Arquimedes e o Governador do Rio de Janeiro | Parte 2


(para quem não leu a parte 1 ainda, leia aqui)

O calor do verão que se aproximava enchia o ar de revoadas de cupins, as formigas aladas apareciam com mais frequência e mais um ano se arrastava naquele ritmo sem propósito da fazenda. Já tinha me acostumado a tantos anos recebendo por conversas distantes e esparsas somente resquícios de informação. Por isso nem notícias relevantes como a princesa ter decretado o fim da escravidão não me criavam desejos de passar dias e dias pensando em conjecturas políticas e desdobramentos possíveis. Claro que eu registrava com naturalidade qualquer notícia que viesse, mas não me sentia motivado a refletir sobre os assuntos como nos bons tempos. Mesmo ao ficar sabendo que o império tinha dado lugar a uma república, não senti a mesma excitação da época das casas do Catete e do Rio Comprido. Seguia com minha vida cada vez mais alheia a assuntos humanos, até quando um dos netos do velho Visconde apareceu com uma novidade. Era um jovem dinâmico e admirador de modernidades, que por força de um casamento muito proveitoso e próspero, tinha ido fixar residência em Piraí. Tal fato por si só não despertava em mim nenhum interesse especial. Tratava-se de outro rincão que por tudo que ouvia falar, era tão tedioso e modorrento quanto aquela Itaboraí à qual tive que me acostumar a viver.

Jamais escondi que prefiro a vida na cidade à vida na fazenda.

Quem trouxe uma mudança radical foi o jovem neto do Visconde. Através de sua admiração pela novidade chamada rádio, conseguiu fazer com que eu tivesse novamente em contato com um mundo de vibrantes informações e atualidades da capital que eu tanto ansiava voltar a saber com mais frequência. Foi uma questão de pouco tempo aprender a ajustar minha audição às ondas corretas de som para captar as vozes humanas que aquele aparelho engenhoso transmitia a enormes distâncias. Foi o início de um tempo prazeroso e de atividade mental intensa. Passei a aproveitar com gosto a variedade de assuntos, a maior velocidade com que as coisas vinham ocorrendo, as mudanças pelas quais a sociedade dos homens tinha passado naqueles últimos vinte anos. Todos esses fatores combinavam muito mais com a velocidade e com o ritmo pelo qual minha mente ansiava. Minha espécie não tinha passado milhões de anos sacrificando a mobilidade e a velocidade de seu metabolismo à toa. A mente de minha espécie exigia essa nova velocidade, meu pensamento demandava essa variedade de direções e alternativas que agora esse mundo dos humanos voltava a me oferecer. Passei a partir daí alguns anos recuperando o tempo perdido, preenchendo prazerosamente as lacunas de informação que meus tempos fora da capital haviam deixado. E também preparando meu entendimento, pois minha sensibilidade me avisava: os humanos estavam, talvez por influência de seus automóveis e aeroplanos, aumentando e muito a própria velocidade. Desde há muito eu desconfiava que a ciência humana iria acelerar a existência de sua espécie e suas interações com o mundo. Era um caminho aparentemente sem volta. E eu finalmente voltava a vislumbrar, mesmo que por um artifício da ciência dos homens, a proximidade com a política e os acontecimentos da capital.

Compartilho nesse ponto uma curiosidade: sendo um indivíduo de mente extremamente atarefada, jamais prestei muita atenção aos humanos em suas fases infantis de vida. Somente quando adultos e atuantes na sua sociedade, através de seus assuntos e conversas acabavam por se tornarem alvos de meu interesse. Portanto, não deixa de ser curioso que minha tão aguçada sensibilidade só dispensasse atenção ao nascimento de algum filhote humano quando esse fato era digno de alguma atenção. Os humanos, imersos em névoas de superstição e muito pouco conscientes da mecânica de seus instintos, podem chamar isso de premonição, sensitividade ou até magia. Mas isso é porque não entendem a intrincada teia de pensamentos, impulsos, instintos e na rara combinação entre esses fatores que apenas algumas raras espécies chegam a evoluir para alcançar. O fato de identificar acontecimentos que farão ondas maiores na superfície da realidade é para minha espécie algo tão compreensível (embora não rotineiro, e em muitos casos raro) quanto olhar para um céu de nuvens pesadas que se aproximam e perceber que a chuva não demora a cair.

Há mais coisas entre a fisiologia quelônia e a humana do que sonha a vã filosofia de vocês, primatas.

Assim foi quando nasceu o filho daquela moça pobre da fazenda. Segundo diziam os roceiros, ela “se amigou” com o filho de um português que já não era grande coisa. O português gerou um filho que era menos ainda, e este filho une sua vida de modos bêbados e briguentos com a da moça pobre. Naqueles últimos dois meses de calor do ano, quando no casebre que eles moravam perto dos limites da fazenda o choro da criança veio anunciado com saúde pela parteira, eu consegui ouvir de longe. Ouvi com a sensibilidade, sabia que ali estava nascendo alguém que iria fazer algumas ondas no mar da realidade. Mas como mesmo para uma tartaruga plena das capacidades que uma tartaruga tem, o futuro é algo feito de saboroso mistério. Só me restava aguardar para ver. Enquanto isso eu tinha muito rádio para ouvir e muitos assuntos para saber, não só do Rio de Janeiro, capital federal, mas de todo o mundo. A Europa, por exemplo: parecia não ter aprendido as lições deixadas por Napoleão, e por tantos outros antes dele. Continuava incapaz de tratar corretamente as feridas que volta e meia infeccionavam e causavam a tal doença chamada guerra.

