Esta Semana | Segunda, dia 1, sonho 1:
A professora racista


No primeiro sonho, eu estava de volta à mesma sala de aula onde estudei na sexta série do ensino fundamental (ou como chamávamos na época, primeiro grau). Irônico pensar que naquela época eu achava a maior velharia quando o pessoal falava que “fez científico”. Hoje, quem nomeia seu período estudantil com um termo antigo sou eu. O que me leva de volta ao cenário do sonho, a sala de aula.

Aquela fileira de salas construídas em uma estrutura comprida em formato de deck de madeira era jocosamente apelidada pelos alunos de “galinheiro”. A parte do prédio onde as salas eram de cimento, tenho certeza que foi apelidada de “chiqueiro” só depois, pra efeito de combinação e diferenciação, já que o galinheiro era um apelido que caía bem mais como uma luva para aquela ala da escola onde ficava minha sala da sexta série (e a da oitava também, outra sala no galinheiro) do que chiqueiro para as menos expressivas, com paredes brancas chapiscadas e grades nas janelas que davam para a quadra de esportes.

Eis que estava eu de volta ao galinheiro, com sua estrutura da madeira suspensa no ar, naquele morro coberto por um bosque de bambus que se erguia por trás da prefeitura da cidade. Usava algo diferente do uniforme obrigatório da época de colégio. Era uma camisa xadrez que mesmo não pertencendo ao período em que estudei ali, tenho certeza que só poderia ser usada com tranquilidade até os anos 90, de qualquer modo. Lembro que no sonho tinha consciência da minha condição de recém-chegado, de elemento novo em uma turma de alunos já estabelecida. O sonho não permitiu perceber se era o contexto de um curso, uma faculdade ou o tipo de aula que seria dado ali. O único elemento detalhado além do cenário tão familiar era a professora.

A professora era uma mulher relativamente jovem. Parecia pouco mais que uma aluna. Era uma mulher bonita, mas vestia-se e se portava de uma maneira calculadamente pouco atraente. Usava motivos afro no cabelo, nos poucos acessórios e nas roupas, embora tivesse a pele pouca coisa mais escura que a minha. Falava com um tom ligeiramente agressivo na voz, coisa que cansava quem a escutasse falando por mais de cinco minutos. Não lembro em que ponto ela começa a dirigir a palavra a mim, mas percebo que a cada coisa que ela diz, a intenção é me acusar de algum ato de racismo. Vendo que não concordo com ela, sua agressividade e insistência começam a se tornar cada vez mais incômodas. A cada momento da aula ela retorna o assunto à minha pessoa, tentando pregar em mim acusações, conceitos e atitudes que jamais tive. Nesse ponto do sonho começo a chegar no limite que separa meus sonhos dos meus pesadelos, o lugar onde o meu emocional é incomodado, o ponto onde começa a vontade de querer sair dali, de acordar.

Ficou claro para mim que ela tinha um objetivo. Sua intenção era me colocar em uma situação vexatória diante dos outros presentes na sala. Em sua loucura obsessiva, ela desejava me usar como fantoche, me elegeu ao papel de “branco opressor” (rá!) que seria forçado a ficar no lugar do “negro centro das atenções negativas” de outrora. Eu ouvia as risadas, mas consegui desassociá-las. Me protegi no fato de que eles não me conheciam e de que isso impedia que tivessem razão para rir baseados apenas nos dizeres daquela mulher. Pelo menos com as risadas deles eu não iria me preocupar, já que tinha que me concentrar para lutar contra a atitude desnecessária e o ressentimento mal direcionado daquela mulher. Em certo ponto daquela discussão, ela veio sarcasticamente sentar-se ao meu lado e quis comparar nossos tons de pele. Pouca coisa de diferença, mais para ela. Nesse momento tive um brilho de reação na mente, como se o sol tivesse escapado por dentre nuvens e clareado o dia por um pouco. Tirei uma foto da minha carteira (curioso, uma carteira de borracha verde, nada mais fim dos anos 80, início dos 90) era minha avó materna, mestiça de negro com índio na maior parte da mistura, com sua pele cor de madeira, seu cabelinho preso num coque muito bem arrumado e aquele sorriso inconfundível. Olhei nos olhos da professora possuída pela fúria do ódio racial e disse, “Esta é a minha avó. Olha a pele dela, olha meus lábios, sua idiota. Se isso tivesse alguma importância, eu sou mais negro que você e você está sendo hoje e aqui mais preconceituosa comigo do que me acusa de ser com quem quer que seja.” Levante-se e vá dar aula, pare com esse fanatismo imbecil.

O sonho terminou aí, lembro de uma tentativa de resposta da professora balbuciada entre dentes, mas o confronto a sua desmesurada agressividade a calou. O desmascaramento do ódio e do comportamento obsessivo e sociopático que permeavam sua aparente luta por justiça fez com que ela recuasse, e tendo me sentido melhor, não acordei. Passei para outro sonho completamente diferente.


“Esta Semana” é uma série de exercícios textuais onde me proponho a descrever as experiências oníricas ocorridas em uma sequência de cinco dias.

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