Carne

Enfim, trabalho terminado.

É triste apagar as luzes do lugar que foi o segundo lar durante os últimos 15 anos, mas os tempos estão difíceis e essas coisas acontecem… ainda mais com um frigorífico.

Em tempos assim as pessoas sempre reduzem o consumo de carnes, e ainda tem essas gigantes tomando o espaço dos pequenos, quebrando-os.

Mas vida que segue, não é hora de ressentimentos, já que ao menos decidiram pelo fechamento antes da falência total e até já lhe pagaram seus direitos.

Em seu último dia, fez questão de sair por último. Enquanto todos se despediam, arrumava desculpas para ficar mais pouco, uma máquina ligada, um documento para pegar; o importante era ter um tempo sozinho para caminhar, observar e contemplar pela última vez cada pedaço do enorme galpão e suas máquinas.

Também aproveitou o tempo para pensar nas possibilidades futuras.

Com toda aquela estrutura, provavelmente o espaço seria vendido muito rapidamente, e provavelmente para uma dessas gigantes, quem sabe até haveria espaço para um retorno.

Bom, chegou a hora de definitivamente ir. Pegou os dois quilos de carne que ironicamente precisou comprar depois de muito tempo, foi apagando as luzes e caminhando em direção à saída. Na última sala caminhou até o interruptor que abria a porta e o apertou com lágrimas nos olhos esperando o barulho característico da trava se abrindo, mas só ouviu o silêncio.

Tentou o interruptor mais duas vezes e nada, nenhum barulho. Era hora de procurar pela chave, mas não tinha ideia de onde.

Foi vasculhando os armários e gavetas do escritório, mas só encontrou o vazio. Nunca haviam usado a chave na porta que sempre era aberta por quem estava no escritório, do lado de dentro.

Depois de aproximadamente uma hora de busca desistiu, provavelmente nem existe mais uma chave, e se existir alguém deve tê-la levado embora.

Sentou em uma das cadeiras e começou a pensar nas possibilidades. Ligar para alguém e pedir ajuda estava fora de cogitação, já que as linhas telefônicas foram cortadas há tempos e o celular, além de sem bateria, nunca funcionou naquela enorme caixa de metal.

Acionar o alarme parecia desesperado demais, até um pouco infantil, então logo descartou a opção e continuou pensando. Tentar dar uma de herói e derrubar ou arrombar a porta também não daria certo nunca, principalmente com ela se abrindo para dentro, com aquela tranca mais do que reforçada e ele um homem de 1,55m e 48kg.

Poderia apenas esperar que sentissem a sua falta e viessem procurá-lo, mas quem seria essa pessoa? A ex-mulher com certeza não, e os filhos de férias não iriam procurá-lo em menos de dois meses. Com certeza também não tinha qualquer pessoa que pudesse chamar de amigo e que se importaria com o seu sumiço.

Depois de mais duas horas de pensamentos, a ideia do alarme já não parecia mais tão absurda. Respirou fundo, caminhou até o botão e o apertou já pensando no barulho ensurdecedor e nas pessoas rindo dele. Mais uma vez, silêncio total e agora acompanhado da escuridão que surgiu poucos segundos depois.

Nesse momento soube o que havia ocorrido, haviam desligado alguns disjuntores, inclusive os que controlavam a porta e o alarme, e deviam ter programado o gerador para desligar todos os outros pontos de energia e não correrem o risco de ainda terem uma conta para pagarem.

Então era isso, nada a fazer além de esperar até que, provavelmente só no dia seguinte, alguém se lembraria de algo deixado para trás ou os próprios donos voltariam para mostrar as máquinas e o imóvel a alguém, se é que a grande lata pode ser chamada de imóvel.

Tateou até encontrar o sofá que já recebeu tantos clientes e fornecedores, se deitou e ficou pensando nas alegrias e tristezas que aquele lugar já havia lhe trazido até cair no sono.

Acordou desorientado depois de algum tempo e demorou até entender onde estava. Quando compreendeu tentou pensar por quanto tempo havia dormido, mas era impossível saber.

Ficou sentado, ouvindo o estômago roncar, até a visão se habituar à escuridão e ser capaz de enxergar ao menos os contornos.

Enquanto isso, pensava ainda que precisava comer e beber água urgentemente. Sobre comer, podia esperar, já que a qualquer momento alguém apareceria e tudo estaria resolvido, além do que havia a carne que estava levando embora, apesar da ideia de comer carne crua passar muito longe de algo que desejasse fazer, seria sempre uma opção. Sobre a sede, isso sim era um problema, essa incomodava demais e nem tentaria os filtros, já que todos dependiam da eletricidade para funcionar. Logo, esperaria mais.

