Horas

Após a compra da empresa por um grande grupo, e automatização de todos os processos que era possível, passou-se a vender as horas de trabalho, e não mais a competência de quem os fazia ou a qualidade do que era entregue.

Clovis achava aquilo um saco, mas não tinha como fugir, diariamente, querendo ou não, precisava acessar a tal “Inovadora Ferramenta” e preencher as horas que havia gasto em cada tarefa para que, ao final do mês, pudessem extrair relatórios que mostrariam sua produtividade e, consequentemente, avaliar a sua real necessidade na empresa.

Todos os dias, ao final do expediente, preenchia a planilha arredondando, sempre para mais, o quanto havia trabalhado em cada tarefa. Não podia dar a menor chance de parecer que trabalhava pouco, precisava mostrar o quanto era ocupado, garantindo o emprego e o sustento da família.

Na segunda semana, logo na segunda-feira, simplesmente não tinha nada para fazer, todas as suas tarefas já haviam sido realizadas anteriormente e tudo caminhava bem.

O que antes seria motivo de orgulho e sinal de eficiência, hoje lhe causava a maior das preocupações.

Perto das 18h30, quando se preparava para ir embora, pensou muito antes de preencher a “Inovadora Ferramenta” e, com medo, acabou colocando que havia passado oito horas em um relatório.

Desligou o computador e pegava sua mochila quando o telefone da mesa tocou. Ao atender, seu chefe começou se desculpando pelo horário, mas ainda assim pedindo um relatório com extrema urgência. Precisava apresentar os resultados em uma reunião que aconteceria no dia seguinte, às 8h.

Clovis fez uma piada mental sobre a ironia da mentira que havia colocado na “Inovadora Ferramenta”, sentou-se e ligou o computador para começar a trabalhar no tal relatório. Com sorte, terminaria até 20h.

Não teve sorte.

Trabalhou até 2h30 da manhã no relatório que parecia infinito.

No dia seguinte voltou à rotina, dividindo seu tempo entre as diversas tarefas e, no final do dia, registrando tudo o que havia feito.

Na quarta-feira, quando chegou no trabalho, encontrou novamente aquela situação de não ter muito o que fazer. Respondeu alguns e-mails, fez alguns registros e só, passou boa parte do dia ocioso.

Perto da hora de ir embora foi mais uma vez preencher a “Inovadora Ferramenta” e, outra vez, se viu obrigado a “roubar” no registro.

Com um sorriso no rosto, se lembrou da última vez que havia feito e do quanto a justiça divina foi rápida.

Por via das dúvidas, dividiu as falsas horas trabalhadas em duas atividades, um novo relatório e a organização de alguns arquivos importantes. Se o destino fosse castiga-lo novamente, não conseguiria fazê-lo com duas atividades diferentes.

Conseguiu.

Já estava no carro quando percebeu que havia esquecido o celular. Voltou para busca-lo e, ao abrir a porta do elevador, deu de cara com um dos gestores, que estava justamente indo atrás dele com o aparelho na mão.

Ficou extremamente agradecido com a gentileza, até que o gestor explicou que, na verdade, viu o celular esquecido porque tentou ligar para ele.

Precisava de “ajuda” com um trabalho urgente que havia surgido. O presidente da empresa viria no dia seguinte e queria ver um relatório de como andavam as coisas sob a nova gestão. Como todos já haviam ido embora, pediu ainda uma “ajuda imensa” com a organização de alguns documentos, já que não podiam correr o risco do presidente encontrar tudo bagunçado.

Enquanto executava as tarefas solicitadas, Clovis estava simplesmente em choque. Como era possível que aquilo tivesse acontecido novamente? Não tinha como ser coincidência, não nesse nível, isso não acontecia.

Como se não fosse o bastante, gastou nas atividades o tempo que havia registrado. Havia alguns minutos de diferença, mas, arredondando, era o mesmo.

O pensamento não lhe saiu da cabeça, inclusive durante o sonho.

No dia seguinte, se sentindo meio estúpido, mas ainda assim querendo comprovar “cientificamente” que estava tendo pensamentos sem sentido, resolveu registrar as tarefas assim que chegasse no trabalho. Precisava ver aquela brincadeira de prever o futuro cair por terra para conseguir voltar a dormir tranquilamente e, até mesmo, viver.

Foi preenchendo cada linha com as atividades que conseguia prever para o dia, e colocando o tempo que acreditava que cada uma tomaria.

