Tiago Leifert não tem culpa pela leifertização do esporte, só tem culpa por falar merda

Tiago Leifert é uma daquelas figuras que tem algum papel tão importante que seu nome vira sinônimo de alguma coisa que ele fez. Quando se fala em “leifertização” do jornalismo esportivo, falamos da “imbecilização” do mesmo. Da saída da informação para a entrada da brincadeira, da piada. Acredito que Tiago Leifert não tenha culpa pelo fenômeno que leva seu nome. Apenas aceitou desempenhar um papel. Seu empregador apostou que haveria público para isso — e havia.

Quem é culpado por Tiago Leifert, a Globo ou o público? Quem é culpado por Alê Oliveira, a ESPN ou quem o aplaude? Quem é culpado por Benjamin Back, quem o coloca em um programa não-humorístico ou quem assiste o programa como se fosse jornalismo? São perguntas difíceis de responder, e ainda mais difíceis de responder sem resvalar no elitismo. Note-se ainda que nem Leifert nem Back fazem nada de errado — Alê Oliveira, das piadas machistas e do racismo, faz, mas essa também é outra discussão. Acrescente-se que ninguém pode defender que não há espaço para isso, já que há público. O que não faz sentido é misturar piada com mentira com opinião e confundir isso com jornalismo esportivo.

Tiago Leifert não tem culpa pela leifertização do jornalismo esportivo. A partir do momento em que adquire protagonismo, porém, tem culpa pelo que fala. Principalmente quando fala merda. Principalmente quando fala muita, mas muita merda, como fez nesta terça em artigo publicado pelo site da revista GQ com o título “Evento esportivo não é lugar de manifestação política”. Não, caras, não é só ruim. É inacreditavelmente ruim. É tão ruim que a maioria dos argumentos caberia em um artigo que no final do século XVIII defendesse a escravidão. Seu argumento básico é: o jogador é mão-de-obra, está lá para nos divertir. “TOU PAGANDO PRA TU ME DISTRAIR”, brada o texto. E ignora, como é evidente, um par ou dois de obviedades.

Quero começar pelo mais óbvio: o de que o atleta é só um funcionário, e que suas manifestações “contaminam” a “marca”. “Do ponto de vista do atleta: ele veste uma camisa que não é dele (que, aliás, ele largará por um salário melhor), uma camisa que representa torcedores que caem por todo o espectro político. A câmera e o microfone só estão apontados para aquele jogador por causa da camisa que ele está vestindo e de sua performance esportiva”. Errado, amigo Leifert. Esse é você, que se não fosse da Globo não seria ninguém.

No caso do atleta, qualquer um que pense um pouco perceberá com absoluta facilidade, o dono do espetáculo é ele. Quem se apropria daquilo e disso extrai lucro, em alguns casos fabuloso, são os donos, os capitalistas. Então quando você cita o exemplo de Colin Kaepernick deveria também se dar o trabalho de dizer que a NFL é racista, que seus donos são racistas e que seu público compactua com isso. Que sem atletas, não há esporte, mas que sem os donos ele continua existindo. Que os atletas ganham muito, mas muito dinheiro, mas que os donos, que não fazem absolutamente nada, que não correm risco nenhum, que representam um monopólio protegido pela legislação, ganham muito mais. E que nenhum time quis o “troublemaker” Kaepernick, mas muitos quiseram o “troublemaker” branco Curt Schilling (arremessador de beisebol), que defende e defendeu enquanto atleta causas de direita e extrema-direita.

O argumento é estúpido não só do ponto de vista humano e da liberdade individual. É estúpido também do ponto de vista de marca. A NBA só é o sucesso que é hoje porque abraçou sua negritude, porque permite que seus jogadores tomem posições, que sejam protagonistas. É por isso que os jovens se espelham em Lebron James e assistem cada vez mais a NBA e cada vez menos (e não mais, como estava aqui) a MLB. Para dar um exemplo doméstico, a Democracia Corintiana não só não prejudicou a “marca” Corinthians como ajudou muito a consolidá-la e valorizá-la.

Vamos considerar, porém, que assim não fosse. Que em um momento em que o Brasil vivia uma ditadura militar em que era proibido ter opiniões, um grupo de atletas entendesse que devia se posicionar contra isso. Se isso prejudicasse a “marca”, deveriam deixar de fazê-lo? É mais importante a “marca” Corinthians do que impedir que pessoas morressem nos porões do DOPS? Para aprofundar a discussão: quando Jesse Owens correu em Berlim e derrotou a equipe de Hitler, os EUA deveriam tê-lo deixado em casa? Tommie Smith e John Carlos, nas olimpíadas de 68, deveriam ter se preocupado com a “marca EUA”, e não com os jovens negros americanos massacrados pela polícia e pela Guerra do Vietnã?

Tiago Leifert não é responsável por criar a geração de imbecis que o imitam e acham que são jornalistas. Tiago Leifert não é nem mesmo culpado por achar que catupiry é um sabor aceitável de pizza. Mas Tiago Leifert é culpado pelas merdas que fala. Principalmente sobre assuntos que não domina e a respeito dos quais ninguém pediu a opinião dele. Faria bastante bem em ter ficado quieto.

Edit: Esse texto foi originalmente publicado com uma introdução mais longa, que fazia menção a outros jornalistas. Apaguei o primeiro parágrafo por sugestão do amigo (e professor) Maurício Stycer. De fato ele desviava a atenção do assunto do texto.

Outro amigo e professor a corrigir foi o Martin Fernandez. Tenho poucos leitores, mas que nível, hem? ;)