Alerta Vermelho — Daniel Vianna

Ou “O que o corpo sente, a mente ignora”

(Sugestão de trilha sonora para a leitura: Beethoven: Symphony No. 9 In D Minor,Op.125 — “Choral”. 1. Allegro ma non tropo, un poco maestoso — Herbert Von Karajan)

link Spotify: https://open.spotify.com/track/5u5gjokKvUHmSwhbgEwj20

O despertador tocou no horário de sempre.

Apertou o botão de soneca. Por quatro vezes.

Vinte minutos depois, acordou. Desta vez, pra valer!

Levantou-se, colocou os chinelos.

Dirigiu-se à cozinha. Tomou o seu café — de um gole só!

Estava com pressa!

Não deu tempo de ler o jornal. Nunca dava. “Em vinte minutos, o trânsito ficaria impossível!”

Entrou no banho e lavou-se rapidamente. Os números do relatório de fechamento o acompanharam durante as ensaboadas, junto com as espumas de sabão que desciam pelo seu corpo em direção ao ralo. “Preciso fechar aquilo hoje, sem falta!”

Terminado o banho, fez a barba e passou o desodorante. Não se esqueceu do ansiolítico. Faltavam três para acabar a cartela. “O suficiente para esta semana!” –respirou, aliviado. Para terminar, duas borrifadas de perfume na nuca.

Abriu o armário, escolheu a camisa azul claro. Pegou a calça escura, o cinto e os sapatos da mesma cor. Precisava engraxá-los. “Talvez no próximo fim-de-semana.”

Hora de partir.

Beijou a esposa, que ainda dormia. Ela balbuciou alguma coisa, sonolenta. Não conseguiu entender. “Querida, tenho que ir…depois você me liga no celular.”

Antes de fechar a porta da sala, ouviu um barulho. Algo parecido com um gotejar. Mas não dava tempo para ver o que era. “Depois eu vejo! Deve ser alguma infiltração.”

Então desceu pelo elevador até a garagem. Chegando junto ao carro, colocou a mochila com o laptop no porta-malas. “É mais seguro assim”. Deu a ignição no carro, fixando os olhos no marcador de quilometragem: já havia passado dos cem mil! Precisava urgentemente marcar uma revisão. “Talvez no próximo final de semana.”

Abriu o portão pelo controle remoto.

Saudou o porteiro e saiu depressa, para não “dar bobeira” na porta do prédio. O trânsito já se iniciava na porta do seu edifício! “Paciência… vou ter que encarar!”

Sonolento, parecia que o carro estava no piloto automático.

De repente, “acordou”: ouviu a primeira buzina do dia! Foi o suficiente para dar corda a uma “orquestra sinfônica”, que tocou sem parar até o semáforo fechar. Alívio!

E tédio.

Ligou o rádio para relaxar.

Notou um barulho crescente de sirene ao fundo.

Olhou no retrovisor. Nada!

Aumentou o volume do rádio.

O barulho lá fora também aumentava, na mesma proporção.

Simplesmente não conseguia escutar o locutor do programa.

“De onde vinha aquele ruído?”

Então, o barulho de sirene cessou, o rádio ficou mudo.

Notou algo estranho no painel do carro: “Que porcaria é essa?” — um líquido espesso e escuro pingava, lentamente, pelo ventilador do carro. “Já devia ter levado essa lata-velha para a revisão!”.

Resolveu examiná-lo com um dos dedos. Ao vê-lo mais de perto, levou-o à boca.

“Sangue?!?!”.

Assustado, olhou para os dedos novamente.

“Estranho…” — girou as duas mãos para se certificar de que não havia nenhum corte.

“Ahh!!!!” — deu um sobressalto, ao ouvir o brusco retorno da sirene.

Então, resolveu abaixar os vidros e botar a cabeça para fora do carro: não havia nada atrás dele! Olhou para os lados: nada também! Para baixo do veículo: sangue! Esparramando-se pelo asfalto, escoando a partir do seu carro. Em pouco tempo, o líquido já havia se espalhado por toda a avenida e já havia formado um fluxo que desembocava no rio que a margeava.

“Meu Deus, atropelei alguém?! Estava a dois por hora, como é possível?”

Enquanto se debatia, olhando para todos os lados, os motoristas ao redor o ignoravam.

Pareciam não enxergar o que estava se passando.

Resolveu, então, bater no rádio, que voltou a funcionar.

Aumentou o volume — mas só conseguia escutar um chiado desagradável.

O sangue voltou a pingar pelo ventilador, desta vez com mais intensidade.

Fora do carro, o asfalto já havia desaparecido por completo.

“Estou ficando louco?? Será algum efeito colateral do remédio?”- indagava, tentando rever os seus passos. Lutava para manter um pouco de racionalidade.

No primeiro retorno que avistou, deu meia-volta e pisou fundo no acelerador, de volta para casa.

“Meu Deus, estou alucinando!”.

Vôou com o carro pela rampa da garagem. Estacionou o carro de qualquer jeito e pegou o elevador.

Ao entrar pela sala de estar, ligou a TV: “Devem estar noticiando isto, não é possível! Ou sou eu o maluco da história?!”.

Julgando-se protegido pelas quatro paredes, seu ouvido voltou a zumbir.

“Aquele barulho de novo! Deus, aqui dentro não!” — o barulho de sirene havia retornado, desta vez de forma ensurdecedora!

Sangue começou a escorrer pela televisão, sujando todo o chão da sala.

Olhou para o teto: uma crescente mancha vermelha o dominava.

Gotas vermelhas caíam, lentamente, se juntando à poça formada perto da televisão.

“Aquelas gotas que ouvi antes de sair…mas como?!! Alguém me ajude!!! O que está acontecendo?!”

Correu assustado em direção à suíte, para acordar a esposa. Ela não respondia.

– Amor!! Amor!! Acorda, pelo amor de Deus!!!

Desespero.

Ao fundo, o barulho da sirene continuava, com toda a intensidade.

Toca o despertador.

Soneca ….Acorda …..Levanta….Beija ….Come………………………………

Café …Xícara….Relatório…..Jornal….Sem falta….Pressa ….Tempo …….

Prazo…..Banho …..Barba….Ansiolítico….Trânsito …..Sangue ……………

Impossível…..Paciência!!

Acorda, suando frio.

Vai direto para o banheiro.

Algo o incomoda, mas ele não sabe o quê.

Olha-se, então, no espelho: algo escorre de seu nariz.

Tenta se acalmar, ao ver que se tratava apenas de um filete de sangue.

Por fim, reclama em voz alta:

— Este ar seco está de matar!!

FIM

“Para que discutir com os homens que não se rendem às verdades mais evidentes? Não são homens, são pedras. Tenho um instinto para amar a verdade; mas é apenas um instinto.” — Voltaire

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