Em uma brincadeira quase irresistível, criou a atividade “Passeio com a Bia”, sua filha de seis anos, destinando 4 horas do seu dia para ela. Foi impossível conter os pensamentos de, primeiramente, o quão idiota era aquilo e, em seguida, o quanto seria ótimo se tivesse esse poder sobre o destino.

O inesperado mais esperado aconteceu.

O dia aconteceu exatamente como o “previsto” por Clovis. Cada tarefa descrita, cada hora destinada e, no final do dia, a ligação da esposa pedindo que a encontrasse, juntamente com a filha, no teatro perto de casa. Haveria a apresentação de uma peça infantil que a Bia estava louca para assistir e, ao final, os atores ainda receberiam as crianças.

Tempo total da atividade entre a peça, a fila, o abraço apertado e os cinco minutinhos de conversa com os atores e a parada na lanchonete para o jantar — 4 horas.

Não conseguiu dormir aquela noite. Seu pensamento repassava atividade por atividade o tempo todo, se perguntando aonde estava a pegadinha, o que havia deixado passar despercebido. Não encontrou.

Começou então a pensar se aquilo continuaria acontecendo e, caso a resposta fosse afirmativa, o quanto seria maravilhoso ter o controle do destino em suas mãos.

Se perguntou também de onde viria todo esse poder da “Inovadora Ferramenta”, mas sinceramente, a resposta pouco lhe interessava, o que importava mesmo era o controle que passaria a ter a partir de então.

Fez um acordo mental de não abusar da sorte e continuar trabalhando dedicadamente, nada de ficar incluindo momentos de laser durante o trabalho ou passando dias ociosos, não queria abusar da sorte e correr o risco de chamar a atenção de alguma maneira negativa.

Com isso em mente, quando chegou ao trabalho na sexta-feira resolveu deixar programadas todas as atividades até o final do mês, com uma nota mental de sempre fazê-lo no último dia do mês para o seguinte.

Criou ainda uma nova pasta de tarefas que nomeou como “Vida Pessoal”. Utilizou-a para registrar os programas que pretendia fazer em família, durante a semana e também nos finais de semana, mas se policiou para deixar períodos sem previsão, tanto para o trabalho como na vida pessoal, não queria perder o que considerava “a graça da vida”, de não saber o que o futuro reservava e, tinha plena ciência, de que era impossível prever absolutamente tudo, a tentativa acabaria causando algum bug com certeza.

Nunca mais xingaria a “Inovadora Ferramenta” e começou a achar que o nome lhe era perfeito.

Nos próximos dias começou a viver o que considerava a perfeição. Dias atarefados, porém, sem desespero. Programas deliciosos com a família e o stress em um nível tão baixo que nem dava para ser considerado.

Havia assumido o controle de sua vida e a sensação era maravilhosa.

No último dia do mês, assim que chegou ao trabalho preencheu as tarefas do mês seguinte.

Pode ainda sair mais cedo do trabalho — não havia previsto — para curtir o final de semana com a família.

Foi para casa repetindo o que havia feito no último mês, agradecendo por tudo o que havia conseguido e pela felicidade que sentia.

Como não havia programado nada para aquele final de semana, resolveu que iriam se divertir muito. Ligou para a mulher do caminho e pediu que arrumasse as coisas da família, iriam passar o final de semana na praia.

No escritório, o técnico responsável extraia os dados de produtividade dos funcionários para reportar à diretoria. Era o dia do mês em que seu trabalho sempre adentrava a madrugada

Já passava da uma da manhã quando reparou que, nos dados de um dos funcionários, apareceram informações que não tinham qualquer relação com o trabalho. Imaginou que o homem estivesse utilizando a “Inovadora ferramenta” para organizar a vida pessoal, ideia que, inclusive, considerou ótima, mas ficou com medo de ir contra as políticas da empresa e, após fazer uma anotação mental de verificar se era permitido, apagou os registros do mês que estava acabando.

Entre os dados coletados, viu ainda que já haviam também informações do mês subsequente nos dados do funcionário que usava o recurso para a vida pessoal.

Isso tinha certeza de que era proibido. Era impossível alguém prever quais atividades faria e quanto tempo gastaria em cada uma, aquele cara estava abusando da boa vontade da empresa.

O técnico também anotou em sua agenda para falar com o homem na segunda-feira. Não deveria fazer anotações pessoais na “Inovadora ferramenta”, ela deveria ser usada apenas para coisas importantes.

Apagou todas as informações da ferramenta no segundo em que Clovis capotava o carro na rodovia, num acidente que, além dele, matou sua esposa e filha.

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