1,99 — Um supermercado que vende palavras

PAGUE PARA VIVER, VIVA PARA PAGAR

o supermercado como ícone da opressão


Meia-noite. Hoje vou dormir com fome. Fiz uma visita ao supermercado, mas acabei comprando nada. Mesmo com os dedos cortados, quase sangrando pelo peso incômodo de sacolas cheias, eu continuaria vazio. Porque me sentir vazio foi o que me ensinaram a vida inteira: siga a regra, respeite a ordem e aceite a opressão. Anule-se nesta sequência suicida.

Minha última — e derradeira — visita à grande loja de departamentos alimentícios não durou mais que uma cesta ansiosa na mão e uma conferida breve na segunda página do jornal impresso. “Radares voltam na segunda que vem em Joinville“. Mal termino de ler a nota quando ouço o som agudo de outro radar: “Moço, não pode ler. Primeiro você tem que comprar.”

Lanço meu olhar em direção àquela voz estridente e, tal como em seu discurso preparado, a mulher de azul se comporta feito robô: segue fielmente a regra que lhe foi imposta; orgulha-se em respeitar a ordem por um bem maior; aceita, valida e reproduz, assim, a opressão de seus superiores vestidos de branco. Numa fala firme, automática, sem expressão.

Seu uniforme de cor gritante denuncia a nada sutil diferença hierárquica no conjunto de responsabilidades pelo controle das normas daquele espaço. Assim como ela, há outra voz vinda dos céus do supermercado anunciando que “não se deve consumir nada enquanto estiver no supermercado”. Higiene? Etiqueta? Disciplina? Não! “Primeiro você tem que comprar.”

Sem questionarem, a mulher e o homem na locução defendem normas fixadas por aqueles superiores de branco. E estes, ao estabelecerem qualquer regra, garantem uma falsa ilusão de poder aos seus inferiores, que motivados pela responsabilidade acabam por acatar à opressão. Aceitam, validam, reproduzem a opressão. Firmes, automáticos, sem expressão.

Indignado pela ousadia do episódio, resolvo me prostrar em frente a ela para escancarar a verdade: “Eu entendo que você esteja seguindo uma regra, entendo que você deve garantir que a ordem seja respeitada, mas assim como você está me oprimindo, você também está sendo oprimida.” Constrangida, ela não se permite nem mesmo fingir que me ouve.

Entenda-se de uma vez por todas: não existe liberdade dentro do sistema. Este conceito é uma grande e espetacular invenção, pois para fazer sentido ele prevê a ausência da própria liberdade. Decepcionado com essa realidade, largo o jornal sobre o açúcar em promoção, devolvo a cesta à pilha, cumprimento a mulher de azul e vou embora. Para nunca mais voltar.

Um oferecimento: Supermercado Angeloni.

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