As curas da Bahia
A primeira lembrança que eu tenho de minha vida é com meu pai. Ele me segurava pelo tronco e me erguia até o céu. E eu ria e sentia como se eu tivesse conseguido viajar para um lugar mágico e proibido pra mim.
Meu pai me deu meu primeiro microscópio. Construiu um telescópio comigo. Me ensinou sobre as plantas do sítio, sobre a absorção das palmas dos pés e que existem espíritos maus e bons. Pessoas também. Cresci longe do meu pai, mas temos uma conexão que a distância não vence. Meu pai às vezes confessa que tem vontade de chorar quando viaja sozinho pro Sítio. Faltam meus olhos atentos a tudo que ele diz. À mim faltam os poderes do meu pai, do sal na garganta, do alho no bolso e do carinho que ele me faz nas costas.
Quando visitava meu pai todas as férias de verão, ele me colocava para dormir enquanto contava a história de uma tartaruga que queria ir para a festa no céu. Ela se escondia dentro do violão de um urubu, subia até lá em cima e tentava se infiltrar na festa. Nunca perguntei aos meus irmãos se eles amavam tanto aquela história quanto eu. A tartaruga cai do céu e se parte em mil pedaços. Triste, sozinha e despedaçada. Deus, em compaixão àquele sofrimento, procura os cascos partidos e reúne a tartaruga inteira novamente. Meu pai dizia que as tartarugas tem os cascos desenhados em retalhos por causa disso.
Mal sabia eu que as tartarugas somos nós que sentimos demais, vivemos demais e nos frustramos demais com os lugares que parecemos não poder tocar e com as respectivas quedas que nos repartem. Todo fim de ano desde que saí da asa da minha mãe eu corro pro colo do meu pai. Não sei se estou procurando meu pai ou Deus. Mas estou sempre em mil pedaços. Eu não peço mais pro meu pai me colocar parar dormir, mas ele sabe. E de novo eu não sei se é o meu pai ou Deus ou o Deus que habita o meu pai, mas eu continuo vivendo.
Eu gosto de quando meu pai liga o rádio de manhã cedo e inspeciona o sítio e sempre traz os limões mais cheirosos do pé. Quando eu acordo eu sinto aquele cheiro fresco com café e pão. Meu pai às vezes confessa o quanto sente saudades. Algumas pessoas sentem saudades, mas eu não sei quem sente mais saudades dos meus olhos atentos aos limões perfumando o café com pão na mesa em que meu pai lê o jornal. Eu, meu pai, Deus ou o Deus que habita em meu pai.
Meu pai ouve Beatles. E Cazuza. Meu pai nunca afina o violão, só quando eu peço pra ele tocar pra mim. Ele tem vergonha quando eu falo que ele é músico porque ele nunca estudou música profissionalmente. Meu pai nasceu na Bahia e embora eu tenha tido uma experiência muito prematura nesse lugar, eu sinto um carinho por tudo que vem de lá. Acho que o Deus que habita o meu pai é Baiano e anda descalço e cuida das plantas, das tartarugas e dos nossos carnavais que eu não faço ideia se meu pai gosta, mas eu amo e passamos tantos juntos.
