Idealismo tartufo

Cristiano Goulart
Jul 23, 2017 · 3 min read

Pequenas gotas se acumulam na parede do copo. Lentamente, a bebida aquece sobre a desgastada mesa cuja vetusta pintura já não cobre a nudez da madeira. Observo atentamente. Quantos fenômenos ocorrem ao redor enquanto estou ali sentado? — pergunto-me. A voz alta irrompe meu devaneio.

Sem vergonha! Todo mundo já foi nela e agora o cara quer namorar — resgato-me entre as gargalhadas ao meu redor.

Há tempos, quase religiosamente, bebemos no mesmo bar. O som do piano compõe a trilha do boteco duas vezes por semana. Os quadros na parede, quase todos em preto e branco, contornam o saudoso ambiente. Pendurada à minha direita, Ella Fitzegerald é eternizada frente à plateia branca.

Só eu conheço uns cinco que já pegaram. Alguém tinha que falar pra ele — esbraveja outra voz, desta vez na ponta esquerda da mesa. — Isso não é ser machista, ela é puta mesmo — complementa.

Estávamos em cinco. Ditadura, liberalismo, Estado mínimo, influência americana na política internacional? Todos contra. Uma semana antes, naquele mesmo boteco, tínhamos a companhia de três colegas de profissão mulheres. Conversamos por horas. Uma aula de feminismo entre choppes e porções de apimentadas batatas. Nada ouvimos que já não tínhamos escutado antes em grupos de conversas onde todos somos membros. “Temos muito o que aprender, mas seguimos no caminho certo”, ouvi de um deles quando as cadeiras já repousavam reviradas sobre as mesas abandonadas ao nosso lado. Quão opressores somos? — questionava-me entre os passos não precisos que me conduziram para casa naquela noite.

Por um instante, a simplória imagem da pia de casa cruza meus pensamentos. Por que todas as pias são tão baixas? — penso infantilmente. Recordo da noite anterior. Abro as pernas, em frente à pia, como se fora me exercitar para não tornar dolorosa a simples a tarefa de esfregar pratos. Impossível lavá-los sem curvar a coluna. Não é difícil, no entanto, concluir que pias de cozinhas não são fabricadas para homens (no Brasil, homens são, em média, de 10 a 15 centímetros mais altos do que elas — pesquisa IBGE-POF). Nas embalagens dos produtos de limpeza, rememoro, mulheres brancas sorriem.

Aqui, na mesa do bar, não os reconheço. A cerveja aquece diante de mim enquanto observo seus rostos de barbas mal aparadas que lhes servem de fantasia. Todas as palavras e ideias compartilhadas naquele último encontro parecem ter desaparecido ou, mais provável, não se fazem necessárias neste momento, entre homens.

À minha direita, o mais falante do grupo. Seguro de si, a cada afirmação, toca a mesa com a ponta do dedo indicador como se estivesse carimbando as próprias certezas. Regozija do prazer de poder comportar-se sob a ideia de homem que construiu, onde a mulher com muitas relações precisa ser denunciada. No pequeno prato diante de si, a pintura em forma de ramo com afiados espinhos desbota sob o gorduroso pedaço de carne, já dividido em pedaços. Garfeia-no com masculinidade. Come-no com poder. O poder de quem é dotado de fome e tem, diante de si, o objeto que irá saciá-la, a carne. O animal ali abatido, na consciência tranquila do homem burguês, nasceu para servi-lo. É objeto de sua fome. A mulher, na mesma lógica, também é submetida à categoria de objeto da sexualidade masculina.

Sinto-me como se estivesse em uma seita onde está naturalizada a adoção de um comportamento ritualístico a ser seguido na presença de mulheres e, entre nós, homens, pairasse uma segura zona franca. Os discursos são decorados, produzidos para enganá-las ou se fazer crer que as enganam. Idealistas tartufos — hipócritas !— são companhias a ser evitadas. O desenvolvimento de uma consciência de igualdade de gênero com reflexos na realidade exige, sobretudo aos fomentadores dessas distorções, esforços, rupturas. É de uma limitação intelectual sem precedentes que homens exponham afirmações de combate a práticas machistas na presença de mulheres e, intragênero, perpetuem lógicas retrógradas que dão sobrevida ao espírito a ser combatido.

    Cristiano Goulart

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