Vila histórica no Bexiga em SP é erguida com material de demolição

A construção civil, um dos mais importantes setores da economia brasileira (representa 9% do PIB nacional), produz anualmente uma média 31 milhões de toneladas de resíduos de obras. Os dados são da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Desses resíduos, que incluem materiais como tijolos e madeira, 50% são desperdiçados. Boa parte poderia ser reutilizado em novas obras, ajudando, inclusive, a baratear as construções. Um dos cartões postais da cidade de São Paulo, a Vila Itororó, é um bom exemplo de reúso com criatividade.

A alternativa de reaproveitamento tem conquistado, aos poucos, a indústria de imóveis no País. De acordo com o Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon), o número de usinas que transformam entulho em matéria-prima (como areia e brita) cresceu mais de 20% nos últimos anos.

Uma pesquisa da Abrecon divulgada no ano passado mostra que o Brasil já tem 310 usinas dessas, sendo São Paulo a cidade líder, com 54% delas. No entanto, ainda segundo a entidade, mais da metade das cidades brasileiras descartam de forma incorreta os entulhos de obras, em lixões e aterros — o que leis municipais tentam minimizar.

REÚSO COM CRIATIVIDADE

O reaproveitamento de entulhos e resíduos de obras não necessariamente precisa ser feito pela indústria da construção civil. Com criatividade, são muitas as possibilidades de utilização desse material em novas obras.

Foto: Reprodução

Patrimônio histórico de São Paulo, a Vila Itororó, no bairro do Bexiga, é um dos mais interessantes espaços dessa megacidade. O conjunto de casarios, erguido no século 20 e desapropriado nos anos 2000, já foi até chamado pelo escritor Mario de Andrade de surrealista. Lar de famílias inteiras ao longo de décadas, a vila foi toda erguida com material de demolição.

A ideia de criar a Vila Itororó foi do imigrante português Francisco de Castro, que também era mestre de obras. Castro utilizou na construção da casa dele e dos 37 outros prédios restos de demolição de prédios da cidade, como o Teatro São José, no Vale do Anhangabaú.

Desde que foi reaberto, no ano passado, a Vila vive um processo de redescoberta pela população. O espaço, administrado pela Secretaria de Cultura da cidade, passou a receber visitas guiadas e espetáculos de teatro, como O Filho, do Teatro da Vertigem, e Cidade Vodu, do Teatro de Narradores.

Foto: Reprodução

Caminhar por entre essas construções, que aos poucos estão sendo restauradas, é sempre uma experiência inusitada. Das bases das obras até os detalhes, é possível notar as peças reaproveitadas — inclusive nos detalhes da decoração, que conta com réplicas de esculturas egípcias e esculturas de leões em concreto, entre muitas outras surpresas.

A iniciativa do português Francisco de Castro em São Paulo vale como inspiração para os dias de hoje. Já pensou como pode ser maravilhoso criar sua casa com referências do passado, estruturas vintage e material reutilizado? Além de bonita, a escolha tende a ser mais barata e também diminui a geração de resíduos.