Os demônios de Lucíola (conto)

Nessa terra de deuses e demônios ela é a ninfa preocupada em adentrar a sua alma como sua única missão voraz.
Lucíola deita na maciez da cama como se fosse a última vez, para apossar a essência do seu amado trasbordando pelas cortinas que enfeitam o quarto sob a pequena claridade do abajur no canto da parede, pois, o silêncio desse ambiente quer emitir os sons da sua doce voz em sua mente. Seus delicados dedos passam pelos linhos da fina colcha que cobre o colchão, sua mente inquieta relembra as sílabas poéticas sem rimas e todos os versos dedicados para a beleza dos seus olhos. Deitada, cantarola as mais belas cantigas terminadas em “mar” e diz a si mesma que o infinito só existe se colocar a primeira letra do alfabeto na própria palavra. Se transformar em “amar”.
Mas ela brinca com a gramática e faz do seu nome, jogos ortográficos. Levando um brilho no olhar, decide fumar os charutos importados de maior renome encostados à mesa de canto e sob as fumaças das drogas, sorri delicadamente. Lucíola é a garota dos sonhos de qualquer homem, aquecida no leito de linho francês e passando as mãos em seus cabelos morenos de cachos moldados. Fuma charutos, enquanto o Martini esquenta na cabeceira e a azeitona apodrece. A pequena luz do abajur clareia o teto deixando marcas rudes da lâmpada empoeirada. Os sons de buzinas soam da única janela daquele quarto cinco estrelas da avenida principal. Ela lambe os próprios lábios para sentir o gosto do batom vermelho carregado da maquiagem e não sente nada. Enquanto ele não chega, ela é apenas um olhar fitando o teto sob sua cabeça e procurando respostas para o que aconteceu em seu íntimo.
Após algumas fumadas se levanta e caminha em direção à penteadeira para fitar a si mesma no único espelho. Seu rímel está carregado, suas lentes reforçam um olhar sedutor, o vermelho dos seus lábios se confundem com as linhas delicadas do seu rosto fino e os seus cabelos cacheados se movimentam com a fraqueza dos ventos. Sua atitude narcisista realça ainda mais a sua beleza. A beleza da doce garota das boemias noturnas.
Mas sua mente é exaustiva, projeta as nuances musculosas de seu amado e os seus lábios médios rosados, perdidos no rosto dos olhos castanhos e barba bem feita. Lágrimas querem escorrer do rosto de Lucíola, mas ela as interrompe ao passar sua delicada mão com anéis e joias nas pupilas dos seus olhos. Sob a fraca luz do ambiente, seu vestido cinza brilhoso é o único destaque do quarto. Após alguns minutos, ele chega.
Leva alguns segundos para que a fechadura da porta seja aberta e o olhar de Lucíola ir de encontro à musculatura da elegância masculina à sua frente. Ele traja um terno escuro com lenço branco no paletó, a barba bem feita e o gel dos cabelos lisos, fazem jus à imagem perfeita que ela imediatamente carrega em sua mente.
Com um sorriso cafajeste, ele joga a sua pasta em uma das poltronas e caminha em direção à penteadeira. Ela antecipa o encontro e se locomove vagarosamente. Ele leva seus lábios ao encontro dela e Lucíola o agarra fortemente, dispensando alguns centímetros a mais da sua altura. Terminado o beijo, ele sorri e a cumprimenta. Ela pronuncia o seu nome, Richard, como sílabas que sufocam a sua garganta e remonta ao que há instantes atrás estava pensativa.
Quando Richard leva as suas mãos em direção ao vestido cinza, a sua aliança é o maior destaque daquele quarto. O olhar de Lucíola para o anel volta para o sorriso do rosto dele e o seu peito acelera em uma velocidade imensurável. Logo, inicia-se o momento repetitivo. Apenas mais um encontro da semana.
Enquanto ele a despi, o amor transcende nela, o que ela chama de “demônios”.
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Danilo Passos.