É o fim — O que um episódio final deve ser?

PS.: Esse texto, obviamente, contém spoilers.

Começar algo é muito fácil. Por exemplo, eu já sabia que ia começar esse texto com essa frase desde que decidi escrevê-lo porque, como dito anteriormente, começar algo é muito fácil. Mas terminar? Aí é que fica complicado. Terminar abruptamente um namoro ou dizer para aquele chefe que você pretende seguir o sonho de não trabalhar mais naquela empresa já pode ter passado uma ou duas vezes pela sua cabeça, mas se você acha que uma situação mundana como essa já traz uma pressão chata para o mero mortal que precisa atar os nós, imagina se o que você tem em mãos é um produto que gera milhões de dólares e espectadores? Eis a difícil tarefa de entregar o sonhado series finale perfeito.

Um series finale (último episódio de uma série de TV) precisa cumprir as missões de fechar todos os plots de todos os personagens de maneira coerente com o desenvolvimento dos mesmos ao longo dos anos, trazer algum tipo de surpresa pra não cair numa fórmula de final de novela, onde você sabe tudo que vai acontecer, e agradar aos fãs que acompanharam a história até ali. E é aí, nessa última cláusula, que entra o primeiro problema. Porque agradar os fãs nem sempre é a melhor solução. Vamos pegar o último episódio da 6ª temporada de The Walking Dead como exemplo (por mais que não seja um series finale). O episódio foi o ápice da temporada que construiu, principalmente após o retorno de seu usual break de fim de ano, a expectativa da chegada do novo vilão, Negan. Nos minutos finais do episódio, o big bad da vez entra em cena com sua querida Lucille (um taco de baseball enrolado em arame farpado) em mãos, aterrorizando o grupo de Rick e quem está do outro lado da tela, já mudando da posição “deitadaço curtindo TWD” pra “sentado porque agora a porra ficou séria”. Depois de um monólogo de quem esperou uma temporada inteira pra aparecer, Negan escolhe sua primeira vítima e desce a Lucille na cabeça do campeão. Quem lê os quadrinhos sabe™ quem é que morre, mas os produtores da série decidiram deixar a identidade em segredo e criar um cliffhanger para a próxima temporada. Vamos ignorar o fato de que The Walking Dead já brincou com o mistério de “será que morreu?” mais do que devia (isso é assunto pra outro texto) e vamos nos focar na narrativa. O que tínhamos ali não era uma história de quem matou quem, mas a história de um grupo que já se fodeu um bocado e adivinha só: vai se foder mais uma vez. É a história de um líder que conseguiu encontrar um lugar pra chamar de lar e abrigar sua família. Um cara que tem a pica do tamanho da de alguém que já enfrentou o Governador. E esse cara, com toda a força e confiança adquirida, cai indefeso diante de uma nova ameaça. É ali que tá a história, na cara de cagaço de cada um daqueles atores ajoelhados. Adiantar quem foi que morreu (quando todo mundo já tem uma boa ideia, por mais que a série possa divergir dos quadrinhos) seria só atender ao fan service. O episódio tinha uma missão: apresentar Negan e deixar todo mundo cagado de medo. Missão cumprida.

