Tenho idade o suficiente para jogar Pokemon GO ou — como a sua referência de infância não é melhor que a minha

Desde o lançamento de Pokémon GO, estou tendo que explicar para as pessoas o motivo de eu estar jogando o joguinho. O espanto de quem está ao meu redor (amigos, professores colegas trabalho e até alunos) é enorme quando me veem compartilhando algo referente a um pokémon capturado ou sobre algum texto no qual tento rebater as criticas de uma onda “tecnofóbica” levantada por Pokemon GO.

A pedrada vem de todo lado, do que diz que falta lote pra carpir, do que diz que é coisa de imbecil ou retardado e que essa marmanjada não tem mais idade para isso. Então, resolvi ressuscitar esta bodega aqui e explicar um pouco do motivo deste jogo de realidade aumentada me atrair tanto. Porém, para englobar tudo, acho que preciso dividir o assunto em vários.

Desde já afirmo que isso não é uma declaração de guerra e, muito menos, uma tentativa de fazer você, nobre colega que está cagando para os monstrinhos de bolso a tornar-se fã e tatuar um Pikachu. Mas vamos começar a nossa jornada.

Ponto 1 — “Minha referência é melhor que a sua”

Tenho 28 anos. Pokémon foi ícone da minha infância. Talvez, não seja um ícone tão legal quanto os de muitos. Até porque né, ~legal mesmo foi ser criança nos anos 80~, e não nos anos 90. Era bem mais true. As referências eram mais legais. Falar de Ducktails, Comandos em Ação, He-man, Tartarugas Ninjas tem muito mais sentido do que falar de Pokémon, não? Esses desenhos acima eram formadores de caráter. Coisa bacana, não os monstrinhos japoneses. Né, não?

A moçada do “porque bom mesmo era no meu tempo…” talvez não vá entender isso, mas eu era tinha 11/12 anos quando Pokémon estrou na TV. A franquia, hoje, completa 20 anos, e começou, na verdade, com os jogos de Game Boy. Um universo habitado por monstrinhos, nos quais aventureiros os capturam, criam e batalham. O jogo era um RPG de turno muito maneiro e a história rendeu um desenho (anime, na verdade) que pasmem, dura até hoje! Então, na época ficava vidrado na TV para ver Ash, Pikachu e suas aventuras. Normal, para quem se tem 11 anos. Mas o mais legal não é isso, o mais legal é que nesse tempo eu começava a descobrir a internet (junto com a galera que tinha a sorte de ter um computador nessa época).

Pokémon foi primeiro conteúdo que consumi na internet

Sim, o primeiro conteúdo que consumi na internet foi Pokémon. Eu pesquisava sobre. Imprimia a lista de 150 bichinhos e ticava-os cada vez que os via no desenho. Eu conversava com pessoas da minha idade num comunicador do UOL chamado “Com Vc” ou um pouco mais velhas que mantinham sites (feitos em Microsoft Front Page, hospedados no Geosites, com domínios cjb.net), ia pra um Bate Papo temática que tinha no zip.net e simulava batalhas Pokemon, no chat mesmo, em linha de texto. Fora todo o resto, revistas Pokémon Club, miniaturas, cartinhas que vinham no salgadinho, tazos e um monte de outras coisas. Eu era fã e me comportava como tal.

O primeiro longa estreou no cinema, no Brasil, no dia 7 de janeiro de 2000. Uma semana antes do meu aniversário de 12 anos. Obviamente, naquele ano eu não queria presente algum, a não ser assistir ao filme no cinema, torcendo para que, uma semana depois do lançamento, ainda restasse o card promocional do Pikachu que quem comprava o ingresso, ganhava.

O tempo passou um pouco. O desenho já não era mais tão atraente, porque ele sim, concordo, é bem infantil, caricato, repetitivo. Mas continuei jogando os jogos. O detalhe é que eu nunca tive Game Boy, o console em que os jogos rodavam, por isso eu apelava para os emuladores. Passava dias (noites, na verdade… pulso único, só dava pra acessar internet discadona depois das 0h) procurando os roms dos jogos. O bacana é que nem sempre o rom funcionava, quase sempre você ferrava seu computador inteiro de vírus no processo e, quando você achava o jogo que funcionava ele tava em japonês, coreano, inglês… ou as vezes uma mistura de tudo isso.

