1896

Estava correndo o máximo que podia e não perdia tempo olhando para trás, em seu íntimo tinha certeza de que conseguiria fugir. Ao longo de seus sete anos de vida nunca havia perdido no pega-pega e aquele homem já era velho, certamente se cansaria antes dele.

Enquanto corria, pensava na mãe lhe dizendo para nunca se aproximar de desconhecidos. Que alguns adultos poderiam ser muito malvados com crianças, mas ela nunca tinha avisado que esses adultos podiam também ser muito espertos.

O céu começava a escurecer na pequena cidade de Linz quando a mãe lhe pediu para devolver à vizinha um vestido emprestado no final de semana anterior. A casa da mulher ficava a aproximadamente quinze minutos de caminhada se fizesse o caminho tradicional, contornando os quatro quarteirões, ou uns 10 minutos se cortasse caminho pelo meio dos terrenos baldios que, naquela região, apareciam em número muito maior do que os com casas.

Embora odiasse passar entre o mato e sempre tivesse medo do aparecimento de algum bicho, escolheu a opção mais rápida para poder voltar o quanto antes e ajudar a mãe no preparo do jantar, uma das atividades que mais gostava de fazer com ela. Sempre cantavam e dançavam juntos enquanto as panelas esquentavam e seus pezinhos já estavam ficando treinados. Mamãe dizia que ele seria um excelente pé-de-valsa, disputado pelas meninas quando tivesse idade.

Agora, a escolha do caminho mais rápido lhe parecia o maior erro da vida. Já estava voltando para casa, no meio de um dos terrenos, quando ouviu um homem chama-lo pelo nome.

O homem estava sentado no meio do mato alto.

- O senhor me chamou?

- Sim, me ajude aqui, filho, acho que torci o pé e não consigo me levantar.

- Ah…

- Você é o filho da Klara, não é?

E nesse momento o homem ganhou a confiança do menino. Com certeza alguém que sabia o seu nome e o de sua mãe era alguém legal, talvez fosse algum amigo dela da igreja.

Já estava perto o suficiente para tocar o homem quando percebeu que, com a mão escondida pelo mato, este segurava uma faca enorme, parecida com uma foice. E foi aí que começou a correr.

O homem se levantou com um pulo extremamente ágil e desatou a correr atrás do menino. Estava há dias espionando e se perdesse aquela chance, certamente teria que desistir daquele e partir para o próximo, e odiava aquela ideia.

Talvez por inocência infantil, talvez pelo nervosismo, talvez por um simples acaso do destino, o menino acabou correndo no sentido contrário ao da sua casa, para o lado em que só existiam mais terrenos. Nenhuma casa onde alguém pudesse vê-lo fugindo.

O choro durante a corrida foi o fator decisivo para que o seu destino fosse selado. Causou a respiração descompassada, que causou a dor lateral, que causou a diminuição no ritmo das passadas.

Quando percebeu que o homem já estava muito perto, desistiu de correr e resolveu implorar.

Se atirou ao chão e, com as calças molhadas, começou a falar em meio às lágrimas.

- Moço, por favor, não faz nada comigo, não me machuca.

Tudo foi em vão e, para garantir, o homem usava tampões nos ouvidos. Não suportava ouvir a suplica dos garotos.

O corpo do menino decapitado foi encontrado no mesmo dia e enterrado em uma cova simples, identificada apenas por uma pequena tábua que trazia seu nome e os anos de seu nascimento e morte.

O assassino nunca foi encontrado para responder pelo crime.

Após fugir, o homem abriu a porta que dava na sala de sua casa, ainda suado e trêmulo pela emoção do momento e, sem nem mesmo parar para pensar, partiu para a próxima parte. Queria finalizar seu projeto de uma vez, sem interrupções e sem entender a consequência de cada atitude. Quando tudo acabasse, daria fim a própria vida e destruiria todas as provas, ninguém jamais saberia.

Pegou o caderno em cima da mesa, riscou o nome antes circulado de Adolf Hitler, correu os olhos pelos nomes já riscados de Mussolini, Mao Tsé Tung e Pinochet, e fez um novo círculo, dessa vez em torno do nome de Saddam Husseim. No painel ao lado da porta digitou “1940” e partiu para a nova viagem.