Enquanto isso, no lustre do castelo…

COMO FALAR DE COISAS QUE NÃO EXISTEM?

um dia das crianças no castelo rá-tim-bum


Como falar das coisas que não existem? Essa era o tema da 31ª Bienal de Arte de São Paulo, em 2014. A concepção das exposições costuma pôr em discussão questões filosóficas. Nosso ônibus, lotado de gente de todo tipo, havia passado o sábado no Ibirapuera. Eu, como de costume, fui sem qualquer expectativa.

Não sou do tipo que lê sinopses de livros, filmes e peças de teatro. Gosto de ser pego de surpresa, sabe? Dessa vez, isso se estendeu aos meus 40 amigos que também viajam a São Paulo, a cada dois anos, para o espetáculo sócio-cultural-artístico-político internacional que é a Bienal. Racismo, machismo, homofobia, preconceito de classe, e todas essas “coisas que não existem”, flutuavam no espaço de um dos pavilhões de arte mais importantes da América Latina. A cada instalação, performance, grafitti, obra, crítica, violência, um respiro engasgado.

Identidade da 31ª Bienal de Arte de São Paulo

Acontece que, particularmente, meu maior entusiasmo por estar em São Paulo naquele fim de semana vinha mais da expectativa de visitar outra exposição: o Castelo Rá-Tim-Bum, no Museu da Imagem e do Som. Era domingo, 12 de outubro, pleno Dia das Crianças, e essa seria minha a última oportunidade de perguntar ao porteiro qual a senha do dia para entrar no Castelo (o que de fato, só aconteceu no meu ❤, mas já valeu!).

‘a fila virou uma competição de resistência no melhor estilo ~audições do X Factor Brasil~’

Saímos do hostel, já atrasados, em direção ao MIS. Quando chegamos lá, o sol já estava a pino, e as filas contornavam esquinas. Aqueles 40 amigos do ônibus se transformaram em 9 cúmplices que não imaginavam que rumo tomaria aquele dia. Resumidamente: a fila virou uma competição de resistência no melhor estilo ~audições do X Factor Brasil~. Por algum motivo divino, os 9 guerreiros do castelo receberam as ÚLTIMAS 9 SENHAS para a compra dos ingressos. Quem chegasse depois da gente nem adiantaria esperar na fila (a não ser que algumas pessoas desistissem, é claro).

O bilhete dourado.

Eram 9h da manhã quando chegamos à fila. Às 13h estávamos comprando os ingressos para visita, que estava programada para às 19h. Pequeno problema: nosso ônibus partiria de volta a Joinville às 16h. Desespero? Sim, obrigada. Foi quando eu vislumbrei uma estratégia estrategicamente estratégica: reuni os 9 missionários.

A maquete original usada na produção da vinheta mais apaixonante da nossa infância ❤

A missão: evangelizar as pessoas da fila. O discurso: “somos de Joinville, nosso ingresso é para às 19h, partimos às 16h, OU SEJA, nunca mais teremos essa oportunidade na vida”. A sugestão: “troca de ingresso comigo? Você mora aqui em São Paulo, pode vir a qualquer hora. Dê um rolê.” E assim, em três trios, fomos contornando a fila com amor da cabeça aos pés.

Foi porque você me ensinou a ler, gato, que hoje eu leio as coisas do mundo.

Havia quem não nos olhasse. Havia quem não se importasse. Quem não nos deixava falar. E houve choro, muito choro. Choro meu, como bom virginiano, pelo desgaste, pelo medo de não conseguir, pela ansiedade de atravessar aquela parede. Mas houve quem ouviu, houve quem compreendeu, houve até quem nos abraçou. E houve 9 amigos entrando no Castelo.

Léo e Jean no xadrez.

Ali, na fila da entrada, eu continuava chorando. Mas agora era um choro diferente.

Chorei ao ser recebido pelo porteiro.

Chorei ao dar de cara com o relógio.

Chorei ao ler o storyboard dos filmes do ratinho.

Tchau, preguiça! Tchau, sujeira!

Chorei ao ver os rascunhos da criação do Bongô.

Chorei ao encontrar o Gato Pintado na biblioteca.

Chorei no quarto do Nino com quadrinhos nas paredes.

Um dia terei um quarto assim.

Chorei ao ver de perto os ovos do João de Barro e as Patativas.

Chorei ao fazer mágica no caldeirão da Morgana e voar em sua vassoura.

Chorei ao encontrar o Etevaldo e lembrar dele brincando nas estrelas.

Thaís, Nathália, Jéssica e Isadora [escurecimento proposital].

Chorei ao ver Pedro, Zeca e Biba novamente reunidos.

Chorei ao passar pelo Mau e o Godofredo nos encanamentos do castelo.

Chorei ao ao topar com o lustre do castelo e ao tocar a pianola.

Fabi tocando a pianola.

Chorei no laboratório do Tíbio e do Perônio.

Chorei ao entrar no quarto da Morgana e encontrar a Adelaide.

Chorei ao abraçar a árvore da celeste, toda prosa.

Tinha uma aviso de ~dont-touch-its-art~ BUT WHO CARES

E sempre que lembro daquele domingo, ainda choro.

Pat e eu no sofá e na sala mais queridos pelas crianças nos anos 90 *-*

Até hoje, assim como na Bienal, eu ainda não consigo dar nome às coisas que eu senti ao lembrar toda a minha infância resumida em uma tarde no MIS.

Um oferecimento: Escola de Escrita.

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