Efeito Mandela

“ O Efeito Mandela é uma teoria que prevê que não há apenas um universo, e sim vários universos paralelos entre si. É baseada em grandes grupos de pessoas, que têm memórias alternativas semelhantes sobre eventos passados. Foi descrito pela primeira vez por Fiona Broome. Broome descreveu sua experiência em uma convenção, onde descobriu que outras pessoas tinham uma memória falsa, semelhante à dela, em que Nelson Mandela havia morrido durante sua prisão na década de 1980. “Eu pensei que Nelson Mandela havia morrido na prisão. Eu me lembrava claramente das notícias de seu funeral, o luto na África do Sul, alguns tumultos nas cidades e o discurso sincero de sua viúva. Aí, descobri que na verdade ele estava vivo.” Conta Broome”. — Retirado do site “Show do Medo”.

Não se conformava com o sumiço dos óculos, tinha plena certeza de que havia deixado sobre a cômoda.

Por via das dúvidas, ainda procurou por toda a casa, em todos os lugares possíveis e impossíveis e nada. Ligou para a mãe perguntando se, por acaso, não havia esquecido na casa dela quando jantou lá, na última noite.

Não havia. Não encontrou.

Saiu para o trabalho inconformado com o item perdido, mas acabou esquecendo o contratempo antes de chegar na esquina

No final do dia, quando chegou novamente em casa, foi tomado por um misto de raiva e susto ao entrar no quarto e ver os óculos lá, sobre a cômoda, exatamente onde tinha certeza de que havia deixado, mas não encontrou pela manhã. Ficou mais irritado ainda ao pensar que morava sozinho e sequer poderia culpar alguém.

Continuou em sua rotina noturna, mas sem conseguir esquecer o ocorrido. Não parava de pensar sobre todas as vezes em que aquilo havia acontecido: perdia um objeto que tinha certeza estar em um lugar determinado e, pouco tempo depois, o encontrava lá, como se nada tivesse acontecido.

Pensou também em todas as vezes que ouviu amigos e familiares comentarem sobre acontecimentos semelhantes e decidiu que precisava pensar mais no assunto.

Tentou se convencer de que deveria pesquisar a respeito no dia seguinte, mas não havia como, não conseguiria dormir se não entendesse aquilo imediatamente.

Abriu o computador sem ter ideia do que procurava e começou a fazer pesquisas aleatórias dentro do que conseguia imaginar, até que lhe veio à cabeça a busca mais óbvia:

- Coisas sumidas que aparecem

Ficou impressionado com o tanto de material que existia sobre o assunto, mas teve a atenção atraída por dois links, um levava a um fórum em que diversas pessoas contavam suas histórias de coisas que sumiram e reapareceram misteriosamente.

O outro levava para um artigo sobre um tal “Efeito Mandela” que nunca tinha ouvido falar.

A semelhança era que ambos materiais tratavam do mesmo tema, mas apenas com contextualizações diferentes: a existência de um mundo paralelo.

Era incrível a quantidade de pessoas que tinham experiências sobre o assunto e o quanto acreditavam na existência desse mundo paralelo.

Mais incrível ainda era como essa teoria explicava muita coisa.

Ficou fascinado pelo assunto.

Pesquisava dia e noite, lia matérias e mais matérias, blogs, fóruns, discutia com os amigos, precisava provar que o Efeito Mandela existia. Que um mundo paralelo existia.

Começou a “esquecer” coisas espalhadas por toda a casa, na esperança que alguma delas desaparecesse para reaparecer depois, nada mais tinha um lugar fixo.

Depois da frustração de uma semana de observação intensa sem “perder” nada, obteve o sinal que esperava. Na verdade, muito maior do que esperava.

Chegava do trabalho e estava passando em frente a porta do quarto, indo para o banheiro, quando, com a visão periférica, percebeu que a cômoda não estava lá.

Como estava em movimento, demorou uma fração de segundo para notar o que havia ocorrido, tempo suficiente para já ter ultrapassado a linha da porta e precisar dar um novo passo para trás e se deparar com a cômoda onde sempre esteve.

Era isso!

A cômoda havia se perdido por alguns segundos no mundo paralelo.

Ficou eufórico, precisava compartilhar aquilo com todos.

Correu para pegar o celular na mochila, mas se deteve no meio do caminho se perguntando quem acreditaria nele.

Poderia contar para quem fosse, todos achariam que estava mentindo ou apenas que havia se confundido, não seria a primeira vez que alguém fora enganado pela visão periférica. Ele mesmo duvidava que acreditaria se alguém lhe contasse a mesma coisa.

