Quando ele virou homem (crônica)

Crônica simples da noite.

Era tudo muito solitário. Cheiro de chuva e respingos pelo chão. O tempo nublado escondia as belezas de um sol que poderia se reluzir por aquela praça solitária. Ele estava assentado, brincava com o seu super-herói comprado há duas semanas na brinquedoteca mais badalada e organizada com os brinquedos mais caros da cidade. Cabelos penteados e um aroma floral que a sua mãe delicadamente o revestiu para aquele passeio na praça. Mas ela não estava ali, tinha ido comprar um jornal para aprimorar ainda mais a sua rotina monótona. Ele balançava seus pés que não alcançavam o chão e fitava a altura que o separava do banco para baixo. Parecia alto. Parecia.
Levou o super-herói para os ares e começou a fazer barulhos de voo com os lábios, mesmo sem um brilho radiante de algum sol para fazer daquela cena, algo digno de cinematografia. Ou quase isso. Foram dois minutos perdidos nas brincadeiras, quando os seus olhos mudaram os rumos.
De uma coisa é certa: nosso corpo inevitavelmente toma ações precipitadas que não temos o controle. E aconteceu com ele. Seus olhos defrontaram com a presença de uma garota muito bela.
A pele branca se perdia com os cachos marrons que ficava do outro lado da praça em um banco, enquanto a sua mãe a ajeitava no banco e aparentava sair. E saiu. Foi comprar jornal.
As mães leitoras assíduas se perdiam nos jornais, enquanto a inocência começava a tomar outros rumos.
Ele derrubou o seu super-herói e começou a fita-la impulsivamente. Ela trajava um vestido florido e os ventos foram cuidadosos em balançar os seus cachos morenos com uma sincronia aparentemente monótona. E os olhos da pequena garota brilhavam, como os tons reluzentes e esverdeados de uma esmeralda. Ele estava boquiaberto. A surpresa do olhar fez isso com ele. Por ventura, não entendia nada do que estava acontecendo com tudo em si, resumidos a batimentos cardíacos acelerados e imagens sendo fincadas em seu cérebro. Era a vítima inocente do que os adultos chamam de paixão. Seus seis anos de idade agora era metafórico, porque em seu íntimo — e pela voracidade do olhar — poderia estar no auge dos seus vinte e cinco anos. E ele a admirava, enquanto ela desviava olhares e não se sentia sendo impressionada. Antes que o pequeno romancista pudesse se esforçar para por os pés no chão, a mãe voltou com o jornal. Pegou o super-herói do chão, deu uma pequena bronca, o colocou em seu colo e partiu.
Mas o seu olhar não quis partir. Ele era um homem. Sentia a inocência de uma admiração paixonesca, me perdoe o neologismo, mas o isso iria se tornar platônico.
Mas paixão é assim, inocência no primeiro instante e somente depois de algumas admirações que crescemos.
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Danilo Passos, 2014.

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