Iluminação no brejo

Caçar sapos no brejo era uma paixão. Lá, em meados da década de 1960, eu me reunia com meus amigos de bairro e nós íamos para as cercanias do Rio Pinheiros atrás dos gosmentos anfíbios. Claro, aqui era bem diferente do que vemos hoje. Eu, aliás, nem aqui moro mais, mas gosto de vir às vezes com meu filho, que trabalha naquele prédio grandão. Ele vai para o escritório, eu vou para o Bar do Mané, quatro quarteirões para baixo. Memórias e amigos que encontro por lá, na parte que ainda está viva.

Meu filho conheceu pouco este bairro em sua essência, pois nos mudamos quando ele tinha apenas 5 anos. A especulação imobiliária estava armando seus primeiros planos antes de dar o bote certeiro. Eu, atento, imaginei que isso aconteceria uma hora ou outra, então me organizei com minha esposa e vendemos nossa casinha por um bom preço. Compramos um terreno ali na região da Raposo Tavares, perto do quilômetro 15, e lá vivemos até hoje. Meu filho mora perto do serviço, junto com sua esposa, que também trabalha na região.

Apesar de eu não gostar deste novo estilo do bairro, pela falta de intimidade entre os vizinhos, acho que ele é bem bonito, um belíssimo cartão postal para a cidade. São Paulo à noite fica linda, com tantas luzes, diversos arranha-céus e belíssimas pontes. Nosso rio sai bonito nas fotos, mesmo sendo um esgoto gigante a céu aberto. Acho que é tratamento de imagem, né?

Quando percorro a Marginal Pinheiros de carro, fico impressionado com a beleza que essa paisagem forma. Parece uma cidade moderna, dos Estados Unidos, cheia de cores vivas no meio da escuridão noturna e do cinza da cidade. De dia, os prédios espelhados refletem o crescimento, o progresso e, claro, os carros. Sinto falta do meu bairro, mas entendo que é um processo natural da urbanização.

Eu sempre achei bonito o apelido de Paris, a capital francesa, conhecida como Cidade das Luzes. Há teorias sobre o apelido: uns falam sobre a implementação de muitas luzes na cidade durante o século 17, como forma de conter a criminalidade à noite. Outros dizem que a alcunha vem do período iluminista, no qual pensadores importantes iniciaram a elaboração dos ideais que culminariam na Revolução Francesa, tempos depois. Uma terceira teoria conta que diversas personalidades de mentes iluminadas no campo das artes e das ciências passaram pela metrópole durante distintos períodos da História, tornando-a um polo de mentes iluminadas.

Enfim, independentemente de qual seja a origem, a luz sempre foi algo que me brilhou os olhos e, por isso, meu sonho sempre foi conhecer Paris. Eu gostava de caçar sapos à noite, ora com lampiões, ora com lanternas, pois era quando estavam coaxando mais. Creio que minha paixão pelas luzes veio daí: lampiões, lanternas e olhos arregalados de anfíbios.

Hoje, noto que não preciso mais ir até Paris para conhecer uma cidade de luzes, pois minha querida São Paulo cresce com elegância e mostra, sim, que tem sua iluminação própria (nos sentidos literal e figurado). Não importa o dia e a hora, sempre veremos esses edifícios lindos e iluminados. E fico feliz em saber que ali, no 17º andar, na quinta janela da esquerda para a direita, meu filho está trabalhando com empenho e dedicação, sendo um dos milhares de responsáveis pelo brilho que me brilha a vista.

Às vezes ele trabalha de domingo, e na semana fica até tarde no escritório. Por vezes, madrugada adentro. Ele é bastante dedicado, mas claro que nada é um mar de rosas. Há bastante estresse, discussões intensas com chefes e subordinados, mas meu filhão tem crescido na empresa, pois entrega resultados expressivos e importantes.

Eu? Sou apenas um alfaiate aposentado, nunca pisei em um escritório. Compreendo o que ele passa, mas não faço ideia de como deve ser trabalhar num ambiente desses, ainda mais em pleno século 21. Ganho o suficiente com minha aposentadoria, vivo tranquilamente com minha esposa na Zona Oeste e, quando dá, reunimos a família aos domingos. Em algumas ocasiões, meu filho deixa as crianças em casa com minha nora e vai trabalhar no escritório. Ele é dono do próprio horário, diz.


– Alô? Sim, é ele. Da onde falam? Meu Deus! Que horror! Estou indo agora mesmo praí!


Não era isso que eu gostaria de ver. Meu filho, que ficava até tarde no trabalho, foi parar no hospital. Nada de muito grave, mas dizem que ele sofreu um ataque de pânico durante o serviço. Os médicos disseram que foi em decorrência do estresse e afirmaram com muita convicção, dado o tempo que ele passa no escritório.

Agora terá que se afastar por um longo período e passará por perícia médica, apontando se há ou não necessidade de acompanhamento psiquiátrico.


Muita coisa mudou em minha mente. O que antes me atraía, hoje eu abomino. Cada luz acesa nessas gigantes torres do Brooklin me faz pensar em quantas pessoas poderiam estar descansando ou fazendo outras coisas, mas estão trabalhando sem parar, para atingir resultados abstratos de coisas que ninguém sabe para que servem.

Afinal, eu sou alfaiate. Logo, costuro roupas. Mas alguém sabe me responder o que faz e qual a utilidade de um gerente de supply chain e business operations?

Descobri que enquanto as profissões te ajudam a brilhar, os cargos te ajudam a apagar.

As trevas da iluminação cosmopolita (Reprodução Wikipedia/Emilio Garcia/Flickr)