Joguei todos :)

Jogo Pokémon até hoje. A Gabie, minha esposa (que é mais fã de Pokémon que eu), tem um Nintendo 3DS (do qual, desde que ela comprou tiro sarro, por ser um “mini-game”, mas usufruo dele dos mesmo jeito). Sou um jogador que se contenta com fechar a história do jogo, ganhar da elite e de boa. A Gabie não. A Gabie faz todos os eventos, choca mil ovos pra achar o pokémon brilhante.. enfim, somos dois fanáticos pelos monstrinhos.

Tá e daí?

E daí que este troço é algo que me traz uma memória afetiva fudida. E convenhamos, há uma grande diferença de você interagir com um personagem que tanto gosta usando um emulador fuleiro, em uma telinha, com uma tecnologia limitada do que, hoje, estar passeando e capufit, aparecer um Weedle no seu prato de comida. Só por isso, o troço já é fantástico.

Ai a gente entre na pira de que o real público do Pokemon GO é realmente os marmanjos. Sou eu, é minha esposa. É essa moçada que viveu isso. Chorou vendo Adeus Pikachu, fuçou os 4 cantos da internet para achar os episódios proibidos da primeira temporada de Pokemon, num tempo que não tinha YouTube, Orkut, Netflix. Em que tudo isso aqui era mato. Essa porra é pra mim. E não, meu amigo, você não vai dizer o contrário.

Mas a minha referência é melhor que a sua…

Ai a gente entra numa espiral bizarra em que, recentemente, vimos vários ícones de gerações anteriores serem relançados ou homenageador e fazerem com que muitos enlouquecessem. Como foi legal ver os verdadeiros fãs de Star Wars, aqueles que eram crianças/adolescentes, quando a trilogia clássica foi lançada, reviver suas memórias com a continuação da saga histórica em o O Despertar da Força. Marmanjos chorando copiosamente, com fio na espinha ao rever os personagens do seu tempo.

Velhos de mais para isso…

Ou, mais recente ainda, trocar uma ideia com pessoal que era guri em 1984, depois de ver Stranger Things e, ouvir deles suas lembranças e relatos em que as músicas, as brincadeiras, as coisas que os personagens faziam, eram feitas por eles. Em ver que quem consumia E.T, Goonies, Conta Comigo, via tudo isso ser ativado em sua memória, com um simples seriado.

O discurso do anti-Pokemon GO, soa como aquele estrava prazeres que vai dizer que você não deve gastar seu dinheiro num show da sua banda preferida.

Então, nesse ponto a gente lembra que se o produto que é relançado causa frenesi tem uma “importância maior”, é natural ver a marmanjada participando, certo? Pois então. É a mesma coisa. Juro pra você. A diferença é que agora o produto revivido talvez não converse com você, mas ele não é melhor e nem pior que outras coisas.

Pessoalmente, sou o maior “alimentador de piras” de quem é fã de alguma coisa. Juro! Sem julgamentos. O que importa é que as pessoas contemplem a felicidade que as coisas trazem. Pode ser viajar, pode ser ver jogo de futebol, pode ser ir a um show, pode ser carregar latão num esporte novo que inventaram, pode ser o que você quiser. A vida é muito curta pra gente ficar julgando o lazer do coleguinha.

Ponto 2 — Tecnofobia seletiva e como estamos dependentes da tecnologia.

Ai a gente entra no segundo ponto que gerou discussão. O que o jogo vicia, faz com que as pessoas usem mais o celular e passem mais tempo dependentes das telas.

Esse é o argumento mais estranho de todos que me fizeram perder as estribeiras. Vamos lá: vivemos uma sociedade hiperconectada. Isso não é novidade para ninguém. Usamos cada vez mais dispositivos, telas, redes sociais e etc. Mas juro que isso já era ponto vencido por todos, até porque não vejo muita resistência ao fato. E assim, as pessoas tentando utilizar de um jeito produtivo, benéfico para todo mundo.

