Quarto 241 (conto)

Olhos acirrados. Pele branca transformando o brilho de um diamante em um nada exorbitante. Pernas cruzadas e esmalte vermelho gritando na maciez do seu dedo. Sapatos dourados e vestido de cetim com uma cor indecifrável. Seus olhos carregam a sedução noturna e metaforizam as estrelas que insistem em enfeitar o céu friento e azulado de maio. Enxergo o reflexo da luz transbordando em seu olhar, mas suas pernas estão cruzadas. O restaurante é barulhento como a sinfonia de uma ópera das boemias de sexta, iguais àquelas que frequentávamos quando fui de encontro com a sua respiração ofegante em uma noite remota de Abril. Olhos acirrados e o vermelho dos dedos se locomovendo para ir em direção à taça de cristal sob a textura vintage da mesa.
Seus lábios se contorcem a medida que o licor importado se incorpora em seu tato labial e sua fisionomia seduz o garçom que passa próximo à sua mesa. Olhares que se trocam. Consigo observar a excitação do jovem homem de smoking com a bandeja prateada nas mãos carregando outras taças e um Moet & Chandon que tenta ofuscar o brilho do seu olhar. Você descruza as pernas e coloca a perna esquerda por cima da direita. Cruza novamente. Devolve a taça à mesa e volta as mãos para limpar o excesso do licor fincado nos lábios. O garçom prossegue o seu trabalho.
Suas costas vão de encontro ao encosto da cadeira e a sua inspiração é um pouco mais ofegante. De bandeja vazia, na outra mesa, o olhar dele insiste em te encontrar. Disfarces. Seus cabelos balançam com o vento do ambiente e seus cachos dourados tentam esconder os seus olhos se acirrando novamente, porém, seus lábios entornam um sorriso de meio canto, sua mão direita vai de encontro aos cabelos e o rímel dos seus olhos vira a linguagem da segunda excitação dele. O garçom vai a sua direção e a taça da sua mesa se encontra novamente com os seus lábios. O licor acaba.
Ele passa por você e lança um novo olhar. Brilho de diamante. Sua indiferença manifesta em seu rosto descruzando as pernas. Como uma analista severa, sua admiração pelo andar dele começa a se manifestar. O smoking infiltra em sua mente e o desejo arde em seu íntimo. Ajeitando o cabelo, você se levanta da mesa e segura um guardanapo da mesa próxima. Delicada, retira uma caneta fincada em um dos poucos bolsos do vestido e transcreve com a sua fina caligrafia um número de três algarismos. 241. Números que não seguem sequência lógica, pois, a lógica está em seu olhar que se encontra novamente com o garçom, dessa vez do outro lado do restaurante com um Monti Del Soli em mãos. Joga o guardanapo próximo à taça sem licor e escolhe a saída da esquerda.
Caminha com a indiferença e alarga os passos com ansiedade. O frio da noite balança suavemente os seus cabelos e o branco dos seus dentes alargam um sorriso ao ver o porteiro do renomado hotel de luxo e seus esmaltes vermelhos acenam em um movimento delicado. O elevador decide subir calmamente, pois, a sua beleza está dentro dele. Sem nada em mãos, apenas retira a chave do 241 ao chegar na porta, destranca e caminha em direção à cama do quarto principal. Se joga vorazmente e retira com os próprios pés, os sapatos. O relógio da cabeceira se encontra com o seu olhar que começa a contar os segundos. Minutos. Uma hora.
Ele bate na porta. Dois toques e entra. Caminha em direção ao quarto e você observa o mesmo smoking, mas, sem a bandeja prateada. Seu corpo não quer sair da cama e pede para ele retirar o seu vestido. Com sorrisos cafajestes, seus lábios se encontram e ardem em um beijo com gosto de licor misturado com um vinho tinto bordô. A noite estrelada começa.
Seus lábios dizem palavras maravilhosas e suas unhas insistem em retirar a calça dele. O ambiente começa a perceber que a sua ansiedade arde com o prazer e calor fincado em seu peito. Mas ele só retira a gravata e a camisa social e insiste em penetrar os lábios em seu corpo sendo despido. A noite estrelada de trinta segundos. Ele para no ar e seus olhos o fitam surpresos. Mas o garçom apenas sorri e retira do bolso a arma branca letal.
Não há tempo. Suas delicadas mãos tentam segurar a barba dele, porém, o corte é profundo. Seu vestido de cor indecifrável começa a ficar vermelho. Com o peito nu ele te deixa fitar o teto do luxuoso quarto e ignora os seus gritos afobados do ar se perdendo.
Veste o smoking e caminha até a portaria. Sem estampar um sorriso, sua fisionomia volta para mim que lhe entrego o bolo de dólares. Sorrio. Enquanto ele vai embora, termino de escrever em meu diário. E escrevo sobre os seus olhos, lembrando-me do seu sorriso de uma hora atrás.
Olhos acirrados, que jamais acordarão.
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- Danilo Passos, 2014.

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