Foi justo num período de guerra que aquele menino, filho da moça pobre com o filho do português começou a traçar por si próprio as trilhas da própria vida. Taciturno desde muito cedo, arisco e maltratado pelo pai bêbado, o menino que (por escolha da mãe) recebeu o nome de Januário teve seu primeiro momento de empreendedor. Tinha por volta dos treze anos quando se envolveu com as duas coisas que iriam mudar sua vida: o amor pelos caminhões e a falta de escrúpulos em se livrar de pessoas que o incomodassem. Não era algo de todo surpreendente. Januário era assim desde sempre. Tinha muito talento para certas coisas, e todas flertavam com o lado pior dos humanos: guardar rancor, se vingar e ouvir assuntos que não eram para seus ouvidos. E cresceu aprendendo a tirar bom proveito de todas elas. Ficava muito no armazém do Seu Noca, onde ajudava nos serviços gerais, fazia entregas rápidas e mandados em geral, sempre por trocados para ajudar a mãe em casa. Tinha permissão de Seu Noca para vender garrafadas de arnica e outros preparados que a mãe produzia pra conseguir ainda outros trocados para driblar a miséria. Conheceu ali o homem do caminhão, que vinha do Rio de Janeiro regularmente buscar produtos nas fazendas pra serem vendidos na capital, e apaixonou-se perdidamente pelo veículo. Conseguiu fazer amizade com o motorista, André. Descobriu que ele trabalhava para uma empresa que tinha vários caminhões cujos serviços eram contratados para diversos fins de transporte. Tão genuíno era seu interesse e tão perspicaz era o garoto que André se admirava. Acabou ensinando a Januário como dirigir o veículo e algumas noções da mecânica, já que segundo André “fretista que não sabe mexer em seu veículo de nada presta”. Quando André se meteu em um grande apuro por ter se metido em lençóis com a filha do Coronel Aristides, Januário tomou uma daquelas atitudes que moldam a vida de uma pessoa. Conseguiu convencer a André que o ajudaria a escapar do destino que o coronel reservara pra ele. Era costume dos coronéis da região castigar quem transgredisse a ponto de determinar-lhes a morte de maneira determinada, contou Januário. Amarrava-se o caboclo num mourão de cerca, derramava-se leite ainda quente da vaca pelo corpo nu do caboclo, e soltava-se um bezerro faminto para que mamasse na ferramenta do caboclo que escorria o leite da vaca. A morte, se não vinha pelas cabeçadas que o bezerro dava, à semelhança do que fazia com o úbere quando a teta não lhe saía mais leite, era providenciada pelo tiro de algum jagunço após todo aquele sofrimento.

Desnecessário dizer que André precisava sumir de vista, mas Januário ofereceu-lhe um acordo: em troca de tirar o coronel de seu caminho, André o levaria para o Rio de Janeiro. Queria trabalhar no transporte, sentia uma atração incontrolável pelas entranhas dos caminhões e sabia que era ali que conheceria a vida diferente e melhor que não conhecia, mas sabia existir e que um dia iria ser sua. André não entendia bem o que um rapazote de 13 para 14 anos podia fazer para tirar um coronel de seu encalço, mas por consideração disse que concordava. Eis que coisa de um mês depois daquela conversa, Coronel Aristides cai doente e vem a falecer. Em meio ao luto e à consternação que o fato causou, a morte por uma bronquite fortíssima com a qual o Coronel já lutava há alguns anos não foi de todo inesperada. Tanto que nem mesmo sua única filha e herdeira de suas terras e posses se preocupou em investigar o conteúdo do último vidro de remédios que o farmacêutico preparava regularmente para ele. A farmácia da região sempre dava prioridade ao remédio da bronquite do coronel. Sabendo que o velho Aristides não podia ficar sem o precioso líquido, diligentemente costumava levar pessoalmente os frascos, mas quando muito atarefado, preferia mandar entregar na fazenda os frascos de remédios com urgência, por algum garoto de mandados, do que correr o risco de atrasar e deixar o coronel sem remédio.

Ainda assim, absolutamente ninguém percebeu que o remédio para bronquite estava com um cheiro ligeiramente diferente daquela última vez. Até o próprio Coronel se o percebeu, não chegou a comentar com ninguém por não ter dado a menor importância ao fato. Na verdade, no dia seguinte ele já tinha esquecido, para nunca mais lembrar. Quando piorou e caiu de cama, sua preocupação tornou-se apenas sobreviver, mas a hora já era próxima.

A mãe de Januário desconfiava que o filho um dia seria um homem importante. Sentia a partida dele, mas imaginava que no Rio de Janeiro a vida o trataria um pouco melhor. No mínimo apresentaria a ele oportunidades muito mais variadas que as daquela região. Januário partiu para o Rio de Janeiro. E a capital que desde que cheguei de navio junto de um marujo inglês mais de cem anos antes, que passou a fazer parte indissociável de minha vida, passaria a fazer parte da dele também. Dele e de seus descendentes. Mas essa é uma outra parte da história, que ainda contarei mais à frente.


Continua…

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