(Parte 1: leia aqui)

(Parte 2: leia aqui)


Na fazenda eu continuava a ouvir assiduamente as notícias do rádio, aquele aparelho que já havia se tornado uma instituição. A popularidade do dispositivo não parava de crescer. O que há tão pouco tempo parecia apenas uma novidade estranha aos olhos dos homens mais desconfiados, acabara por cair no gosto de todos. Até os caboclos mais cabreiros já tinham aceitado que a novidade vinha para ficar, provavelmente convencidos pela popularidade dos programas que transmitiam música regional, modas de viola e afins. Ao mesmo tempo em que eu ouvia notícias de que a guerra finalmente chegava ao fim, percebia que o futuro estava prestes a me levar daquele lugar. Como quem vê as peças de um quebra-cabeça se encaixando e dando vislumbres da imagem que ele formará, sentia cada vez mais que algo num futuro não muito distante me faria dar as costas para a vida no campo. E quando comecei a ver Januário com mais frequência, comecei a ter cada vez mais certeza de que ele teria algo a ver com isso.

Desde que tinha ido embora para o Rio de Janeiro, volta e meia eu ouvia algo a respeito de Januário nas conversas das pessoas. André tinha cumprido sua parte no acordo. Januário, ao que parece, começara o trabalho como aprendiz de mecânico logo que chegou à capital. Uma vez ou outra cobria a folga ou a falta de algum motorista. Apareceu na fazenda algumas vezes. Parecia feliz como eu nunca tinha visto. O menino taciturno, calado por trás daquele olhar de ave de rapina, não tinha passado a ser um bobo alegre da noite para o dia. A felicidade que se identificava nele parecia mais uma feroz agitação, aquela discreta pose arrogante do cão que acabou de expulsar o desafiante de seu terreiro. Quem conheceu Januário criança e o visse anos depois na boleia do caminhão perceberia facilmente: a felicidade que sentia não era um sentimento belo e alegre, mas antes uma feroz consciência de poder. Como se no controle daquele pesado veículo, todo ódio que acumulou em sua curta vida pudesse ser transformado em combustível, óleo, fumaça e força. Ferviam nele o ódio ao pai e uma mistura de um amor piedoso e um desesperado desprezo pela mãe. Uma revolta cuidadosamente abafada por aquela pobre mulher não ter sido forte o suficiente para matar aquele homem logo, antes de ser abandonada por ele. Eu conseguia sentir o cheiro do ódio que ficara impregnado em Januário, escondido e disfarçado ali entre sua pele e sua carne, o ódio por aquele homem que nada tivera de amor por aquela mulher ou pelos filhos que havia posto nela.

A cada vinda de Januário à fazenda eu percebia na velocidade de sua fala e no aumento de sua calculada arrogância o progresso e o rumo que sua vida tomava. Percebi quando ele apareceu com um caminhão velho, mas guiado com um orgulho inédito, que ele tinha conseguido de algum jeito economizar o suficiente para comprar um caminhão seu. Daquele momento em diante, ficou claro para mim que meu caminho e o dele estavam cada vez mais próximos. Não demorou muito para que Januário começasse a trabalhar com uma dedicação ainda mais febril do que quando começou a lidar com os caminhões. Enquanto as notícias do fim daquela guerra tão inédita e abrangente estar próximo começavam a tomar conta das ondas do rádio, Januário intensificava seus fretes, e depois de alguns meses sem dar notícias, eis que surge ele na fazenda e inicia conversações no intuito de me levar embora. Até hoje tenho certas dificuldades para explicar como me senti naquele momento. Parece que cada vez que me lembro, me assaltam mais dúvidas que explicações. Mesmo para alguém com minha experiência e meus anos assistindo e analisando a vida, é difícil pesar e quantificar a mistura de excitação por saber-me diante da volta para o centro dos acontecimentos, para a capital do país, e ao mesmo tempo o terror por conta do mistério por trás da escuridão da alma de Januário e o mistério que esse futuro reservava para mim. Um misto de medo, aventura, horror, ansiedade e prazer que até hoje me deixa intrigado.

E em um belo dia de sol, enquanto eu ouvia a programação matinal do rádio, vieram alguns jagunços da fazenda, me colocaram em um carrinho de mão e dali, para a carroceria de um dos caminhões de Januário. O próprio fez questão de dirigir. Havia uma divertida expressão em seu rosto, o mesmo sorriso de um rapazote que ganhara uma aposta que todos consideravam perdida. Naquele dia, dali da parte traseira do caminhão, ouvi da boca de Januário o novo e tolo nome pelo qual doravante eu seria conhecido: Tutão. Ao que parece, ele me chamara por esse nome desde que ele era criança. Não que isso tivesse grande importância para mis, mas que o nome era tolo, isso era.


Continua…