O fan service quando é bom, é bom. Tem um escalador de paredes zanzando pelos filmes do Universo Marvel pra provar isso. Mas ele precisa atender a história. Não dá pra simplesmente jogar algo no meio de um filme ou série só porque vai resultar em orgasmos de quem tá assistindo. Vamos sair de The Walking Dead e entrar no sagrado território de Friends. Estamos em 2016 e já se passaram 12 anos desde que a série terminou (você acabou de se sentir muito velho). Que tal se todos começarmos a aceitar o triste fato de que o Ross não merecia a Rachel? Sim, eu sei. Depois de dez longas temporadas de um vai e vem dos infernos, seria foda se os produtores não juntassem os dois. Mas os personagens mereciam? A história dos dois merecia? E aí, quem fala mais alto? A fidelidade com a história ou com os fãs? “Cesar, por que o Ross não merecia a Rachel?”. Eu te digo, Ricardo. O cara gostou da mina por um tempo do cacete, não teve BOLAS para falar pra ela, depois arrumou uma namoradinha e quando a mina disse que gostava dele, foi lá e deu uns beijo, sem respeitar a namorada e nem a própria mina, que foi colocada numa situação do caralho (por mais que ela tivesse sua parcela de culpa). Depois, fez uma caralha de uma lista pra decidir qual das duas ele queria, conseguiu — por algum ato divino em forma de VHS — o perdão da mina, os dois começam a namorar, ele se torna o namorado cuzão ciumento, ELE a trai, eles passam um tempo brigados e depois ficam de boa, daí ele engravida a mina e imediatamente sugere um casamento porque ela claramente não saberia cuidar de uma criança sem um macho do lado. Pega esse relacionamento e me diz se esse cara merecia que ela saísse do avião. Coerência é a palavra, amigos. E é por essas e outras que por mais que eu o tenha detestado quando ele foi ao ar, hoje em dia eu vejo como o final de How I Met Your Mother faz sentido. Durante seu tempo no ar, HIMYM nos ensinou que tudo na vida tem uma razão. Toda curva que a gente faz está nos levando a algum lugar. Algumas são ocasionadas por nós e outras são obras do destino. Ted e Tracy foram destinados a se encontrar naquela plataforma de trem porque eles eram exatamente o que o outro precisava naquele momento da vida. Não é que um tenha nascido pro outro. Tenho certeza que você, assim como eu, já viu relacionamentos perfeitos acabarem demais pra ainda acreditar que só existe uma pessoa pra cada um de nós na Terra. Eles eram exatamente o que o outro precisava porque eles estavam prontos para a vida que o outro queria. Até ali, a história de cada um era uma tragédia em busca de um final feliz. O cara que teve seu coração partido por ver a mulher dos seus sonhos se casar com o seu melhor amigo e precisava de alguém que restaurasse sua fé no destino e no amor and all that Marshall e Lily crap. E a menina que amou muito alguém, viu essa pessoa partir cedo demais, fechou seu coração por muito tempo, provavelmente mais do que devia, e precisava de alguém pra amar de verdade de novo. Mas, como diria Rust Cohle em True Detective, o tempo é um círculo e a tragédia atinge de novo, levando Tracy embora. Cadê o final feliz dessa tragédia? Tão ali, sentadinhos ouvindo nove temporadas de história. É a história de amor perfeita. Eles se encontraram, se amaram, construíram uma vida juntos e puderam seguir seus caminhos. Ted querer ir atrás de Robin de novo não é uma manha dos roteiristas, é só a vida mesmo. A vida é feita para que possamos nos permitir e correr atrás daquela pessoa que um dia foi o grande amor da nossa vida é justamente isso. Se Ted Mosby não seguisse cada um de seus discursos sobre o amor e virasse um viúvo que só cuida dos filhos, ele não seria Ted Mosby. E se você acredita que existe uma vida depois dessa, podemos imaginar que Tracy encontrou Max. Assim como o que aconteceu em The Walking Dead, temos uma conclusão que decidiu atender à história, arriscando-se a (e conseguindo) emputecer muitos fãs.

