Não afaste quem pensa diferente

Imagem original de Unsplash

As coisas são bem estranhas nesses tempos de redes sociais, onde nos cercamos de contatos que queremos, escolhemos quem pode ou deve ficar em nossos círculos de amizade e onde algoritmos controlam o que recebemos de informação.

As opiniões diferentes ficam isoladas das nossas vidas, mas isso não quer dizer que elas inexistam: algo que não é de seu conhecimento existe do mesmo jeito, quando falamos de ideias agressivas e ruins também.

O fenômeno de intolerância, xenofobia e homofobia que beiram o pensamento fascista está se espalhando. Não adianta jogar a sujeira para baixo do tapete. Ela está lá, nos seus círculos familiares, roda de amigos, trabalho, pontos de ônibus e toda sorte de lugar.

Artigo I:
Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.”
- Declaração dos Direitos Humanos

O simplismo dado por conceitos como “família tradicional”, “inaturalidade”, “bandido bom é bandido morto” e outras falácias corriqueiras entrega uma solução pronta — a famosa “solução miojo” que reduz fenômenos complexos a outros que possam ser entendidos facilmente, entregando uma solução prática a um problema que causa medo, raiva ou comoção pública.

Então, o ser humano acaba por comprar a solução mais fácil e a promessa que parece entregar o resultado de forma mais rápida — mesmo que esse resultado venha a sacrificar um tanto de outras coisas. O povo então clama por barbárie, como uma turba enlouquecida.

Algumas dessas pessoas são apenas mal informadas, estão inflamadas pelo momento ou estão perdidas no meio do tiroteio — manipuladas por seus títeres invisíveis.

O que precisamos é tentar “salvar que pode ser salvo”, abrir o diálogo e passar pra frente o que temos de bom.

Não devemos ser coniventes e nos calar, mas sim tentar trazer para a razão aqueles que a perderam. Muito menos devemos passar a mão na cabeça dos que destilam ódio e falam coisa sem fundamentos — mas devemos batalhar com esses com outras armas na mão, não dando a outra face, mas mostrando que em face não se bate por motivo algum. Defender-se não é errado, mas atacar por si só com a ira em regresso só causa mais dor.

Ao virarmos a cara pros que estão perdidos, os deixaremos solitários em seus pensamentos, seus medos e suas incertezas alimentaremos essa divisão simplista — colocaremos diversos tijolos em um muro que causará mais mal do que bem a médio prazo. A intolerância irá crescer e a violência se instaurar.

Cada pessoa que a gente deixa lá pra trás é um soldado a mais que esse exército de acéfalos ganha. Precisamos é informar, dialogar, mostrar a história e incentivar o pensamento.

Entendo e divido a raiva momentânea que sentimos toda vez que alguém defende esses facínoras — principalmente quando palavras absurdas voam da boca das pessoas que gostamos, respeitamos e amamos.

Outras pessoas nem valem a pena, já estão perdidas, mas essa não é a maioria. Nem aquele moleque do trabalho, que está na sua juventude achando que o mundo é o que é porque os mais velhos não sabem o que fazem.

“Quando eu era um garoto de 14 anos, meu pai era tão ignorante que eu mal conseguia suportar ficar perto daquele senhor. Mas, quando completei 21, fiquei estarrecido com quanto ele havia aprendido nesses sete anos.”
— Mark Twain

Os mais jovens são os mais acessíveis a esses discursos, devemos protegê-los e tentar mostrar outras possibilidades de pensamento. Emprestar a eles paciência e calma, porque eles tem urgência.

Portanto, não excluam as pessoas ou ignorem elas no trabalho, nas rodas de conversa. Tente abrir um diálogo positivista, entender seus motivos. Se a coisa esquentar, deixa pra lá, conversa outro dia. Se não der pra conversar, então pondere e comece a analisar o cenário para ver onde pode fazer a diferença, preparando os que ainda não foram cooptados por esses ideais.

Se a gente criar esse apartheid ideológico teremos problemas sérios no futuro. Ponderem e não usem das mesmas armas dos fascistas, não sejam como eles. Sei que é difícil não querer formas uma milícia e sentar a mão em quem agride, dar um safanão bem dado naqueles que defendem o mal, mas não seremos diferentes se fizermos o mesmo.

Lembrem-se daquela frase de Nietzche:

“Acautele-se aquele que luta contra monstros para não se tornar um também. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

Não façamos o mesmo que os fascistas, não reduzamos as soluções complexas em coisas simples e ilusórias, não queiramos que todas as pessoas usem de nossa ótica e não forcemos a nossa visão de mundo sobre a de outrem.

Devemos abrir a mente do outro pelo diálogo, pela conversa e pelo esclarecimento, talvez com campanhas, com informação e mostrando o que está errado no pensamento daqueles que defendem a barbárie. Mostrar o que é mentiroso e o que é verdadeiro, mesmo que sejam óticas relativistas há como mostrar bem e mal.

Devemos informar, devemos tolerar, discutir e educar.

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