quando a última aurora virar poema (carta a sua mulher que decide o suicídio assistido)

Marcos Vinicius Sokabe Ribeiro

certas coincidências podem ser extraordinárias. a elas damos o nome de destino.

laura querida,

como um corpo qualquer a deriva no cosmos encontra tua direção e rota apenas quando em sistemas íntimos de gravidade, a ausência de teu sol dentado na atmosfera cotidiana perturba meu senso de rotação.

mas eu continuarei, como me aconselhastes antes de partir. regarei as orquídeas pela manhã, como fazias com uma caneca de prata todos os dias. ligarei para clarice amanhã assim que a tarde bradar e o horário comercial ceder a calmaria das noites de segunda-feira para avisar-lhe, não quero atrapalha-la no trabalho. sabes bem que tua filha é igual a ti porque ama incondicionalmente e sabes bem como pessoas capazes de amar tanto são suscetíveis a própria passionalidade, então perdoe-a por recursar ir a nova york conosco neste fim de semana. perdoe-a por amar-te tão enormemente que tornara-se um ato hercúleo mentir que aceita tua partida.

a quem ama em demasia resta a incapacidade de mentir e por isso são fugitivos à sistemática do luto e da continuação. esta constatação corrompe qualquer senso de moralidade, convicção, existência e realidade dos que não amam, se é que existe alguém tão mentiroso a ponto de se declarar dessa forma. o amor não prescreve reticências interiores porque no coração daquele que ama falha a válvula semiótica dos pontos finais.

quando nos conhecemos, discordávamos tanto que nos momentos de coalizão entre nós, eu tratava de esconder a minha satisfação em sorriso canto de boca. gostávamos da discórdia, assegurava que estávamos juntos porque queríamos, entes independentes que amam estar juntos e cientes de tal. dos tratados políticos, crises econômicas até a melhor localização dos nossos livros de sebo na estante da sala de estar. tu me dizias, a lua brilha hoje como nunca… eu respondia, era exatamente o que eu iria dizer, meu amor…

Laura, três dias atrás estávamos sentados um ao lado do outro enquanto uma chuva de verão acenava da janela. um pedaço de bolo de seu aniversário da noite anterior, uma xícara de porcelana talhada com tulipas multicoloridas presente dos meus pais décadas atrás que fiz questão de completar com café ainda quente e o álbum de fotografia do nosso casamento aberto esparramando fotos por toda a mesa de jantar encharcando-a de saudades bem vividas configuravam mais uma manhã de domingo.

olhei-te. passei a mão por seus cabelos de médio comprimento, o teu cheiro de flor recém acordada subira. mesmo que em seus fios já invadisse o acetinado do branco e da velhice, conservava os sintomas desta tua juventude jamais esquecida; púrpura, branco, azul; cada maço de cabelo e repique evocava uma história muito bem guardada de quando, nos abraços, inúmeras e repetidas vezes, atordoado fiquei, em transtorno absoluto, pelo cítrico doce de sua nuca.

arranquei o miolo do pão, passei manteiga nos espaços oportunos e vi uma abelha invadir o bule de leite como se fosse mais um dia normal em que valia a pena apreciar os pequenos detalhes do existir. você estava entretida revendo as fotos. recriando momentos engolidos pela sépia. quase certo que a memória falta ao homem, eis então as fotografias para que sejamos capazes de retroceder ao instante do clique e reinventar todo o restante. o antes, o após, o entre eles. inclinei-me e beijei tua bochecha, que em outros tempos eram rosas e lisas, hoje enrugadas e exorcizadas do blush mas que conservavam a mulher fatal de sempre.

sabia que seria o nosso último café da manhã juntos, então dei dois beijos. um em cada horizonte da maça de teu rosto. o oriente e o ocidente do meu mundo tão logo em cisão… o primeiro pela certeza de beijar a mulher da minha vida, o segundo como um ato desesperado pela mulher da minha vida que me escapa. folheamos as páginas do álbum e dei-me conta de que a vida caminha vagarosa, porém, é lindo que tenhamos a possibilidade de cataloga-la, prolongar boas lembranças até a eternidade, como um documento de alma imune a violência do tempo. lá vi o natal que passamos na companhia de sua família em meados dos anos 80 e a terrível camisa florida que tu me alertara horas antes que não caia bem numa festa natalina ir vestido de entusiasta do carnaval. rio novamente como se pudesse agarrar o momento com a unha, embora minha pele sinta apenas o morno que lágrimas de saudade provocam.