Os fãs, inclusive, não tiveram muito lucro no series finale de How I Met Your Mother. Porque o fan service ficou só na hora dos catchphrases, das piadinhas regulares e da conclusão da história de Marshall e Lily. Se de um lado tínhamos Ted, Tracy e Robin, do outro tivemos Barney à deriva pra fechar a sua história com várias temporadas de desenvolvimento de personagem jogadas no lixo. No fim das contas, ele era só uma ferramenta pro plot seguir um plano arquitetado pelos showrunners no fim da segunda temporada. Em uma cena, Barney explica pra Lily que ele voltou a ser mulherengo porque era que ele era, como se o personagem estivesse implorando para os espectadores entenderem que não importa se ele cresceu da quarta pra nona temporada, ele era aquilo ali mesmo e ponto final. Aaron Sorkin (criador de Newsroom e roteirista de A Rede Social e Steve Jobs) fala que gosta de escrever seus personagens como se eles estivessem explicando para Deus o motivo pelo qual eles merecem um lugar no céu. E é exatamente isso que eu vejo nessa cena. Não importa se, ao final do episódio, ele virou um paizão solteiro que não dá mais em cima de universitárias no bar. No último episódio de uma série de nove anos, um personagem não precisa implorar para que Deus (eu e você) o permita ser quem ele é. Deveria estar bem claro, como está claro com Ted e com Robin, que, respectivamente, seguiu seu coração e colocou a carreira em primeiro lugar, como sempre fizeram. É uma questão de coerência com quem o personagem sempre foi, tomando sempre um cuidado pra não se aprofundar na areia movediça que é a unilateralidade (bazinga).

Ter seu desenvolvimento sacrificado para que um plano de roteiro criado anos antes fosse colocado em prática é algo que Barney Stinson e The Good Wife têm em comum. Eu amo Alicia Florrick e irei protegê-la, mas o casal criador da série, Robert e Michelle King, cagou com a nossa boa esposa. Por muito tempo, essa foi uma das melhores séries dramáticas da TV. Mesmo sendo procedural, ela tinha uma história principal interessante e personagens cativantes. Dos protagonistas, passando pelos coadjuvantes e chegando nas participações (mais que) especiais. Mas depois da quinta temporada, os roteiristas pareceram perder a mão e se enrolar em tramas que começavam sem propósito algum e terminavam com menos ainda. O que não sabíamos era o plano de que a série que começou com um tapa deveria terminar com um tapa. O fechamento de um ciclo é sempre muito legal de ver, vide Ryan Atwood perguntando se um moleque claramente perdido precisava de ajuda no final de The OC, mas se colocar os fãs acima da história pode ser um erro, colocar um plano inicial acima dela também pode ser. Chegou um momento da sétima temporada de The Good Wife em que os roteiristas pareceram perceber que o tempo tava acabando e falaram: “Opa, esquece esses personagens aqui, a gente tem que entregar aquele tapa no final do último episódio a qualquer custo”. Personagens principais foram esquecidos e personagens secundários foram trazidos de volta à tona pra servir de ferramenta pro plot. O tapa que a Diane dá em Alicia foi merecido. Ela usou o marido da amiga e sócia pra defender o cuzão do marido dela e impedir que ele voltasse pra cadeia, mesmo que as duas fossem parceiras no caso. A ideia de que Alicia se tornaria cada vez mais semelhante ao marido corrupto era boa. Mr. Chips se transformando em Scarface, como Vince Gilligan sempre gosta de falar. Mas jogar no ventilador histórias e personagens que ainda estavam ali, que ainda deviam ter relevância, só pra fechar um nó que estava pra ser atado há sete anos não é exatamente a melhor saída. O plano era bom, mas a execução, na minha opinião, foi feita de maneira errada.

Começar algo é muito fácil. Terminar é que é complicado. Mas a história precisa sempre vir em primeiro lugar. Se há algum plano inicial ou a necessidade perpétua de agradar aos fãs, que isso seja feito da maneira correta e coesa. Não precisa ser um final perfeito como de Breaking Bad. Ele pode ser confuso como o de The Sopranos e o de Lost, estranho como o de Seinfeld ou choroso como o de Six Feet Under. Só não estraga os personagens e histórias que a gente aprendeu a adorar por anos e anos. Principalmente se for para o serial killer se transformar num lenhador e ainda ficar olhando pra minha cara de trouxa.

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