Dentro

As coisas iam bem no trabalho.

Era uma tarde de sexta-feira – mais uma – e ele estava terminando o que havia sido uma ótima reunião com o cliente. Poucos dias antes, havia sido promovido para um cargo mais importante que traria novos benefícios à altura das novas responsabilidades. Terminou a apresentação, apertou a mão e fechou o negócio.

Pra comemorar, happy hour da firma. Ligou para aquela garota e a convidou para ir junto. Ele poderia buscá-la em meia-hora. Saiu do escritório e entrou no elevador com os colegas de trabalho, com quem trocou piadas até chegar no estacionamento. Se despediu deles, mesmo sabendo que iria vê-los mais tarde. Caminhou até o carro recém-comprado, entrou e ligou o rádio. Tava tocando uma de suas músicas preferidas. Um daqueles raros momentos de sincronia musical perfeita que parecem ter sido montados como a trilha sonora de um filme. Abriu as janelas do carro e deixou que a brisa da noite o arrancasse um sorriso. Mas não tanto quanto arrancou a moça que descia do prédio para encontrá-lo vestida pra matar. Ela entrou no carro e deu-lhe um beijo. Ele aproveitou o breve momento em que ela deu aquela última conferida na maquiagem no espelho do carro pra dar sua própria conferida, mas em todo o resto dela. Apoiou a mão na coxa da moça e pisou no acelerador.

Chegaram no bar minutos depois, onde os amigos já esperavam. Sentaram à mesa, serviram os copos e danaram-se a falar de trabalho, televisão, sexo e o que mais viesse à mente. O único tabu da noite era a política. Mas talvez alguém tenha tentado começar um discurso sobre como o governo era uma merda.

Depois que o ponteiro menor do relógio rodou algumas vezes, a moça quis dar o fora dali pra ir dançar em alguma boate. Dançar passava longe de ser o forte dele, mas a ideia de ficar a noite toda de corpo colado com aquela mulher maravilhosa não era das piores. Seu jeito desengonçado poderia ser tratado – ou, no mínimo, remediado – com o contínuo consumo de álcool. E não é que ele se divertiu? Até a música do rádio o DJ fez o favor de tocar. Um presente inesperado pra fechar com chave de ouro o fim de uma noite do fim de uma semana praticamente perfeita.

Sentiu aquela vontade de ir no banheiro e pediu licença para a moça. Chegou no banheiro pensando no vestidinho apertado dela e na maravilha que seria tirá-lo.

Foi ao mictório e esvaziou a bexiga, criando espaço pra mais cerveja que, seja no bar ou na boate, estava excepcionalmente gelada naquela noite.

Terminou o serviço e foi lavar as mãos. Olhou para os lados e se viu sozinho naquele espaço pequeno. Voltou o olhar para as próprias mãos e para a água corrente que as lavava. Fechou a torneira e pegou o papel-toalha pra se enxugar. Jogou o papel no lixo e se prontificou a sair dali, não sem antes notar, mais uma vez, que estava sozinho.

Se olhou no espelho e viu todas as marcas do rosto. O sorriso não estava mais lá. E o cara que olhou de volta deixou, por uma pequena brecha da mente dele, escapar o pensamento mais oprimido daquela cabeça.

Eu nunca me senti tão vazio.
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