Visitantes

Ouviu o barulho do primeiro ferrolho e começou a se preparar. No segundo, iniciou a inspiração mais profunda de que era capaz, nunca era possível saber por quanto tempo precisaria utilizar apenas o ar estocado em seus pulmões e, no terceiro, prendeu totalmente a respiração, fechou os olhos e esperou para descobrir se já era a sua vez.

Como vinha ocorrendo nos últimos 23 anos, quando o primeiro ferrolho fechou ainda estava no abrigo.

Uma olhada rápida pela sala o fez perceber quem havia sido levado, o cento e sete. Ao menos dessa vez não havia sido ninguém muito próximo. Mas para falar a verdade, já não existia ninguém muito próximo desde que sua mãe e sua namorada foram levadas.

Todas as palavras e conceitos que conhecia, como “mãe” e “namorada”, por exemplo, haviam sido ensinados pela primeira que, por sua vez, aprendeu-os com a mãe dela — já não se lembrava mais como era a palavra para definir a mãe da mãe.

Há algum tempo os mais velhos vinham sendo sempre os escolhidos e com a ida deles, iam-se perdendo as poucas informações que ainda existiam sobre a vida de antes e as pessoas conversavam cada vez menos.

O que sabia era que, em algum momento do passado, todos foram protegidos dentro dos abrigos — não tinha ideia de quantos eram “todos”, quantos abrigos existiam ou quantas pessoas chegaram naquele onde estava — e que, após algum tempo, as visitas começaram.

As vezes os visitantes passavam um longo tempo sem aparecerem, mas em outras vinham várias vezes em um curto período.

Nem sempre levavam alguém e ninguém tinha ideia de qual era o critério de escolha, mas todos acreditavam que seria o descumprimento de alguma das regras. Quando percebessem que os visitantes estavam chegando — pelo barulho das fechaduras abrindo — deveriam ficar de olhos fechados e prendendo a respiração até que ouvissem a porta sendo fechada. Nenhum tipo de barulho era tolerado.

Normalmente não ouviam nada durante as visitas, mas em outras os escolhidos gritavam, gemiam e choravam.

Enquanto estivera com ele, sua mãe sempre condenou aquilo fortemente. Dizia que ninguém sabia para onde estava sendo levado e que existia a possibilidade de ser para um lugar muito melhor e, mesmo que não fosse, deveriam ser gratos pela oportunidade de sair.

Mal teve tempo de recuperar o fôlego e a primeira fechadura começou a ser aberta novamente. Seria um dia movimentado.

Repetiu o processo de toda a sua vida e aguardou para saber quem seria o escolhido.

Desta vez estava demorando bastante.

Sentiu um movimento em suas costas e, por reflexo, expirou uma quantidade mínima de ar num movimento que certamente passaria despercebido por qualquer pessoa, mas não pelos visitantes.

Sentiu então uma língua gelada e áspera passando por sua bochecha, acompanhada por um hálito que misturava podridão e ervas.

Seu dia havia chegado

Foi em silêncio, de olhos fechados e apenas sentindo as garras que se cravavam em seu pescoço.

Ao menos já podia respirar.

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