Precisava de provas irrefutáveis. Na verdade, queria ele mesmo ir para lá. Visitar um lugar assim, ir e voltar, se locomover pelo outro lado e, quando voltasse, estar em um lugar diferente. Precisava disso.

Começou a pensar em como se daria essa transição e em como poderia estimulá-la.

A maior evidência que tinha era sobre o local da possível passagem para o outro lado, sua cômoda.

As duas vezes em que o sumiço e o reaparecimento haviam acontecido (pelo menos as duas últimas), a cômoda estava envolvida.

A estratégia então era focar no móvel até conseguir comprovar os fatos.

Tomou um banho, jantou, pegou alguns suprimentos para se preparar (água e bolachas) e sentou no chão, na frente da cômoda.

Menos de vinte minutos depois percebeu que aquele plano era ridículo, a cômoda não sumiria na frente dele e, se sumisse, continuaria sem provas.

Levantou-se e foi preparar uma “estrutura mais adequada”.

Lembrou-se do tripé que estava há anos entulhado em cima do guarda-roupas, encaixou nele o celular com a câmera filmando e o cabo da tomada conectado, e colocou sobre a cômoda um clipe de papel, que escolheu por imaginar que a transição entre os mundos deveria ocorrer com maior frequência em objetos pequenos.

Desta vez sentou-se sobre a cama para conseguir visualizar o clipe e começou a observar novamente.

Dois minutos depois pensou que, em algum momento, precisaria sair para ir ao banheiro ou pegar algo. Então, voltaria e veria no vídeo do celular se algo aconteceu, mas correria o risco de, justamente neste momento, acontecer algo que não visse e não conseguisse registrar. Começou então a revirar a casa em busca de um celular antigo que não se lembrava de ter descartado quando comprou o novo.

Quando se deu conta e olhou no relógio, já passava das quatro horas da manhã. Com certeza o mundo paralelo havia levado o aparelho antigo, até para impedir que conseguisse fazer o registro.

Pegou a chave do carro e saiu de casa já com um destino certo, o hipermercado 24 horas que existia próximo à sua casa.

Ao chegar, foi direto para a sessão de eletrônicos e procurou o celular mais barato que possuísse uma câmera razoavelmente boa. Parou para pensar sobre o fato de sua fixação estar lhe custando R$ 700,00, mas o pensamento foi embora com a mesma velocidade que veio. Levou o aparelho.

Ao chegar em casa, ajustou o novo aparelho, já filmando, no tripé e foi assistir as gravações feitas até então no outro.

Havia entrado em um círculo vicioso de troca de aparelhos e observações de vídeos, mas não se importava desde que conseguisse comprovar a teoria que mudaria a percepção do mundo.

Com o dia já claro, enviou uma mensagem para o chefe dizendo que não se sentia bem e não iria trabalhar, não queria correr o risco de a memória do celular ficar cheia e o aparelho deixar de filmar.

Passou o dia assistindo vídeos, trocando os aparelhos que faziam a gravação e tomando café para se manter acordado.

Passou a noite da mesma forma.

Quando o dia seguinte clareava, pensou em mandar uma nova mensagem para o chefe informando que não iria trabalhar, mas o medo de perder o emprego falou mais alto e o obrigou a ir.

Remexeu as coisas até encontrar um cartão de memória, turbinou o aparelho que deixaria em casa filmando e foi para a empresa. Apenas seu corpo, pois a mente ainda estava sentada na frente daquela cômoda.

Trabalhou de maneira automática, torcendo para o dia acabar logo e poder voltar para casa e conferir a filmagem.

Chegou já correndo para o quarto e não conteve o pequeno grito ao perceber que o clipe não estava lá. Se virou com um sorriso no rosto para pegar o celular e deu um grito infinitas vezes mais alto quando viu a tela do aparelho apagada. Por algum motivo, ele simplesmente havia parado de gravar.

Uma lágrima de desespero escorreu quando, por desencargo de consciência, foi conferir se o tão aguardado desaparecimento havia sido gravado e percebeu que o aparelho havia filmado por apenas 48 segundos após sair para o trabalho.

O mundo paralelo era assim, não queria se tornar factível, queria continuar paralelo.

Em meio a xingamentos e palavrões, desejou ele mesmo ser levado para o outro mundo.

Deu um impulso com os braços, sentou-se sobre a cômoda e gritou até perder a voz pedindo para ser levado. Precisava daquilo.

No dia seguinte, ao abrir a caixa do correio, sua mãe encontrou a chave da casa do filho acompanhada de um bilhete:

“Mamãe, não se preocupe, estou bem. Na verdade, estou bem melhor. Faça o que achar melhor com as minhas coisas, confio em você. Talvez um dia volte ou te busque.

Te amo.

Ps. Nelson Mandela morreu em 1984”.