O salto — Daniel Vianna

Se o medo da mudança tomasse forma, com quem ou o quê ela se pareceria?!

“É preferível suportar os males que temos do que voar para aqueles que não conhecemos.”

William Shakespeare

Àquela altura, não haveria volta. Retroceder era impossível. O estômago revirava, a saliva fugia e um caroço inesperado lhe travava a garganta.

Daquele local privilegiado, tudo era perfeitamente visível. Todos os personagens da sua vida desfilavam diante de seus olhos: a esposa, com um olhar que oscilava entre apoio e insegurança, do outro lado da piscina; os filhos, que brincavam, sentadinhos na beirada, desavisados e alegres; os pais, que deitados nas espreguiçadeiras não prestavam muita atenção; e vários amigos: alguns o olhavam com olhar de desconfiança, outros de zombaria e outros apenas conversavam entre si, tomando suas cervejinhas do lado de fora da piscina.

Concluiu que ninguém haveria de impedi-lo: a escolha era única e exclusivamente sua. Ao perceber isto, sentiu o bambear das suas pernas.

Concentrado no silêncio atordoante que se amplificava a cada respiração, ouviu um grito de desespero. Atordoado, começou a virar a cabeça em todas as direções, procurando saber quem era o misterioso emissor.

Abaixo dele, um senhor de uns setenta e poucos anos, trajado de camiseta florida, calça branca e chapéu-panamá (uma figura que mais parecia ter saído destas propagandas de previdência privada, com o oceano azul ao fundo) começara a gritar com ele, impaciente. Não conseguia entender o que o velho queria: os seus ouvidos estavam devidamente tapados com borrachinhas e só conseguia escutar os seus grunhidos.

Ameaçou sair da posição de salto, quando viu que o seu agressivo interlocutor agora batia a bengala violentamente contra a coluna do trampolim, visando impedir o seu salto — como se tentasse impedir um suicida, prestes a rachar sua cabeça contra o concreto.

Fechou os olhos para não se distrair. Não podia deixar-se abalar. A água, imediatamente abaixo de seus pés, estava plácida e convidativa. O seu reflexo era nítido — seu corpo ainda esbanjaria juventude por muitos anos. “Chega de adiar; chega de mentiras…”. Os ecos não iam embora. Os joelhos vacilavam, cansados com a prolongada demora. Aquilo estava tomando muito tempo.

Uma fila de saltadores se formava logo atrás dele — alguns começaram a xingá-lo. O velho, graças a Deus, havia ido embora. “Quem seria aquele maluco?” — pensava. Voltou-se novamente para o ato: era agora!

Pés firmes na ponta, joelhos prestes a promover o derradeiro impulso. E então, seu corpo se jogou no espaço vazio sem volta, à mercê da gravidade. Não havia mais controle. Tudo era possível. Seus braços assumiram a dianteira. Suas mãos lentamente adentraram uma nova dimensão.

Ao trespassar a lâmina d’água, um salto, desta vez na consciência, flertou com o arrependimento imediato, acompanhado do desespero ao reconhecer, tremulando lá embaixo, através do azul ardido, trêmulo e perturbador do cloro, o chapéu-panamá: o velho misterioso o aguardava, sorrateiramente no fundo da piscina.

O velho imediatamente agarrou os seus pés e envolveu-os com correntes. O seu dedo indicador, esticado, conseguia tatear a superfície. Começou a se debater em desespero. Bolhas de ar saíam descontroladamente de sua boca, mas ninguém lá fora estava prestando atenção. Estranhamente, ninguém veio socorrê-lo. Haviam se esquecido dele.

Era inútil resistir: o velho o havia aprisionado.

Para piorar, estava ficando sem ar: e, em desespero, fechou os olhos.

Entregou a sua vida ao destino, não havia esperança. Por puro reflexo, inspirou.

E o ar veio!

Estranhamente, não fora com água que suas narinas inundaram seu corpo.

Estava, de fato, respirando debaixo d´água!

Voltou subitamente à consciência. Abriu os olhos: o fundo da piscina estava todo iluminado, por uma luz que não estava lá quando havia pulado. O velho estava encolhido, na única parte do fundo da piscina que se mantinha na escuridão. Não havia mais correntes em torno dos seus pés. O velho ainda o olhava.

Mas agora quem tinha medo era ele!

Percebeu então que havia algo de familiar naquele senhor. Tinha certeza de que o conhecia!

Mas agora não era o momento de tirar esta dúvida.

Tinha somente uma certeza: a de que uma nova superfície o aguardava, ansiosa para saudá-lo por sua arriscada, mas recompensadora atitude!

“Já vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo…”

Carta de São Paulo aos Colossenses 3, 9–10