Vai lá, me diz que você não tira o celular do bolso na fila do caixa do supermercado? Que você não joga Candy Crush? Que você solteiro (ou até os que não são) não se deliciam procurando um crush no Tinder? Que você não achou mara ter Uber pra voltar da balada mais barato que o Táxi? Que ninguém precisa decorar o número da mãe e só colocar na agendinha do celular? Então…é a mesma porra.

Antes dos celulares, as pessoas interagiam.

Só que, veja só, diferente. Do contrário, Pokemon GO não é feito pra jogar sozinho. Mas sim em galera. Tem pontos de encontro em que todos os playeres vão. Tem equipes pré-definidas. Tem itens que você usa e beneficia outros jogadores. E tem um ponto superimportante: ele acontece lá fora.

Isso, não é aqui nesse escritório em que escrevo esse texto, é lá na rua. Na rua. Esse jogo, diferente de outros, não convida o usuário a passar horas em frente da tela, comendo salgadinho e se entupindo de refrigerante. Esse jogo faz com que o puto ande para caralhos para encontrar pokemons, itens, chocar ovos. E no meio disso, pasmem! As pessoas podem até se conhecer, conversar. Veja só!

Sou um cara de 28 anos, sedentário. Que paga para não andar. Que desde que mora em lugar relativamente perto de tudo, só anda de Táxi/Uber (não ando nem pra ir até o ponto de ônibus). Que se arrasta pelos 400 metros que separam a lugar em que mora do lugar em que trabalha. Sabe o que eu fiz ontem e hoje? Sai 15 minutos antes e transformei esses 400 metros em 1,5km, percorrendo o seis pokestops de têm no caminho. Sim, eu alonguei meu caminho em três vezes para passar em seis pontos, num espaço de 3 quadras. Em todos os pontos encontrei pessoas fazendo a mesma coisa que eu, coletando itens, brincando, interagindo.

Mas tem gente que…

Sim, tem gente que já invadiu propriedade alheia, ala de hospital, joga Pokémon e dirige, que quase foi atropelado, que achou um cadáver jogando Pokémon.

Mas vamos lá, não tem gente que usa o Whatsapp enquanto dirige? O problema é o Whatsapp? Não né?

Sem noção tem em todo lugar. Em vez da gente ficar de #mimimi de “essa bosta” poderíamos tentar educar marmanjos e crianças que vai sair na rua pra jogar Pokémon de eles não fazerem cagada, certo? Educar quem tá brincando com troço para que eles usem o bom senso e não façam nada em que os coloquem em risco ou, pior, coloquem outros. Avisar, principalmente pra criançada, que os PokeStops podem até ser alvos fáceis de roubos ou coisa pior. Então, quem embarcar nessa, tem que ficar de olho em tudo ao redor.

Desocupados

E ai uma coisa que ofendeu mesmo. Veio um turba dizer que tá faltando louça, lote pra carpir, que tá sobrando tempo. E ai vem a pergunta. Serião, amigo? Vou dizer uma coisa. A louça tá em dia, os boleto tudo pago (se quiser contribuir com os do mês que vem, passo agência e conta para depósito) e veja só, ponto batido! Então, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não é porque amiguinho agora tá ligando o app enquanto caminha pra ir trabalhar, pra ir almoçar, que ele tá negligenciando suas obrigações. Dá pra fazer uma caralhada de coisas durante o dia, acho que a gente não precisa ou fazer uma, ou fazer outra, não é mesmo?

Tá tudo carpido, amigão!

Pode falar mal.

Sei que talvez as criticas nem sejam tão contundentes assim. Sei pode ser que seja só reflexo da vontade de ter opinião pra tudo que as redes sociais trazem. Mas o que me preocupa é o argumento da crítica. Seja no não entendimento da referência ou da tecnofobia seletiva, acho que todos estão sendo simplistas de mais e, no fundo, estão transparecendo essa coisa ruim de ser um estraga prazeres. Vamos dar um tempo para ver o que acontece e deixar que moçada seja feliz, para dai tirarmos conclusões mais aprofundadas.

Por enquanto, vou lá ver consigo chocar um ovo de 5km em quanto vou para uma consulta médica.