havia sim um mundo presumido, equacionado, em que seu olhar era minha constante definitiva. tudo o que fui, sou e ei de ser passava pela reflexo de suas pupilas. minha identidade era a simbiose do que acho que sou e devo ser com o que você achava que sou e deveria ser. meu espelho pupilar, minha alma gêmea sem nenhuma característica em comum senão a nossa descrença mútua em destino de almas e crença absoluta que somos responsáveis por aquilo de cativamos, ainda refratas em meu coração.

agora já sem o oceano de teus olhos, já não sei quem sou, já não sei quem vou ser, em que mar além do mar mergulhar. aquela imagem disforme, o reflexo em miniatura de mim mesmo em tuas íris, maior que qualquer espelho, não mais terei. todavia, reservo fôlego para um novo velho que virá, que se tivesse tido a oportunidade de amar ainda mais do que amou teria morrido de taquicardia.

não tenho tempo para tristezas. meu luto será curado pela harmonia da tua ida e nem deus e seus fragmentos de injustiça atravessarão a borboleta de barba branca que se desvincula do casulo. tu me pediras que não chorasse, ou, se fosse inevitável num entardecer expandido pelo por do sol, que viessem com o peso de lágrimas doravante, que flutua, não empuxa. que eu compreendesse que o que se viveu não se apaga, e que tivemos sorte de compartilhar uma busca por sentido de vida compartilhada no ensejo singular da felicidade em forma de beijo apaixonado.

aos vinte e poucos a vida parece mais franca. tenho a impressão de que começamos a entendê-la apenas após os trinta, trinta e cinco. quando aceitamos o suposto de que parte significativa de nós se foi e não há de voltar sob nenhuma circunstância em soma com um futuro, na mediana das hipóteses, menor do que o vivido até o momento. na juventude, o ímpeto é tão grande que se fosse montada uma equação acerca do envelhecimento, entre os sinais matemáticos, estariam incontáveis variáveis em busca do eu.

eu presenciei o nós. é o dobro de felicidade obtida numa conta matemática que apenas procura uma incógnita solucionada. na busca de x, deu-se a nossa soma.

este sentimento de egoísmo inocente não carrego mais. para velhos como nós, cabe a sabedoria do imaterial. jovens precisam conquistar tudo o que julgam precisar até darem-se conta que o mais importante é aquilo que os conquista. não erguerei muros sobre mim. minhas veias seguem firmes como avenidas para livre circulação.

quando viestes a mim pedir que a acompanhasse nesta viagem a nova york, hesitei pelo medo de não suportar a tua imagem de estrela se apagar. é tão fácil nos alicerçarmos às leis e tabus da sociedade quando uma situação extrema exige reação imediata. você recorre as leis, a filosofia, a chantagem emocional, sem perceber que o esperado é o silêncio carinhoso, o ouvir sem julgamentos, o respeito em forma de presença braçal. pessoas nem sempre procuram soluções, mas sim quem seja leal e partilhe dos problemas. você teria dito algo próximo a isso, amor, e eu concordaria com um sorriso tímido.

o barbitúrico faz efeito progressivamente, os médicos estão do outro lado da porta para nos deixarem a sós. mal sabem que não se trata de uma despedida, tu te transformas em energia ao alcance de toda a poesia do mundo agora.

vejo teus olhos fechando como se dormisse profundamente, laura. tua feição resume a tranquilidade do ciclo orgânico. o ciclo das flores numa primavera de 70 anos.

darei a notícia de seu suicídio assistido amanhã para clarice, como lhe contei. ela é uma menina inteligente, entenderá que cada indivíduo é dono de sua narrativa, e que antes de minha mulher, mãe dela ou qualquer outro rótulo, é laura. e assim segue sendo.

aperta minha mão com força e vitalidade, como há muito não demonstrava devido a válvula em seu coração que pulsa arrítmica. manteve suas pálpebras cerradas, porém num último susto de fôlego me diz: eu te amo…

engraçado… era justamente o que eu iria dizer, meu amor…

certas coincidências podem ser extraordinárias, a elas damos o nome de destino.

Imagem retirada da internet
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