As horas continuaram passando, a fome e a sede aumentando, e nada de alguém aparecer. Resolveu quebrar um dos filtros da parede com uma pancada de cadeira, pelo menos um dos problemas estaria resolvido. Após a pancada só foi possível ouvir um sonoro “PUTA QUE PARIU” que foi dito ao perceber que a água também já havia sido cortada.

Então era isso, achou melhor voltar para o sofá e ficar por lá esperando e, pela primeira vez em muito tempo, chorando de verdade, chorando de medo, de desespero e até mesmo de incredulidade por aquela situação ridícula.

Quando seu relógio biológico começou a dizer-lhe que a noite estava chegando, decidiu começar a abrir mão da dignidade; a urina que havia segurado durante todo o dia foi despejada em um porta-trecos que encontrou sobre a mesa e, após um longo suspiro e mais algumas lágrimas, bebeu em um gole só. Sentiu uma vontade enorme de vomitar, mas segurou com toda a força que pôde, já que isso seria um enorme desperdício.

Com o fim da náusea era hora do próximo sacrifício. Abriu a sacola de carne, deu um novo suspiro e pegou com as mãos aquilo que não teve a oportunidade de se transformar em picadinho. Enfiou o pedaço enorme na boca e o rasgou com os dentes, mastigando e sentindo o sangue que escorria dos lábios e pela garganta. Não conseguiu conter o riso histérico ao lembrar que o prato preferido era steak tartare. Ainda assim agradeceu a Deus por ter o que comer enquanto a espera sem hora para acabar continuava.

Algum tempo após a refeição, se é que se podia chamar aquilo de refeição, deitou-se novamente no sofá e esperou até que o sono o levasse para o mundo maravilhoso dos sonhos.

O segundo dia foi muito pior. Mal conseguiu parar de chorar enquanto andava desesperado pelo espaço buscando por alternativas e chorou mais ainda quando se viu lambendo as lágrimas que escorriam em busca de algum conforto para a sede.

Pensou que, certamente, Deus estava tentando mostrar-lhe algo como a importância de se valorizar as pequenas coisas ou qualquer outra lição que ainda não havia percebido, mas ainda assim foi grato mais uma vez pela carne que o alimentava, pela temperatura agradável que o ambiente proporcionava e pela certeza de que a qualquer momento a porta se abriria.

O restante ocorreu como no dia anterior, a urina, a carne e o sofá como cama.

No terceiro dia começou a pensar que talvez a estadia fosse ainda maior e que era hora de começar a racionar o alimento e até mesmo a urina, que vinha a cada momento diminuindo de volume.

No quarto dia, ao abrir a sacola se deu conta de como havia sido estúpido por não pensar na coisa mais óbvia, a carne estragaria sem refrigeração. E a verdade é que ele já devia estar comendo carne estragada há algum tempo, apenas não havia se dado conta disso ainda, e pensando bem, que diferença faria ter se dado conta antes? Não havia nada para ser feito.

A decisão agora seria sobre comer ou não a carne naquele estado. Após pesar os prós e os contras achou que a melhor resposta era o não. A última coisa de que precisava era uma infecção intestinal ou algo do gênero. Amarrou a sacola e a levou para o outro lado da grande lata, o mais longe que pode.

Decidiu que aquele dia ficaria sem comer, com certeza Deus não iria lhe faltar e a ajuda chegaria em breve, embora a falta da carne lhe desse um grande desânimo, principalmente pelo fato de que o sangue ajudava a saciar a sede.

No 12° dia já se sentia muito fraco e com uma dor perto do insuportável no estômago pela falta de comida. Uma ideia que antes lhe parecia totalmente absurda começa a fazer algum sentido. Apenas um pé, que falta faria? Conseguiria arrumar outro emprego e poderia até caminhar perfeitamente usando uma prótese, já havia visto dezenas de pessoas assim na televisão. A única coisa que lhe causava arrepios era pensar que o único objeto cortante que possuía era o pequeno estilete que havia ficado sobre a mesa e que antes tirou do porta-trecos que se tornou seu penico e seu copo. Com certeza seria uma dor horrível, mas ainda assim muito melhor do que a morte por desnutrição.

Resolveu esperar apenas mais um dia antes de tomar uma atitude mais drástica. Se ninguém aparecesse, o faria amanhã. Usaria o estilete como faca e a blusa como torniquete para não correr o risco de hemorragia.

278 dias depois a notícia de um homem encontrado sem as pernas e um braço, morto dentro de um antigo frigorífico abandonado estava em todos os jornais.

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