Corra!

Acordou com a cabeça doendo e as mãos formigando. Por instinto tentou levantar, mas não conseguiu, percebeu que as mãos e os pés estavam amarrados e então se lembrou.

Era aproximadamente 1h da manhã quando voltava um pouco bêbada da casa da amiga, em uma caminhada que não levaria mais de 15 minutos, quando apagou. Certamente havia sido sequestrada.

O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi a lembrança do pai lhe dizendo para ligar quando fosse embora que ele a buscaria. Há quase um mês o noticiário local falava diariamente de um maníaco que vinha sendo buscado pela polícia da cidade, mas ela não sabia o que ele fazia exatamente com suas vítimas, pois não gostava desse tipo de notícia e sempre mudava de canal quando o assunto era esse. No momento apenas torcia para que não fosse a próxima a descobrir.

Começou a gritar em busca de socorro, mas antes do segundo grito ouviu uma voz metálica, claramente distorcida por algum aparelho, e que não soube identificar de onde vinha. Aparentemente de algum alto-falante impossível de ser visto pela escuridão da sala.

- Sente-se, você consegue.

- Seu filho da puta, me solte!

Nesse momento um forte choque percorreu todo o seu corpo e percebeu que o chão do lugar onde estava era metálico. Gritou pelo susto e pela dor.

- Sente-se.

Rastejou até encontrar uma parede em que pudesse apoiar e sentou.

- Logo do seu lado direito há uma pequena lâmina presa na parede, nela você conseguirá cortar o lacre que amarra as suas mãos e então conseguirá soltar os pés. Cuidado para não acabar cortando o pulso, poderia ser bastante trágico. — Havia um sorriso na voz ao pronunciar a última frase.

Enquanto se arrastava pela parede procurando a lâmina não parava de agradecer. Ao que tudo indicava, o bandido havia desistido e iria soltá-la. Tudo ficaria bem.

Quando enfim conseguiu soltar as mãos e os pés, levantou-se e, pela primeira vez desde que acordara, começou a prestar atenção no ambiente onde estava. Seus olhos já se adaptavam à escuridão.

Era um cômodo grande, sem mobília e sem lâmpadas. Com exceção da parede em que se encontrava, as outras três possuíam fileiras do que parecia ser fios, provavelmente ligados ao piso metálico para dar os choques. Na parede a direita uma janela coberta por tábuas e na da frente a única porta. Fechada.

Depois de algum tempo observando sem ouvir qualquer barulho pensou que era o momento de sair. Encaminhava-se para a porta quando um forte choque atingiu seu pé, obrigando-a a dar um salto acompanhado por um forte grito.

- Maldito!

- Não mandei você se mexer, logo, a culpa é exclusivamente sua.

Um arrepio começou a percorrer a espinha. Não parecia que seria libertada. Aquilo parecia mais alguma imitação sádica de Jogos Mortais.

- Caminhe até a porta na sua frente e abra.

Quando cumpriu a ordem ficou em choque. A passagem estava coberta por entrelaçamentos de arame farpado, o mesmo material que, conforme podia ver agora, revestia as paredes do cômodo.

Tentando controlar o desespero começou a pensar que não sabia quanto tempo havia ficado desacordada. Muito provavelmente seu pai já estaria a sua procura. Rezaria e lutaria com todas as forças para ficar bem até ser encontrada.

Estava perdida em seus pensamentos, parada em frente a porta, quando a voz voltou a surgir.

- Preparada?

Não respondeu.

- Bom, deve estar. Agora, corra!

Uma nova corrente elétrica, absurdamente forte, passou a vir do chão novamente. Começou a correr e pular o máximo que podia dando voltas pelo cômodo.

- Saia, vá!

Enquanto chorava e gritava entendeu que o objetivo era que saísse atravessando o arame. Não aguentando mais as descargas elétricas que recebia se lançou de encontro a ele e foi empurrando com as mãos até conseguir abrir passagem. Quando chegou ao outro lado estava com o corpo todo cortado, principalmente as mãos e o rosto, e sentia o sangue escorrendo.

Tentava recuperar o fôlego quando a voz voltou a surgir.

- Eu disse para correr!

Logo em seguida a voz foi substituída pela música mais alta que já havia ouvido na vida. Uma batida forte, impactante e que veio acompanhada de um jogo de luzes enlouquecedor.

Estava totalmente desorientada.

Movida apenas pelo instinto de sobrevivência, correu o máximo que pode pelo estreito corredor. Batia o corpo a todo momento pelas paredes até que o chão simplesmente lhe faltou. Rolou por uma escada acarpetada que, enquanto amortecia a queda, lhe queimava a pele.

Quando terminou de cair mal podia acreditar que ainda estivesse viva. Ao tentar apoiar-se para ficar de pé o braço falhou com uma dor aguda e a percepção de que estava com uma fratura exposta no cotovelo.

Esforçava-se para levantar e correr em direção ao que parecia ser a porta de saída quando a música parou tão bruscamente que a fez cair sentada.

Quando enfim conseguiu levantar-se olhou para trás por puro reflexo e viu o que já parecia terrível ficar ainda pior. Uma criatura enorme, na verdade, um homem enorme, com um macacão cinza e algo parecido com uma carranca feita de palha cobrindo a cabeça estava parado atrás dela com um machado na mão também coberta por algo que se parecia com uma luva de palha.

Ainda estava petrificada pelo desespero quando, por trás da máscara, a voz surgiu novamente.

- Corra!

A música e as luzes também reapareceram.

Passou a correr pelo que parecia serem vários cômodos de uma casa vazia e de tempos em tempos esbarrava em alguma parede coberta pelo arame, machucando ainda mais o corpo e soltando gritos de dor e pavor.

A última coisa que sentiu foi o seu cabelo sendo puxado e então apagou.

Quando acordou e viu a cortina do seu quarto pensou por um momento que tivesse sido tudo um pesadelo, mas a forte dor no braço trouxe-a novamente para a realidade.

Girou a cabeça e encontrou o pai sentado em uma poltrona ao seu lado.

- Que alegria, você está de volta.

- O que aconteceu? Como voltei para casa?

- Fique calma e logo poderemos conversar com calma, o importante é que você está se recuperando. Vou ligar para o médico e contar a maravilhosa novidade.

Enquanto olhava o pai caminhar em direção a porta um leve sorriso surgiu em seu rosto. Estava segura agora. O pai era da altura daquele psicopata e certamente a protegeria bem de perto de hoje em diante.

- Pai?

- Diga, querida?

- Por favor, prometa que estará por perto para sempre.

- Prometo, meu amor. Se você correr, correrei ainda mais rápido.

O sorriso no rosto dela só se desfez quando o pai se virou e um quase imperceptível tufo de palha caiu da gola de sua camisa.

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