexualidade, refere-se ao presente capitalista como uma sociedade “em falência e repugnante” onde os jovens participam em orgias, assistem a filmes pornográficos e convivem com “pederastas e lésbicas”, e até se alarma pelo uso da pílula como elemento fundamental da liberação da mulher.

Nesse contexto, a maioria dos gays que militavam em partidos de esquerda e em outros movimentos populares, inclusive nas organizações guerrilheiras, viviam forçosamente no armário. Assim como o Conto de Paz, outras obras literárias refletiram essa realidade: podemos citar, por exemplo, Enquanto a Inglaterra Dorme, de David Leavitt, situada na guerra civil espanhola; História de Mayta, de Vargas Llosa, que imagina uma revolução fracassada no Peru, e A Mais Maravilhosa Música, do escritor argentino Osvaldo Bazán.

“Então ele se deu conta: se a Revolução triunfasse, ele continuaria sendo um oprimido”, escreve Bazán no romance, que conta a história de uma relação proibida — para os inimigos, mas também para os companheiros — entre um ativista homossexual e um guerrilheiro da esquerda peronista na conturbada década de 1970. Quando Perón volta do exílio, eles se encontram por acaso na Praça de Maio, sem ousarem olhar nos olhos do outro, um com a bandeira do triângulo rosa, o outro cantando a palavra de ordem da organização: “Não somos veados, não somos maconheiros…”. Não tinha como dar certo.

É claro que não podemos esquecer o contexto histórico de cada uma dessas histórias reais ou fictícias. A União Soviética, o bloco do Leste e outros regimes de terror dos países ditos “comunistas” do século XX, como a China ou a Coréia do Norte, não têm nada a ver com o que nós entendemos por socialismo. Não há socialismo sem democracia. Em Cuba, um país cuja revolução tem muito que merece ser reivindicado e muito que deve ser criticado, os homossexuais foram perseguidos e estigmatizados quase na mesma época em que o Reino Unido os perseguia — lembremos, apenas como exemplo, a triste história do matemático Alan Turing — e a “sodomia” era criminalizada em muitos países capitalistas que hoje têm governos e legislações gay friendly.

Mais de meio século depois das tristes palavras de Fidel sobre os homossexuais, sua sobrinha Mariela é uma das líderes do movimento LGBT cubano, embora ela não seja lésbica ou bissexual assumida, e o próprio comandante, em uma longa entrevista biográfica, reconheceu que tudo aquilo foi horrível, assumiu a responsabilidade e pediu perdão. Hoje Cuba tem uma lei de identidade de gênero mais avançada que o precário sistema de portarias existente no Brasil, e tanto os EUA como o Reino Unido têm casamento civil igualitário: algumas coisas melhoraram e outras ainda não de um lado e do outro, como parte de processos sociais e históricos. Contudo, não podemos deixar de procurar na história da esquerda — uma história mais difícil de superar por aqueles que fazem leituras dogmáticas, quase religiosas, dos textos “sagrados” do marxismo e das narrativas das revoluções triunfantes ou traídas — alguns dos motivos de muitas das nossas atuais dificuldades, para deixar atrás um preconceito que, muitas vezes, apresenta-se disfarçado de teoria política. Ainda não é fácil para nós, mesmo entre nós.

Para nós, gays, lésbicas, bissexuais, travestis, mulheres, negros e negras, macumbeiros, trabalhadores e trabalhadoras sexuais, índios e tantos outros, o ranço machista e homofóbico dos regimes socialistas ainda perdura, bastante piorado, na hoje capitalista Rússia, um dos piores lugares do mundo para ser gay, e nos “socialismos” do século XXI da América Latina. Poucos governos do continente são tão conservadores no que diz respeito aos direitos das mulheres e dos LGBTs como os da Venezuela — lembremos a campanha homofóbica e antissemita do chavismo contra o candidato da oposição Henrique Capriles, “acusado” de judeu e homossexual — , do Equador — cujo presidente se orgulha de ser contrário aos direitos LGBTs e ameaçou renunciar se o parlamento aprovasse o direito ao aborto legal — e da Nicarágua, país que tem uma das legislações sobre aborto mais anacrônicas do planeta.

Eu sempre digo que pertenço a uma esquerda de “quarta geração”, que entende que não podemos abrir mão do conceito de “luta de classes” (e por isso ainda precisamos evocar os espectros de Marx), mas não basta com isso: a esquerda, hoje, tem que ser também feminista, tem que defender os direitos LGBTs, tem que lutar contra o racismo, o sexismo, a xenofobia, tem que reivindicar os direitos ambientais, denunciar as causas das mudanças climáticas, defender um ambiente saudável, participar das lutas pela moradia, pelo direito à terra, pelos direitos dos povos indígenas, entre outras.

Meu partido, o PSOL, que não por acaso reúne o socialismo e a liberdade no seu nome, tem sido o refúgio e o espaço de construção, de identidade, de luta e de protagonismo de muitos ativistas LGBTs, mulheres, negros e negras e de outros coletivos que organizam setores oprimidos da sociedade cuja “libertação” não dependerá apenas da luta de classes, mas precisará, também, de muitas outras. E por isso ele é, hoje, sem dúvidas, o partido que melhor representa as lutas desses coletivos, que outros partidos abandonaram ou nunca assumiram como próprias.

Há ainda a resistência de alguns companheiros que já não falam da homossexualidade como desvio burguês, mas ainda dizem que a luta pelos direitos dos e das LGBTs “só interessa à classe média”, que é uma forma politicamente menos incorreta de dizer a mesma coisa. Já não cantam “não somos veados, não somos maconheiros”, mas acham que falar em legalização da maconha é desnecessário e excessivamente polêmico. E eu acredito que devemos, fraternalmente e sem medo, encarar esses problemas. Esse é talvez o principal desafio da esquerda progressista no Brasil de hoje.