O “monstro do dinheiro”

“O Jogo do Dinheiro” não passa de um filme de refém. É certo que os bons desempenhos de George Clooney e Julia Roberts ajudaram bastante a elevar o nível de qualidade, e o roteiro ágil também faz com que a pouca profundidade com que o tema de fundo é tratado seja suavizada a um ponto que não incomode na grande maioria do tempo de exibição.

Pode-se dizer que o filme tem uma boa premissa, uma boa direção e execução técnica, mas peca pela variação muito grande entre as motivações dos personagens. Você tem no lado positivo, George Clooney através de uma interpretação extremamente à vontade, mostrando as entranhas de um tipo de celebridade jornalística muito facilmente identificável com as do nosso mundinho real. Julia Roberts também consegue de maneira muito competente mostrar com grande sensibilidade e concisão aquele tipo de profissional que faz com que tudo funcione nos bastidores, e o jovem Jack O’Connel entrega um bom e convincente desempenho no papel do cara comum que não evoluiu (pelo contrário, acabo na pior) por conta da própria limitação intelectual e sucumbe à alienação de um mundo midiático que te convence de que tudo parece fácil. O clássico caso do cara bom levado a uma situação-limite.

E você tem de outro lado alguns personagens que se não totalmente dispensáveis à história, são mal escritos a ponto de destoar na trama de maneira a beirar o patético. Exemplos são os policiais totalmente perdidos, que ora se demonstram competentes taticamente, e numa próxima cena se demonstram péssimos no aspecto estratégico. Ou o produtor-alívio-cômico absolutamente fora de lugar no tom sério e urgente que a trama acaba assumindo, e a cereja do bolo que é o vilão: tão, mas tão, mas tão unidimensional que até em animações da Disney dos anos 30 e 40 você encontra mais profundidade e complexidade de personagem.

Por fim, o filme até parece apresentar uma crítica séria ao mundo louco da especulação financeira e do descontrole total do mundo do “dinheiro digital”. Só que para quem é conhecedor de histórias como as apresentadas em Clube da Luta e Mr. Robot, dá pra perceber claramente que esse assunto é muito mais bem explorado em outras obras do que da forma extremamente maniqueísta apresentada aqui.

Acaba que dica final é abraçar o lado “filme de refém” e deixar o lado “crítica ao sistema financeiro” em segundo plano. Você ao menos se diverte mais aproveitando o que o filme tem de mais competente.